Adilson Luiz Gonçalves
     
 

OUTROS QUINHENTOS

Era o início do ano 2000 e o grande diretor português resolveu aproveitar os quinhentos anos do descobrimento do Brasil para fazer um grande épico, em louvor ao espírito desbravador do povo lusitano.

Sua idéia era repetir o grande êxito alcançado com a obra anterior: a epopéia de Vasco da Gama; mas sem os pequenos contratempos daquela. Afinal, os naufrágios e desaparecimentos de figurantes na seqüência do Cabo das Tormentas, não chegaram a atrapalhar o resultado final... – Vão processar o Gigante Adamastor! – foi o que afirmou aos que queriam indenização. No mais, os “Tamancos de Ouro” - o “Oscar” do cinema luso - estavam muito bem dispostos na sala de estar de sua casa; especialmente o de efeitos especiais, pois o júri ficou estupefato com as cenas das naus a pique e afogamentos... Pareciam verdadeiras! Só estranharam o fato de que alguns dos que se afogavam, em vez de clamarem aos céus por suas almas, pareciam estar xingando alguém... “O cinema-de-arte é cheio de ousadia...”, pensaram.

Sua idéia era repetir a saga do descobrimento do Brasil, com um realismo nunca dantes exibido e precisão absoluta. A idéia de transmitir ao vivo logo lhe veio à cabeça!

- Sim! Isto fará de mim um cineasta do quilate de um Bertolucci ou Costa Gravas. Cuida-te, ó Spielberg! – Exclamou, cheio de entusiasmo.

Mas os custos de produção preocuparam seus financiadores.

- Precisamos dividir esses custos! Que tal fazer uma parceria com os brasileiros? Podemos oferecer-lhes os direitos de transmissão para as ex-colônias. Afinal eles também estarão a comemorar está data, ó pá!– sugeriram.

Seus olhos brilharam ao imaginar índios de verdade participando da encenação, todos pelados, como o homenzinho da estatueta de Hollywood, que ele já imaginava a calçar os tamancos que já tinha em casa... Daria até para fazer umas cenas picantes...

- Feito! Este vai ser a película mais bestial da história do cinema português.

No Brasil, poucos dias depois, a produtora selecionada recebeu o roteiro. O diretor descrevia os cenários que desejava, a quantidade de índios, os animais silvestres que comporiam a paisagem... Dava ênfase especial para que a reconstituição de época fosse perfeita! Queria veracidade absoluta e, para tanto, sugeria que os figurantes fossem submetidos a um laboratório, com estudos sobre o período. Segundo ele, isto despertaria, neles, admiração pelo passado lusitano. Até a leitura de “Os Lusíadas” foi indicada...

A produção brasileira, então, contratou um especialista em história colonial, e passou a arregimentar índios das tribos mais próximas do local escolhido para as filmagens, próximo da Baía Cabrália, na Bahia.

Os mais idosos recusaram-se a participar da encenação, sem explicar muito o por quê. Mas os mais novos – a maioria participante de projetos de preservação da cultura indígena, mas, também, estudantes regulares das escolas convencionais – ficaram curiosos com a proposta.

Tudo acertado, a equipe de produção e o historiador contratado chegaram ao núcleo onde todos os indígenas haviam sido alojados. Inicialmente, foi feita uma explanação sobre o projeto lusitano, seguida da leitura do roteiro, com ênfase para as cenas com a presença deles. Por último, foram apresentados os figurinos: basicamente cocares...

- Nós vamos atuar nus? – perguntou um dos mais novos, em meio a risos contidos de uns e olhares assustados de outras.

- Era assim que os antepassados de vocês viviam... – confirmou o historiador.

- Vocês devem encarar isso como uma encenação artística, sem nenhuma segunda intenção. – complementou o chefe da equipe de produção.

Só que o caldo entornou quando anunciaram a seleção de algumas mulheres para as cenas picantes com os portugueses invasores...

- O quê? Isso é um filme histórico ou a próxima edição do Big Brother Portugal? – gritou um dos mais atuantes do grupo.

Para conter o início de tumulto, o historiador anunciou, para o dia seguinte, o início dos estudos, para os quais havia trazido farto material. O sono e a curiosidade venceram esse ímpeto inicial, e todos foram dormir.

