CARNAVAL
Tum tum tiscatum
Ta paralalá.
Lá vem a turba
O cortejo
Lá vem o povo
Que toma a rua
Para o trânsito
Desobstrói a cidade
Enche a rua de malícia
E clama por liberdade.
Lá vem a música
Os tambores
Atabaques
Tamborins e metais
Hinos pornográficos
Palavrões
Vendavais.
Lá vem o povo solto
Conduzido por autoridades
Bêbadas e felizes.
Olhos vermelhos
Dilatadas narinas
Corpos suados
Gritos alaridos
Lá vem o cortejo anárquico
Organizado
Lá vem o povo
Escorrendo pelas ruas
Pulando
Flutuando
Nadando entre fantasias e secreções.
São barões
Bailarinas
Pierrôs
E por que não? Colombinas
Tirolesas e piratas
Deuses e astronautas
Vampiros e palhaços
Príncipes e fantasmas
O povo escorre nas fantasias
Sem quaisquer ilusões
Canta e berra sua folia
Ginga e xinga palavrões
Estouram fogos tiros
O povo é o poder
No samba
Na folia
O povo quer o poder
É o que diz essa fantasia.
Tum
Tum
Tiscatum
Tum tum tum
Ta
Paralalá.
Ê povo ganha as ruas
Povo para o qual toda moral
De nada vale.
Ê povo sacode o suor da chuva
Remexe e rebola
Canta as marchas
Breca o ritmo
Desse progresso falsificado.
Ê povo
Tum
Tum tum
Tiscatum toma o poder de meus sentidos
Abre minha coluna vertebral em arrepios
Transforma meus pulmões em balões de gás coloridos
Infla inda mais meu coração emocionado
Torna meus cabelos serpentinas
Meus olhos confetes molhados
Com seu clamor de liberdade.
Ê povo da cidade do Rio de Janeiro
Quebra as garrafas da solidão
Ê povo
Sou da tua verve
Teu imo
E sinto meu sangue retumbar nos batuques do samba.
Ê povo expõe tua violência
Canta toda a malemolência
Ê povo
Sambo
E escorro pelas ruas
Como o mar das praias revolto em ressaca.
Ê povo
Quero poder contigo
Destruir tudo o que é poder.
Alexandre Acampora