ARQUEOLOGIA DE TUDO, por Pereira Penna

Carioca, reside em Belém, PA. O autor é poeta performático (conhecido omo Onna Gaia), ensaísta, Doutor em história, arqueólogo do Museu Goeldi, para o qual faz pesquisas de campo, diversos livros publicados de poesia e arqueologia, além de um dos fundadores do Grupo Poético A Malta.

Coluna de 23/08
(próxima coluna: 13/09)

Matema ou Poema?

Ao iniciar esta coluna, permitam-me uma prévia apresentação. Eu sou arqueólogo e poeta. Não sei se mais arqueólogo do que poeta ou mais poeta do que arqueólogo. Talvez esta distinção seja desnecessária, pois há poetas médicos, advogados, literatos e até vagabundos. Então, o fato de eu ser poeta, mas arqueólogo, não quer dizer nada. Entretanto, o fato de eu ser arqueólogo mas poeta, pode fazer muita diferença. Veja bem, caro leitor e o/ou leitora (ou seria melhor, leia bem ?), já houve tempo em que a separação da ciência em relação a todos os outros campos do conhecimento era não só prática corriqueira, como um modo de valorização e identidade do próprio saber científico. Isaac Newton, o revolucionário físico e matemático inglês que viveu entre os séculos XVII e XVIII, embora jamais tivesse imaculado a imagem da teoria e da especulação empírica da ciência, mantendo-a sempre, filosófica e racionalmente pura, também era astrólogo e alquimista. No início da ciência moderna, isto era comum: o cientista ter alguma atividade secreta. Porém, desde a lapidação ideológica, brilhantemente elaborada pelo filósofo francês René Descartes ainda no século XVII, com seu cartesianismo, a ciência vai se separando efetivamente dos demais saberes, até que vai torna-se super especializada e sem qualquer vínculo com qualquer tipo de irracionalidade ou racionalidade matematicamente improvável. Aí deu no que deu, essa ciência de mecânica fabulosamente poderosa, mas sem qualquer alma ou afetividade humana.

Contudo, como tudo na vida muda, o início do século XX, com a incerteza quântica, a descoberta do inconsciente e a busca de unificação dos campos energéticos ainsteinianos, uma nova configuração vem sendo atribuída à ciência. Entre em cena o holismo, que prioriza o entendimento integral dos fenômenos, substituindo o cartesianismo, que prioriza o entendimento específico do fenômeno. Agora, já se pode falar e até mesmo fazer, uma ciência que vai além das pretensões holísticas. Já se pode dizer de uma ciência que busca o entendimento estrutural da teia na qual todos os fenômenos compõem um mesmo e indivisível campo. Ora, meus amigos, isto implica que não só podemos, como devemos buscar o espírito dos fenômenos. Isto implica em reconhecer que a perspectiva humana faz parte dos fenômenos; que o conhecimento sobre qualquer fenômeno só pode ser validado quando identificamos a influência dele sobre os rumos afetivos da humanidade e vice-versa. Assim, nenhum conhecimento científico tem validade se não for validado pela natureza do espírito humano (os sentimentos, as emoções conscientes e inconscientes). Além disto, o próprio entendimento de humanidade está se ampliando e incluindo não só o ser humano, mas também os demais seres da natureza. Este é um caminho cuja trilha só agora está sendo aberta mas que não apresenta retorno.

É claro que as coisas não acontecem assim, de supetão. Elas acontecem irregularmente, heterogeneamente, às vezes por conflitos, às vezes por felizes coincidências, mas o fato é que a-con-te-cem !

Pois bem. Dito tudo isto agora posso dizer que é perfeitamente possível e válido fazer uma arqueologia em que seu discurso antes de ser uma formalidade prosaica, pode ser apresentado também através de uma informalidade poética. Pera lá, vamos entender isto. Não se trata de fazer versinhos preocupados com uma verdade qualquer. Porém, antes de mais nada, de entender que o conhecimento arqueológico é um discurso, uma narrativa. Ou seja, o conhecimento arqueológico, assim como o histórico, é um tipo de conto contado.

Contar essa narrativa em versos, é desafio para titãs da rima e da métrica. Ai!, eu estou longe disto. Por favor, não esperem isto de mim. Mas, agora vamos esclarecer de uma vez por todas o propósito do meu discurso: toda linguagem científica tem uma poética e a da arqueologia, antes de ser organizada como conjunto de elementos de um matema, é concebida como conjunto de cogitos de um poema. Ou seja, como toda poesia, a arqueologia é errática.

É possível que esta apresentação tenha ido longe demais e acabe por afastar possíveis leitores preocupados com um certo rigor científico. Qual rigor o quê, camarada. Já me basta a preocupação com textos feitos para serem publicados em respeitáveis revistas indexadas. Que me perdoem “os idiotas da objetividade”, mas aqui é para a gente fazer o que é certo, “pero sin nunca perder la ternura”.

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