ARQUEOLOGIA DE TUDO, por Pereira Penna ![]()
Carioca, reside em Belém, PA. O autor é poeta performático (conhecido omo Onna Gaia), ensaísta, Doutor em História, arqueólogo do Museu Goeldi, para o qual faz, inclusive, pesquisas de campo, diversos livros publicados de poesia e arqueologia, além de um dos fundadores do Grupo Poético A Malta.
Poema
Amigos... desta vez vou completar o artigo anterior com o poema abaixo. Na verdade achei que fui um pouco pesado e talvez não tenha dito tudo o que queria. Este poema foi feito quando os talibãs derrubaram uma gigantesca estátua de Buda nas montanhas do Afeganistão. Isto vem acontecendo ao longo da história: a derrubada de monumentos fabulosos em nome de outros monumentos não menos fabulosos. É um dilema, conservar ou reconstruir? Manter o Maracanã ou construir outro estádio, ainda mais espetacular, em seu lugar? A natureza não tem este problema. Refaz tudo, sem pestanejar, por mais perfeito que seja, por mais belo, por mais incrível e duradouro, transformando o antes pelo depois, estranhamente, por algum motivo final, sempre melhor.
Patrimônio ou Pátria do Demônio?
Da cultura, o que desejam dela as pessoas do povo
Se se embaralham na lei-de-mercado de um ovo?
E esculpidos pela ilusão do ouro
Fazem do que resta do patrimônio
A pátria em bancarrota do demônio.
Elas querem controlar o tempo
Erguendo e derrubando a história
Pensando que assim conquistam o trono
Já sendo elas mesmas seu próprio dono.
Mas tolo que nega sua propriedade
Não garante pro futuro sua continuidade
E enquanto apresenta armas pra conquistar o mundo
Permanece pra vida mudo, cego, surdo e imundo.
Sim, por mais que negam o dia e a noite
O dia e a noite só não raiam vitória
Pra quem já vive na escuridão!
Todos os executivos torpes da destruição
São os anjos caídos sobre a memória
Simulando falso brilho no meio da multidão
E já que isto é verdade
É melhor que não neguem:
Erra menos a humanidade
Na defesa de um monumento
Do que quando o erguem
Negando outro sentimento.
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