Ao escolhido
Quando, por uma lei suprema da vida,
Um ser te chega ao peito, num vagido,
Tu, homem, sem espanto, lhe dás guarida,
Te ajoelhas e oras; teu filho é nascido!
Não vem à luz, o ser, parido do teu ventre,
Mas é do teu ser a célula que o germina.
Bendize a vida! Que teu amor se concentre
No sorriso dessa boca matutina.
Se entre todos os mortais, foste o escolhido
Para, de um anjo-filho, tu seres o pai,
Anjo te fazes, tuas asas são seu abrigo,
Tu o sacias no sal da lágrima que te cai,
Arrancas do seu peito apenas os espinhos
Que o fazem sofrer quando em hora ferida.
Teu filho nasceu e, como os passarinhos,
Não lhe arrancas as asas, vão voar à vida.
Em ti, ele há de se brotar feito poesia,
Ou em nuvem que brinca com a aragem.
A cantar, eis o teu pássaro da alegria,
Aos que o amarão tu lhes serás roupagem.
Dos seus sonhos, tu também te embriagarás,
Misturando amor ao teu braço forte.
Não sejas um ídolo, o amigo bastará;
Junto a ele, irás redourar a tua sorte.
E quando cansares das noites escuras,
Nele repousa teus olhos, mansamente,
Vislumbra tua obra, é das mais puras,
Depois, podes dormir, teu sono, somente,
Lizete Abrahão
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