No dia seguinte, foi feita a releitura do roteiro e a leitura de “Os Lusíadas”, considerada indispensável pelo diretor português. Um dos índios achou que Camões havia exagerado um pouco na maneira como via os episódios. O historiador, ironicamente, disse que isso era natural, pois Camões, nessa época, já estava cego de um olho... Em seguida, o historiador passou a descrever aspectos dos descobrimentos e dos primeiros povoados lusitanos no Brasil. A presença dos jesuítas e sua proposta de evangelização também foram enfatizadas. Ele ficou surpreso com o nível de atenção e curiosidade de sua platéia, bastante superior ao que encontrava nos ambientes universitários. Fazia sentido, pois era uma história que havia afetado definitivamente a deles próprias, até então senhores destas terras e partícipes de seu equilíbrio.

Quando ele terminou sua apresentação, certo de haver cumprido suas obrigações contratuais, foi surpreendido por um simples e direto: - E depois? – proferido por um dos indígenas.

Ele olhou em volta e percebeu que todos esperavam, em silêncio, por sua resposta.

- Nós não éramos os donos da terra? Então eles as tomaram de nós, certo? – afirmou outro.

- Quantos índios existiam naquela época? Ouvi falar em alguns milhões... – Perguntou uma adolescente, na primeira fila.

- Se os jesuítas tratavam os índios bem, por que os portugueses os expulsaram do Brasil? – indagou outro. E assim, várias perguntas foram surgindo, até que o historiador fez um sinal pedindo calma – prontamente atendido –, pegou alguns livros que estavam num baú e sugeriu que fossem formados grupos de estudo. Os livros foram distribuídos e ficou acertado um debate para o dia seguinte.

E veio o dia do debate...

Por volta de duas horas da manhã, o chefe da equipe de produção brasileira foi acordado com batidas na porta de seu alojamento. Ao abrir, ainda sonolento, divisou o historiador, acompanhado por alguns indígenas.

- Podemos conversar, por um minuto? – pediu o historiador.

A conversa terminou pela manhã, mas ninguém parecia sonolento. Após o café, todos da equipe de produção iniciaram contatos telefônicos e montagens nos galpões. À tarde, um engenheiro chegou ao núcleo, indo direto para os galpões, onde o historiador já estava. Nem tiveram tempo de observar melhor as danças tribais que estavam sendo ensaiadas pelos indígenas, do jeito que vieram ao mundo, aliás, como viviam seus antepassados. À noite, toda a equipe se reunia para mostrar e avaliar os resultados obtidos. O núcleo foi tomado de um clima de ansiedade, afinal, faltava apenas uma semana para a chegada das naus de Pedro Álvares Cabral. O set da praia era o mais movimentado...

No alto do mirante, no mastro principal, o ator já se preparava para gritar o indefectível “Terra à vista”, quando um atobá, satisfeito da boa pescaria, o alvejou sem dó. Não teve tempo nem de fechar a boca... A série de impropérios que proferiu, transmitida ao vivo, só foi interrompida quando o dito cujo ouviu, pelo ponto eletrônico, outra quantidade deles endereçada a ele: - Estamos ao vivo, sua besta! E tua mãe não tem nada a ver com isto... – berrava o diretor. – Diz a fala ou vais te juntar aos desaparecidos do filme anterior.

No convés, “Cabral” – que já havia posto os bofes para fora por metade da viagem – lamentava, em pensamento: “Travessia por travessia, Cabral por Cabral, era melhor estar a filmar a viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral... De caravela ou hidroavião, íamos chegar por mar do mesmo jeito...”.

Lá estava o Monte Pascoal! No dia seguinte estariam em terra. No porão das caravelas a agitação era total. Em terra as equipes de filmagem – de terra e aéreas - da produção brasileira já estavam prontas. O diretor havia adorado as imagens dos ensaios do núcleo, enviadas pela Internet. Uma indiazinha, particularmente, já havia chamado bastante a sua atenção. Sentia-se, de fato, o próprio comandante da esquadra, pronto para conquistar, novamente, as terras brasileiras para El-Rei...

“Isto vai inflar tanto o orgulho dos patrícios, que vão espocar por todos os lados. Ai, Jesus!” – divagou. As transmissões vinham batendo recordes de audiência na “Santa Terrinha”...

Enquanto isso, na noite anterior à encenação do desembarque, um indiozinho, deitado em sua cama, lembrava do debate dos grupos, na semana anterior: seus antepassados haviam sido dizimados, escravizados, contaminados, corrompidos e violentados impiedosamente... O comentário, tristemente irônico, do historiador também passeava em sua mente: “Os jesuítas falaram de Deus para os nativos. Os conquistadores providenciaram um encontro pessoal com Ele, para os que não se submeteram aos seus intentos...”.

