ARQUEOLOGIA DE TUDO, por Pereira Penna

Carioca, reside em Belém, PA. O autor é poeta performático (conhecido como Onna Gaia), um dos fundadores do Grupo Poético A Malta, ensaísta, e diversos livros publicados de poesia e arqueologia. Doutor em História, arqueólogo do Museu Goeldi, para o qual faz, inclusive, pesquisas de campo.

Coluna de 29/10
(próxima coluna: 13/11)

Mas o que é arqueologia?

Não, a História do Brasil não começa com a conquista das Américas pelos europeus. Nem mesmo com o início da colonização portuguesa. Muito antes disto (na verdade milhares de anos antes) o Brasil já existia, mas como um imenso território sem fronteiras políticas definidas, colonizado por centenas de povos com línguas, etnias e costumes diferentes. Esses povos, de mesma origem genética, mais precisamente, mongolóides provenientes do nordeste asiático, chegaram aqui há mais de 10.000 anos. Dizem até que nem mesmo eles teriam sido os primeiros. Há quem defenda que os primeiros habitantes das terras que hoje conhecemos como Brasil, foram povos pleistocênicos, provenientes do sudeste da Ásia, mas de origem africana. Com isto, é até possível que a história do Brasil tenha começado bem antes da formação do mundo Ocidental e tenha se consolidado quando os povos mongolóides holocênicos, finalmente, substituem os primeiros habitantes negróides e se adaptam à floresta úmida amazônica.

O estudo da Arqueologia, assim como o da História, tem como pano de fundo a sucessão temporal. Mas enquanto a História estuda acontecimentos que contam com documentos escritos (e hoje gravados, filmados, digitalizados e etc.), os objetos de pesquisa da arqueologia não necessitam desses tipos de documentos para serem estudados. Por conta disto, diz-se que a História do Brasil começa com a chegada dos portugueses em 1500, porque só a partir de então são produzidos documentos escritos que relatam os acontecimentos históricos a nós relacionados. Daí, tudo que aconteceu aqui antes de 1500 chamamos de Pré-história. A Pré-história brasileira, por sua vez, teve início quando o homem chega aqui, isto por enquanto, uns 50.000 anos atrás. Aliás, aqui como em qualquer outro lugar do planeta, a Pré-história começa quando o Homo sapiens sapiens aparece, fato que só acontece 60 milhões de anos depois dos dinossauros, há 300.000 anos.

Mas veja bem, a subdivisão da História em Pré-história é só uma convenção para melhor situarmos os acontecimentos na linha sucessória do nosso tempo histórico. Na verdade, do mesmo modo que possuímos uma História real que não gerou qualquer documento escrito, a própria arqueologia pode estudar acontecimentos históricos, com documentos escritos e/ou iconográficos, já que possui métodos e técnicas fundamentais para esclarecer dúvidas, cujas soluções não podem ser encontradas contando apenas com esses documentos.

Como conseqüência, os arqueólogos brasileiros trabalham com dois grandes períodos de tempo: o pré-histórico e o histórico. A Arqueologia Pré-histórica, portanto, estuda os acontecimentos anteriores a 1500 e a Arqueologia Histórica, por sua vez, estuda os acontecimentos iniciados a partir de então. Porém, a Arqueologia Histórica pode ser subdividida em Arqueologia do Contato, Arqueologia Colonial, Arqueologia Industrial, Urbana e etc. Na verdade, uma vez que o método arqueológico nos fornece ferramentas para o entendimento de acontecimentos não registrados por documentos escritos, ou seja, exclusivamente históricos, pode-se fazer arqueologia de quase tudo que tenha uma sucessão temporal identificável. Assim, falam também de outras arqueologias mais subjetivas como a Arqueologia do Inconsciente, a Arqueologia do Saber, a do Poder e de outras mais, conforme a imaginação e o discernimento lógico do estudioso.

Segundo já disse, os objetos de estudo da Arqueologia têm como pano de fundo a linha sucessória do tempo. Ou melhor, o que a atividade humana produziu ao longo de sua existência. Isto quer dizer que, seja pré-histórico ou histórico, o tempo humano estudado pela arqueologia está sempre no passado. Não é verdade? Afinal, qualquer dado acontecimento, resultado da ação humana, só pode vir a ser estudado depois de sucedido. Nenhum acontecimento produzido pelo homem pode ser perscrutado antes de acontecer. Isso parece ser muito óbvio e é. Mas aí temos um problema muito sério. Acontece que nenhum instante passado, seja ele de que natureza for, pode ser repetido do mesmo modo no presente. E pior, o presente é apenas uma sucessão de instantes cuja apreensão é o seu congelamento, isto é, uma vez apreendido, deixa de ser presente real para ser um “presente” passado. Um presente contemporâneo são instantes que agora só podem ser vistos no passado.

Isso é fato conhecido desde o início do século passado (o XX), quando Einstein, um físico alemão, mudou o rumo da ciência ao descobrir que o tempo é relativo e que a sua divisão pode ser infinita. Digamos assim: não há instante que não possa ser subdividido em instantes ainda menores, ou multiplicado em outros maiores, também infinitos. Pois bem, menores ou maiores, mas nunca os mesmos porque, por outro lado, eles nunca se repetem. Simplifiquemos com um exemplo: no instante em que escrevo este texto, tudo que escrevo, até cada letra que se sucede antes mesmo de terminar a palavra, já está no passado. Antes de concluir a frase ou, ainda, o pensamento que quero registrar, o próprio registro, enfim, é passado. Contudo, quando a frase ou o pensamento está concluído, temos então um resultado que, obviamente, não é o mesmo se comparado com as palavras vistas separadamente. Você pode antever o sentido da mensagem de uma frase antes dela ser concluída, mas não a mensagem em si. Assim, toda vez que paramos para olhar qualquer evento, só podemos vê-lo no passado. E a repetição nunca será do mesmo evento, porque sempre será um outro evento, por mais semelhante que seja, se sucedendo. A arqueologia, enfim, estuda o passado, mas o passado estudado não pode retornar no presente. Dilema: se o tempo não pode voltar, isto é, se a Arqueologia não pode retornar à experiência passada, então para que serve a Arqueologia?

A resposta está na idéia de duração. É a duração que vai dar à arqueologia a sua finalidade objetiva. Com a possibilidade de identificar e compreender um acontecimento de longa duração, a arqueologia pode produzir conhecimento capaz de transformar a realidade. A finalidade da Arqueologia, conseqüentemente, como a de toda ciência, enfim, é a de produzir conhecimento capaz de transformar uma dada realidade.

O tempo arqueológico não tem apenas duração. Ele também conta com um sentido e uma intensidade. O sentido não é apenas uma questão da direção em que os eventos históricos são direcionados, mas também das características das suas expressões. Você pode entender isso do seguinte modo: o sentido da democracia é a liberdade de escolha e as suas características podem ser resumidas na liberdade de expressão; já o sentido da ditadura é o autoritarismo e as suas características se resumem à falta de liberdade de expressão. A intensidade é um pouco mais complicada, entretanto, o exemplo acima também ajuda. No caso da ditadura, a sua intensidade é fundamental para definir a duração e o grau de influência sobre a sociedade. Quanto mais intensa uma ditadura, maior é a influência sobre a organização social do povo, que fica, praticamente, sem liberdade de escolha e, conseqüentemente, temporariamente sem influência sobre os rumos da história.

Resumindo, a Arqueologia é a ciência que perscruta o passado para identificar a intensidade, o sentido e a duração de um acontecimento, capaz de transformar a nossa realidade histórica presente.

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