ARQUEOLOGIA DE TUDO, por Pereira Penna

Carioca, reside em Belém, PA. O autor é poeta performático (conhecido omo Onna Gaia), ensaísta, Doutor em História, arqueólogo do Museu Goeldi, para o qual faz, inclusive, pesquisas de campo, diversos livros publicados de poesia e arqueologia, além de um dos fundadores do Grupo Poético A Malta.

Coluna de 13/09
(próxima coluna: 29/09)

Caros amigos, cá estou de volta. Desta vez vamos ver uma questão bastante atual: a situação do nosso patrimônio cultural frente a realidade histórica que vivemos. O principal problema do comportamento social atual é a supremacia de narrativas descartáveis, na qual todas as demais são niveladas por baixo. Fato tão marcante, que no Rio é comum as pessoas do povo dizerem ter, sobre qualquer coisa, uma “tioria” (assim mesmo, com i). Aliado a isto, temos a aceleração do cotidiano, especialmente através dos meios de comunicação, que abarrotam incessantemente a sociedade com uma chuva de factóides absorvidos, geralmente, através da moda. Isto se observa inclusive em estruturas sociais mais densas, onde a subjetividade dos humores é permissível, tal como ocorre nas relações econômicas. O resultado é que a circulação da riqueza também se acelera e exige, por parte do capital empregado, uma resposta imediata. E isto é completamente contrário à produção de conhecimento cujos “rituais”, bastante mais reais do que virtuais, só podem validá-lo com o tempo.

A “Arqueologia de Contrato”, por sua vez vem surgir como resposta a essa necessidade de velocidade na pesquisa, já que, com o avanço da consciência ambiental, foi desenvolvida uma legislação voltada para a obrigação de estudos de risco de impactos. Como conseqüência do sucesso da legislação, tem se desenvolvido um método de pesquisa arqueológica, com o objetivo claro de apresentar resultados imediatos, graficamente apresentáveis, mas absolutamente superficiais, num claro conflito entre o tempo passado que se quer resgatar e a necessidade de se perpetuar o presente. A massificação imposta à pesquisa por esse método nivela todas as questões num mesmo nível de dificuldade. Na impossibilidade de se responder questões científicas realmente relevantes, prevalece a satisfação das normas e dos protocolos estabelecidos pelas instituições reguladoras. E assim, os arqueólogos parecem se satisfazer, apenas, com provas que parecem ser mais jurídicas do que científicas.

O resultado disto é a dificuldade em direcionar as pesquisas para uma perspectiva teórica científica, já que instituições, mercado e as condições de trabalho acabam por limitar as possibilidades ao se satisfazerem com estatísticas e gráficos, que apenas apresentam retratos multifacetados de acontecimentos isolados. Isto anula qualquer possibilidade de maior aprofundamento nos estudos, o que torna qualquer teoria (nova) ou qualquer renovação metodológica improváveis, e portanto, desnecessárias.

Este problema é sentido com mais intensidade, especialmente, em áreas de interação entre interesses econômicos e científicos. Nesses casos, em particular, a normatização necessária é apoiada por uma relação na qual predomina um formalismo burocrático, que apesar de inteligível para todas as partes, é flagrantemente incongruente para a liberdade de pesquisa. As pesquisas levadas dentro dessa “camisa de força”, por mais que tente provar a superioridade dos valores científicos, mais acirrada torna a exigência para que a ordem legal seja reparada, mesmo que o resultado assim a ser alcançado, geralmente com fartos recursos disponibilizados, nada acrescente de relevante ao desenvolvimento do conhecimento sobre o nosso patrimônio cultural.

Além da condição pós-moderna da sociedade brasileira atual temos, em contrapartida, certas deficiências tradicionais explicadas pelo pouco conhecimento que se tem do nosso passado mais recuado e, principalmente, pelo pouco valor que se dá a ele. Tomemos como exemplo os indígenas atuais, cuja situação socioeconômica os deixa na escala mais baixa da nossa pirâmide social. Como esperar que o senso comum valorize o produto de seus antepassados indígenas se os seus remanescentes são tratados como seres a margem das leis, e são confinados em reservas como se fosse um zoológico de gente minado de missionários e madeireiras?

A verdade é que o passado indígena além de ter apresentado um nível sociocultural muito diferente dos indígenas modernos, apresentava mais originalidade não só nas relações sociais, como principalmente nas relações políticas. Compreende-se assim, que a falta de informação e a ignorância aliada ao pouco valor que se dá ao nosso passado mais recuado, projeta um problema exclusivamente atual, sobre todos os acontecimentos que aqui se desenvolveram antes da conquista européia.

Antes de mais nada é preciso mostrar que o Brasil vem desenvolvendo apenas a mais nova e imatura das civilizações que aqui tiveram lugar. Que antes da Civilização Brasileira, duas outras floresceram. Que elas foram o produto do sucesso do homem junto à nossa natureza tropical durante milhares de anos. Que as soluções encontradas por essas civilizações, não só em relação à manipulação dos recursos de floresta, mas especialmente para as suas relações de poder, em muitos casos, foram únicas ou pioneiras no mundo. Elas, certamente, representam avanços para a evolução humana, os quais devemos conhecer e otimizar. Para tanto, deve-se fazer um esforço didático muito grande, para mostrarmos o valor que o passado tem para a construção do nosso futuro enquanto civilização original.

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