ARQUEOLOGIA DE TUDO, por Pereira Penna ![]()
Carioca, reside em Belém, PA. O autor é poeta performático (conhecido como Onna Gaia), um dos fundadores do Grupo Poético A Malta, ensaísta, e diversos livros publicados de poesia e arqueologia. Doutor em História, arqueólogo do Museu Goeldi, para o qual faz, inclusive, pesquisas de campo.
O raso e o profundo
Caro e enigmático leitor, é muito esquisito escrever para quem não conhecemos. Aliás, nem mesmo sei se tenho algum leitor ou leitora, se minhas palavras tem servido a alguém ou se até mesmo tem qualquer serventia. Não, não se trata de algum tipo de insegurança, mas de uma reflexão sobre o escrever para um leitor anônimo. Escrever anônimo para uma “vítima” é fácil. Nós a conhecemos, ela não nos conhece. Entretanto, a recíproca não é verdadeira. Muito pelo contrário, aqui ninguém se conhece. Ora, nem eu sobre mim mesmo, muito menos sobre quem nem sei se quer existe. Por isto meus leitores são inventados. Imagino que os tenho e conheço, e imagino que podem ser afetados polo que digo.
E qual meu referencial para tamanha invenção? Só o referencial humano, acima de gêneros, raças ou credos: o Homo sapiens sapiens. Escrevo para ele. Claro, não poderia ser para os vermes, nem para um ser extraterreno longínquo, inalcançável, tal como as bactérias, os vírus, todos os microorganismos, as estrelas nos rincões mais distantes da galáxia, os átomos, as partículas quânticas, os quais, apesar de toda sua invisibilidade, nos faz existir, sorrir, chorar. Certo, não poderia ser para tudo que é invisível ou escondido e secreto, porque não vemos. Para o Homem carnal sim. Porém, quanta generalidade, quanta superficialidade, quanta aparente visibilidade, quanta fumaça encobrindo o meu alvo. No fim das contas o meu Homem é tal como os átomos, os vírus, a imprevisibilidade das partículas quânticas: invisível e inalcançável quanto mais nos aproximamos dele.
Assim é a arqueologia. Ao mesmo tempo visível e concreta: através da cultura material, das estruturas, das técnicas e dos artifícios. Ao mesmo tempo invisível e imaterial: através dos sentidos, dos significados, das mudanças históricas. A arqueologia é prima irmã da psicanálise, da física quântica, da cosmologia, enfim de todas as disciplinas cujos objetos são invisíveis, porque com a história acontece o mesmo: tudo que está no passado ou no futuro é desconhecido e só pode ser compreendido pelas superficiais perspectivas do presente. Ela é assim, superficial e profunda. Entendam, por favor. A arqueologia perscruta a história a partir da superfície presente. A observação da sua profundidade só é possível através das superfícies. E toda e qualquer superfície alcançada, só é alcançada no presente do observador. Em resumo, o passado é tão imprevisível quanto o futuro. A previsão do futuro é difícil, muda com as circunstâncias? Do mesmo modo muda o entendimento do passado, conforme mudam das circunstâncias do presente.
O que dizer? Como entender que o ser profundo da história humana só pode ser entendido por uma superfície que nem mesmo é a sua? Superfície que é a de um outro que nem sequer tem autoridade para tanto.
Digo autoridade histórica. Não! não pense que só existe uma história. O mundo é composto por uma plêiade de histórias possíveis, algumas paralelas, outras obliquas, outras como tal no passado mas que já não existem mais. E estamos falando de passado, do que, provavelmente, já não existe mais. É por isto que o arqueólogo não tem autoridade histórica para entender o passado. A sua autoridade só pode ser construída no presente, no curso de uma história cuja realidade não é extemporânea, mas é contemporânea.
Resumo da ópera: diz-se que o sujeito da história somos nós, tanto aqueles que a vivenciam, quanto àqueles que a narram. Entretanto, a narrativa da história é a construção de um pensamento sobre fatos interpretados segundo artifícios não naturais, erguidos pelo saber não menos natural do Homem. Se for assim que compreendemos o presente, também é assim que entendemos o passado. Enfim, tudo que entendemos sobre o passado é uma invenção narrada no presente pelo contador de histórias. A História de qualquer passado é uma invenção.
« Voltar