ARQUEOLOGIA DE TUDO, por Pereira Penna ![]()
Carioca, reside em Belém, PA. O autor é poeta performático (conhecido como Onna Gaia), um dos fundadores do Grupo Poético A Malta, ensaísta, e diversos livros publicados de poesia e arqueologia. Doutor em História, arqueólogo do Museu Goeldi, para o qual faz, inclusive, pesquisas de campo.
A tetradimensionalidade
Faça a seguinte pergunta a um físico: o que é a quarta dimensão? Muito provavelmente ele responderá: é a altura, a largura e o comprimento, acrescentados de tempo. Ou seja, é o tempo somado ao espaço tridimensional. Entendeu alguma coisa? Pois é, por causa disto eles também costumam dizer que a quarta dimensão não pode ser visualizada. São as 3 dimensões visuais somadas ao tempo, que é subjetivo e invisível. Como ver isto?
Outra questão. Nas Ciências Sociais, quando se fala em relativismo, deve-se entender que as culturas são relativas entre si. Elas, já que podem ser muitas, não possuiriam um modelo absoluto a quem seguir, e onde se organizariam linearmente, numa escala de valores crescentes. Muito pelo contrário, elas teriam seu próprio caminho, cada uma seguindo um rumo não, necessariamente, correlacionado a culturas anteriores, contemporâneas ou mesmo futuras. Portanto, relativismo cultural nada tem a ver com a relatividade da matéria.
O problema é que por causa disto deixaram de perceber que há sim, nas culturas, uma relatividade, que não é uma mera relação de independência evolutiva. Mas, antes de seguir, gostaria de observar que não estou falando de um retorno ao evolucionismo cultural. Porém,. mostrar, ainda que bastante superficialmente, que podemos entender a organização histórica das culturas dentro de uma perspectiva relativística, onde o tempo possui uma posição que nunca se repete, mas a qual também sempre retorna: trata-se do tempo não linear e nem meramente cíclico, do eterno retorno da diferença. O tempo que sempre retorna ao seu ponto de partida, mas, necessariamente, sempre de modo diferente. Este tempo poderia ser representado por uma espiral, cujas linhas cíclicas paralelas giram em torno de si mesmas.
Podemos entender isto através da arqueologia do seguinte modo: temos um espaço geográfico, onde determinada sociedade surgiu e se desenvolveu. Ao longo do tempo sua cultura sofreu mudanças, mas essas mudanças foram fruto da sua própria condição histórica. Apesar de possibilidade de influências externas, mesmo as influências mais marcantes possuem as características que possuem, por conta da reorganização que essas influências sofrem ao serem importadas, ou impostas, segundo as perspectivas socioculturais originais do lugar onde elas agora se manifestam. Numa outra perspectiva, podemos afirmar que nada que um dia foi historicamente manifesto, pode retornar no tempo, como uma cópia exata daquilo que um dia representou ou significou. A informação original, agora é originalidade, no sentido de outro, de novo.
Assim é o tempo do eterno retorno da diferença: o tempo só retorno na diferença.
Conclusão: o resgate do tempo é impossível!!!!
E por que não podemos retornar o tempo? Porque ele é relativo. Na verdade, já que vivemos num mundo tetradimensional, a história também é tetradimencional. E assim sendo, o tempo só retorna na diferença, já que seus eventos não podem ser congelados e já que cada um deles ocupa o seu próprio lugar no espaço. A tetradimensionalidade da história implica em reconhecermos que os eventos ocupam uma posição no espaço. Ainda que o lugar seja aparentemente o mesmo, a posição do evento nunca será a mesma, já que a Terra é dinâmica, não só muda de posição em relação ao Sistema Solar mas, principalmente, porque suas inúmeras paisagens estão sempre em transformação. Ora, não podemos pensar no homem sem o ambiente. Não podemos porque tudo o que o homem faz, faz em algum lugar e seja qual for o lugar, ele não é imutável. Ele se transforma, quer pela ação das forças naturais, quer pela ação do artifício humano. Hoje, pela força das duas ações. Assim, o que era ontem, não poderá ser hoje o que foi ontem, mas apenas o que é próprio de hoje, que já não o será mais no porvir.
Visualizemos agora a tetradimencionalidade: imagine um dado solto no espaço. Imagine também, que afastado desse dado, mas como pontos dispersos ao redor, existem inúmeros outros. Trace uma linha abaixo do dado visível. O conjunto de dados (o visualmente reconhecível mais os vistos apenas como pontos) forma um espaço. O tempo é a posição do dado no espaço, representado pela linha traçada abaixo dele. Temos aí a visualização da tetradimensionalidade. Se você traçar uma linha em cada dado, independente da distância entre eles, você terá uma posição própria para cada dado, portanto um tempo para cada um. Assim são os eventos históricos: cada evento possui a sua própria linha de tempo, que é a sua posição no espaço. Todos os eventos compõem um conjunto espacial, que por sua vez pode ser subdividido em subconjuntos compostos por eventos com características semelhantes. Ainda que cada evento possua a sua própria posição, eles fazem parte de um mesmo conjunto ou subconjunto. Deste modo, os eventos de um subconjunto são mais relacionados entre si, do que com os eventos de um outro subconjunto.
Isto implica em reconhecer que o relativismo cultural não é infinito, e que um grupo de sociedades pode compor um conjunto de culturas com afinidades compartilhadas, possuidora de evolução e características próprias irredutíveis, o qual, por outro lado, sempre compõe um outro conjunto ainda maior. Assim, as culturas e os tempos históricos paralelos, podem ser organizados, independentes de qualquer ordem hierárquica, num conjunto onde elas têm mais afinidades entre si, do que com outras de outros conjuntos. A este grupo organizado de sociedades cultural e historicamente semelhante chamamos de civilização, de modo que qualquer sociedade, independente da sua complexidade e do tempo ou do espaço de sua existência, quando organizada com outras sociedades próximas cultural ou historicamente, é uma potência civilizadora, já que faz parte de um conjunto que pode ser definido como Civilização.
« Voltar