ARQUEOLOGIA DE TUDO, por Pereira Penna ![]()
Carioca, reside em Belém, PA. O autor é poeta performático (conhecido como Onna Gaia), um dos fundadores do Grupo Poético A Malta, ensaísta, e diversos livros publicados de poesia e arqueologia. Doutor em História, arqueólogo do Museu Goeldi, para o qual faz, inclusive, pesquisas de campo.
Achados

A coisa mais emocionante na ciência, é a descoberta e na arqueologia, em particular, é o achado. A nossa eureka é um eventual achado, pois geralmente, estamos procurando algo de especial. E agora não foi diferente, quando estivemos no rio Madeira, em Rondônia, fazendo um levantamento arqueológico nas suas margens. O nosso trabalho foi um estudo de impacto patrimonial, relativo à construção de duas hidroelétricas por parte de FURNAS.
Como obrigação para obtenção de licença ambiental para iniciar qualquer obra, todo empreendimento deve fazer, entre outros, um estudo de impacto patrimonial. Esse estudo nada mais é do que a avaliação do risco de impacto que o sítio arqueológico poderá sofrer durante ou depois das obras. Para haver esta avaliação é preciso, antes de tudo, localizar o sítio, observar suas características, grau de preservação e sua importância histórica regional. Se o sítio reunir características suficientes para merecer ser estudado, então ele deverá ser escavado parcial ou integralmente, na tentativa de obtermos o máximo de informações possíveis. Uma vez feito isto, aí sim a área poderá sofrer interferências. Mas às vezes ocorre do sítio ser tão importante, por sua raridade ou representatividade, que deverá ser preservado. Com isto o empreendimento deverá passar por alterações ou mesmo ser suspenso.
Qual a importância do rio Madeira para a arqueologia regional? Bem, o rio Madeira, no trecho que visitamos, teve seu primeiro levantamento arqueológico sistemático no ano de 1978, quando o arqueólogo gaúcho Eurico Miller, através de um programa de estudos arqueológicos batizado com a sigla de PRONAPABA e patrocinado pelo Smithsonian Institution, de Washington, registrou a existência de vários sítios, inclusive com gravuras rupestres. Mas foram achados e descobertas posteriores que chamaram a atenção para a arqueologia da região. De fato, o próprio Miller, anos depois, trabalhando num afluente bem abaixo da área visitada em 1978, registrou a presença de evidências arqueológicas pertencentes à antigos caçadores-coletores, com mais de 10.000 anos de idade. Para a Amazônia, embora não fosse novidade, foi um achado raro. Isto abriu a possibilidade de novas pesquisas na região virem a achar outras evidências da mesma natureza, confirmando assim, as pesquisas de Miller.
Acontece que a minha maior dedicação na arqueologia é justamente o estudo de caçadores-coletores, anteriores à ascensão das sociedades agrícolas na Amazônia. Entre outros motivos, porque acredito que todo sucesso que essas últimas sociedades tiveram na exploração e uso adequado dos recursos naturais, na organização política e na geopolítica, além da elaboração dos princípios da domesticação de plantas e da produção de cerâmica, foi fruto das práticas e costumes milenares ancestrais, levados à bom termo por caçadores-coletores nativos.
Um outro fato torna esta situação ainda mais excitante: todas as peças bem trabalhadas, como pontas de projéteis feitas através do lascamento de rochas, relacionadas à antigos caçadores-coletores amazônicos, foram encontradas fora de contexto. Isto é, foram doadas aos Museus sem que fossem identificados os locais onde elas teriam sido encontradas. Sem esta contextualização, ou seja, sem a associação dela com um sítio arqueológico onde teria sido encontrada, é impossível qualquer estudo mais detalhado que possibilite entender onde, como ela foi feita, por que e por quem.
No Museu Goeldi, de Belém, existem quatro pontas nesta situação. Todas belíssimas, mas sem contexto, sem uma história que possamos narrar. Por isto sempre que encontro uma oportunidade, não economizo esforço para encontrar uma ponta de projétil dentro de um contexto arqueológico revelador.
Por coincidência, quase todas as pontas conhecidas foram casualmente encontradas por garimpeiros no leito de rios. Já o rio Madeira, abriga uma grande quantidade de garimpos flutuantes e de barrancos, todos em busca de ouro, que na região é relativamente farto, mas de diminuto tamanho. Assim, claro, havia a possibilidade de pelo menos, entrevistarmos os garimpeiros na tentativa de recuperar informações relevantes, no caso de algum achado fortuito. Por outro lado, o rio Madeira guarda um outro tesouro debaixo de seus sedimentos, depositados em suas margens e leito: fósseis de mega-fauna, extinta há mais de 10.000 anos, cujos animais (mastodontes, preguiças gigantes – mapinguari – e outros) em certos locais do continente Sul americano, foram contemporâneos ao homem. Por tudo isto, sabendo da possível antiguidade do homem na região e da existência de fósseis de mega-fauna no rio Madeira, havia a possibilidade de encontramos uma evidência que associasse o homem a esses animais extintos.
Não foi desta vez, até porque seria muita sorte, já que fazíamos apenas um levantamento através da observação dos sedimentos superficiais (inclusive daqueles trazidos das profundezas pelos garimpos), sem escavações ou mesmo sondagens. Porém a sorte não estava assim, tão completamente contrária. E, conseqüentemente, pela primeira vez, encontramos uma ponta de projétil contextualizada. Trata-se de uma ponta de flecha, do tipo rabo de peixe, lascada em cristal de rocha opaca, com cerca de 9,5cm de comprimento e 3,5 na sua largura máxima. A peça foi encontrada num barranco, na margem direita do rio Madeira, 4m abaixo do nível do solo e 10m acima do nível das águas de outubro. Foi um achado espetacular, que valeu toda a excursão de um mês.
Agora é esperar a oportunidade de voltarmos ao sítio pra fazer as escavações que finalmente poderão revelar toda a riqueza arqueológica do rio Madeira.
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