
CRIANÇA VELHA
Eu me escondi numa concha
e tive medo de viver.
E perdi a minha infância
num cipoal emaranhado
de culpas e remorsos.
E não brinquei
de boneca
e não andei de bicicleta
e não corri nas ruas.
E não me lambuzei
com o sorvete
gordo e doce
que estava
na vitrine da vida
para eu saborear.
Agora quero saber: quem foi?
Quem foi
que me traiu?
Quem foi
que não me deixou sentir
todas as delícias
da minha infância?
Quem foi
que me tirou da boca
o desejo de sorver
todos os segundos
da minha adolescência?
Quem foi
que me aprisionou
num cálice barato
e me fez acreditar
que aquilo fosse
taça de cristal?
Quem foi
que me fez pensar
que era pecado
ser criança?
Que havia proibições
nos “por quês” nos “senões”?
Aprendi a questionar agora.
Mas agora a minha infância
ficou distante
e eu não a posso alcançar.
Nem a minha adolescência voltará...
Dá para acreditar?
Fui uma criança velha
e me perdi nos caminhos
dos anos que passaram
rápido demais...
depressa demais...
Fiquei sem chances.
Deslocada.
Fora do tempo.
Neiva Pavesi