POR QUÊ ESCREVES, DOUTOR?

Por que escreves tanto, doutor,
Se teu ofício é aliviar a dor
Dos padecentes?
Se é uma quimera a tua profissão,
E mesmo assim cultivas tanto esta ilusão,
Que às vezes te sentes tão superior
Aos pacientes?

Por quê escreves tanto, ó charlatão
Se a ti foi dada outra função
Tão diferente?
Se tua sina é enganar doentes
Perpetrando furto aos mais carentes
E a todos tapear
Prometendo uma cura que não há?

Por quê escreves tanto, ó curandeiro?
Seria por sadismo ou por dinheiro,
Que tu escutas dos enfermos os ais,
Consolando falsamente aflitos pais
Com esta disfarçada hipocrisia,
Com a tua insensível alma fria?
O que tu queres mais?

Escrevo para abafar o pranto;
Escrevo para afugentar o espanto,
Para fazer de conta que não vejo
O espelho a refletir meu desespero;
Para fugir da angústia que me traz
O "corvo de Poe", o "Nunca Mais"
A grasnar todo tempo em meus umbrais.

Escrevo para iludir este tormento;
Escrevo pra suportar o sofrimento
Que é viver eternamente a escutar
O gemido de todos nós representado
Em cada paciente de quem estou ao lado
(Sendo impotente a fim de evitar),
Até chegar a hora do último suspirar.

Escrevo apenas para me manter ativo,
Para espantar o ócio, o vício, ou o falso alívio;
Escrevo para escapar da condição humana,
Pra sufocar no peito a dor tirana
Que me angustia e me atormenta.
Escrevo para encontrar um lenitivo;
Escrevo, enfim, porque sem escrever não vivo!

Raymundo Silveira

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