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UM FILME DE PASOLINI REVISTO NUMA TARDE DE SÁBADO.
Entrei numa sala de cinema há poucos anos atrás para assistir "Saló, ou 120 dias de Sodoma", filme do polêmico e saudoso cineasta italiano PIER PAOLO PASOLINI (*). Durante a exibição do filme, boa parte do público ja havia se retirado da sala, demonstrando repulsa pela sucessão das cenas escatológicas, que denunciavam os horrores do Poder.
O filme parece não ter perdido sua validade sob nenhum aspecto após décadas de exibição, pois é uma furiosa advertência contra os fantasmas do fascismo que ainda pairam sobre nossas cabeças, numa tarde ensolarada de sábado em pleno século 21, ameaçado pela beligerância doentia de Bush, Blair, Sharon, Berlusconi... e o servilismo de Lula diante das exigências do FMI, ALCA, o obscuro desejo autoritário para controlar e amordaçar setores essencias da vida pública e o nosso emblemático subdesenvolvimento civilizatório. Respiramos aliviados revendo "Saló", como se estivéssemos protegidos contra a bárbarie autoritária de qualquer vertente de direita ou de esquerda. Mas será que a moçadinha que ficou fora do cinema, se manterá incólume ás mensagens da mídia aburguesada, e se manterá indignada com a hipocrisia e a injustiça social reinante que nos cercam diariamente?
PASOLINI cresceu sob a atmosfera apavorante do fascismo, enfrentou a pobreza e o desespero, e quase suicidou-se. Era um poeta, conhecia e repelia os meandros da psicologia humana autoritária, clerical e burguesa. Sua aproximação com o Partido Comunista Italiano foi conflitante. Talvez ele tenha se infiltrado nas entranhas mais perniciosas dos sistemas para sabotá-los, reinventando novos
delírios poéticos e libertários, assim como fizeram poetas visionários como CARL SOLOMON E ROBERTO PIVA, entre outros.
. Não acredito que PASOLINI tenha sido "excessivo", enfadonho, ou hermético demais para o seu tempo - prefiro acreditar no que nos alertava OCTÁVIO PAZ sobre essa incongruência, e dizer que a sociedade estava muito aquém de sua perspectiva de poesia e vida, pois a massificação dos meios de comunicação se comporta monstruosamente afetada pelos mecanismos de controle social, desde sua época impregnada pelo fascismo até os dias atuais de horrenda banalização globalizante. O poeta visionário foi sempre um solitário incorrigível diante da conformidade habitual.
Pasolini morreu em 2 de novembro de 1975.
Everi Carrara
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(*) Pier Paulo Pasolin, Itália:
Bolonha, 5/3/1922 - Roma, 2/11/1975
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