ARQUEOLOGIA DE TUDO, por Pereira Penna

Carioca, reside em Belém, PA. O autor é poeta performático (conhecido como Onna Gaia), um dos fundadores do Grupo Poético A Malta, ensaísta, e diversos livros publicados de poesia e arqueologia. Doutor em História, arqueólogo do Museu Goeldi, para o qual faz, inclusive, pesquisas de campo.

Coluna de 29/1
(próxima coluna: 13/2)

Ciência e Arte

                A verdade, razão primeira e última do discurso científico, veste a ciência com o “black tie” mais exclusivista e pedante existente no conhecimento produzido pelo homem. A verdade científica, para disfarçar seu pedantismo, diz-se senhora da dúvida. Mas qual nada, a própria dúvida reforça a sua fonte de orgulho: a de que nenhum outro campo do conhecimento é capaz de rever as suas próprias falhas e superar-se. Superar-se? Sim! Superar-se, mas através do erro. Assim, a mais verdadeira das verdades se constrói por meio de falhas constantemente revisadas, detalhando-as cada vez mais. Em contrapartida, com muita eficiência e ao mesmo tempo, com muita auto-suficiência, considera tudo mais como secundário, supérfluo, superstição ou coisas do senso comum. Assuntos sobre os quais a ciência não se interessa e nem permite que a recíproca seja falsa.
                O discurso científico, independente das suas características de juiz do saber, sempre quer dizer alguma coisa. Mas não pertence à essência da ciência exigir univocidade sem sombras, a transparência absoluta do discurso. Nebulosamente, a ciência teria necessidade que aquilo de que necessita (o discurso enquanto puro querer-dizer) não sirva para nada: apenas para guardar e observar o sentido que ela lhe confia. Em nenhum outro meio, o discurso pode ser simultaneamente mais produtivo e mais improdutivo do que como elemento de teoria. Não há na palavra científica sobre o objeto, qualquer fusão com a palavra ideológica sobre o mundo. A sua palavra não tem compromisso com a realidade social e ao carregar esta falha, a sua verdade compromete a própria substância do discurso.
                Fruto e uma das sementes da fragmentação do conhecimento, a ciência divorciada de qualquer substância artística, com a qual um dia foi casada, substituiu a poética dos seus primeiros discursos (renascentistas), pelo artifício controlado da técnica. Porém, existem outros meios com os quais se produzem verdades de qualidade. Ou seja, outras verdades, mais conseqüentes, do que obscuras verdades científicas, cheias de referências observáveis, mas sem qualquer compromisso com a realidade banal da alma humana. E, mais ainda, conseqüências capazes de produzir um saber que afeta as próprias técnicas científicas. Isto se torna possível quando abrimos os olhos para além das fronteiras demarcadas e buscamos experiências potencialmente complementares.
                Não é de todo incomum ouvir dizer que a história tem qualquer coisa de arte, especialmente, porque se expressa narrativamente. Conforme a poética que se imprima às palavras da narrativa histórica, ela pode ser mais ou menos artística. De qualquer modo, há de se ter um domínio artístico, por menor que seja, para que a narrativa seja clara e convincente. Por outro lado, existe o pensamento ainda mais exacerbado, de que o discurso histórico deve se afastar o mais que puder de qualquer poética artística. Esta é a tradição historicista que tem sua versão cientificista, ainda com grande poder de barganha na arqueologia brasileira.
                Para se ter uma idéia concreta da influência cientificista sobre a arqueologia, basta folhear quaisquer anais de congresso brasileiro de arqueologia. A regra da narrativa arqueológica que seguem é a seguinte: histórico da pesquisa e, se possível, da região; localização e descrição dos sítios; metodologia e descrição do material. Tudo o mais é considerado desnecessário. Isto confere a esse tipo organizado de discurso, uma falsa neutralidade científica, que retira do pesquisador qualquer compromisso com a realidade histórica e social, e com o mundo em que estuda e vive.
                E quando a explicação científica é dada pela análise de uma poética inteiramente artística? Nem pensar. Isto só esclarece que a divisão imposta aos diversos ramos do conhecimento é um artifício sem qualquer base na natureza. A fragmentação do conhecimento que desde o século XVIII até início do XX, ditou as regras do bom entendimento, na verdade, foi uma tentativa fracassada de criar nichos de poderes especializados, como se fosse um mercado reservado ao exercício de certas práticas de dominação.
                 Que há diferenças entre os diversos campos do conhecimento é óbvio, mas as fronteiras rígidas e super policiadas que existem entre eles, são invenções desprovidas de qualidade significante.
                Se a arqueologia e mesmo a história possuíssem um discurso poético, que considerasse tanto a arte quanto a ciência, certamente o leigo teria seu acesso facilitado às entrelinhas do mundo. Não só teria acesso, como também seria um referencial objetivo na narrativa do mundo, pois, conscientemente, poderia interferir nele. Quem sabe, com arte. E em vez de gráficos e números inriferentes, vislumbrássemos magníficas narrativas reconstruindo a história com emoção.

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