As caravelas já haviam recolhido suas velas e fundeado. Os barcos já se aproximavam da praia, que começava a ser ocupada por indígenas curiosos, na maioria mulheres e crianças. A naturalidade e sensualidade eram naturais e inocentes. A transmissão atingia índices próximos de 100%, afirmavam, a todo instante, os geradores de caracteres das emissoras da “Metrópole”.

Fora do alcance das câmeras, uma multidão de curiosos observava as filmagens. Escondido entre as árvores, o diretor coordenava, por rádio, os próximos passos da encenação do lado lusitano. O historiador e o chefe da equipe, um pouco atrás, mantinham o olhar fixo na praia, e o rádio pronto para ser acionado...

Quando todos os portugueses desembarcaram, o chefe da equipe brasileira acionou o rádio: - Agora!

Para surpresa dos atores lusos, dezenas de índios surgiram do solo, puxando cipós escondidos na areia... Entoando gritos de guerra ensurdecedores e assustadores, os indígenas passaram a voltear os intrépidos navegantes, imobilizando-os em poucos segundos. Ao mesmo tempo, um outro grupo lançou suas canoas ao mar e, com poucas remadas, alcançou as caravelas. Á bordo, a equipe técnica não entendeu nada, até que começou a ser lançada ao mar, pelos bárbaros habitantes daquelas terras pagãs.

Em terra, os invasores, refeitos do susto inicial, já gritavam palavrões e ameaçavam reagir. Foi quando as meninas e as crianças jogaram as sementes e frutas, que traziam, sobre eles...

- Mas o que é isto, agora? – gritou o “Cabral”.

A resposta veio com uma revoada de araras, que passaram a bicá-los em busca das sementes e frutas. As mais rápidas e satisfeitas já se aliviam ali mesmo...

Os telespectadores lusitanos assistiam, boquiabertos, aquela sucessão de descalabros históricos. Alguns se engasgaram com o bacalhau, e tiveram que ser socorridos. “Mas onde está o respeito?”, era o pensamento comum.

- Já basta de bosta! – ouviu-se, na praia, um coro camoniano. Mas o golpe de misericórdia já estava a caminho: centenas de cocos - lançados por catapultas escondidas atrás das árvores - atingiram com precisão os heróicos navegantes, inclusive os que haviam entrado em cena sem os trajes adequados – a equipe técnica de bordo, que tinham nadado até a praia, depois do mergulho forçado.

O público brasileiro – tanto o que assistia à distância, como o que via pela televisão -, inicialmente, acordou. Depois, não acreditou no que via. Mas, aos poucos, passou a torcer e comemorar a o desenlace das cenas. Os telefones começaram a tocar e quem não estava assistindo, sintonizou.

O diretor português, logo no início da investida indígena, correu para a praia, desesperado. Só se acalmou quando um coco atingiu suas partes pudentes. Já o historiador e a equipe técnica brasileira, comemoravam cada nova etapa bem sucedida como um gol em final de Copa do Mundo.

Ao fim de quinze minutos de ação fulminante, as caravelas tinham cocares tremulando no lugar das flâmulas reais. Em terra, os invasores, amarrados e ainda atordoados, eram circundados pelos indígenas, que dançavam seus rituais. Alguns índios abriram uma faixa nas areias, com os dizeres: “A gente não cai nessa de novo!”.

Um a um, os atores foram tirados do laço comum e despidos. Em seguida tiveram seus braços e pernas amarrados de forma que pudessem ser transportados em varas.

O “Cabral” resmungava: - Isto não estava no contrato... Vou processar este diretor f...

O celular do chefe de equipe tocou... Depois de desligar ele abraçou o historiador e, aos brados, comemorou: - Recorde de audiência no Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde... Está chovendo telefonemas e e-mails de felicitações e perguntando se vão reprisar o último capítulo!

O público abandonou sua posição, e foi comemorar junto com a equipe. A festa na praia só foi interrompida quando os indígenas pediram licença para carregarem seus “troféus” para a “aldeia”.

Quando já caminhavam, enfileirados, o historiador, rindo de se contorcer, falou: - Pô, pessoal: a gente já se divertiu bastante com o que planejamos, mas essa brincadeira que vocês inventaram, de imitar tribo antropófaga é de rachar o bico...

Retribuindo o riso, os indígenas responderam: - Mas quem disse que nós estamos brincando?

Liderando a “bicha”, o diretor português engoliu, em seco: - Ai, Jesus...

Adilson Luiz Gonçalves