ARQUEOLOGIA DE TUDO, por Pereira Penna ![]()
Carioca, reside em Belém, PA. O autor é poeta performático (conhecido como Onna Gaia), um dos fundadores do Grupo Poético A Malta, ensaísta, e diversos livros publicados de poesia e arqueologia. Doutor em História, arqueólogo do Museu Goeldi, para o qual faz, inclusive, pesquisas de campo.
O eclipse do olhar
Se entendermos que a ciência hoje, não é mais aquela nascida com o sucesso do olhar frente aos fenômenos, poderemos compreender que existe um outro campo da sensibilidade, bem mais capacitado para apreender a realidade invisível aos olhos. Afinal de contas, a história de qualquer coisa é a história dessa coisa no tempo e, portanto, da mudança de sentido do tempo e do próprio conteúdo da história. A arqueologia é uma dessas ciências, que oferece à alma humana, a oportunidade de penetrarmos em setores invisíveis da história. Isto permite à arqueologia trazer à tona, informações que de outro modo permaneceriam esquecidas no tempo.
O domínio das ciências hoje, é o da percepção mental na qual a teoria predomina sobre a experiência na compreensão da percepção científica da Natureza. Nela, mais do que colher frutos das revelações de algum poder de predição, o que se apreende são as vias possíveis apresentadas pela maior eficiência da antecipação. E tem outra coisa, Merleau-Ponty dizia que somos o mundo pensado, o mundo que está no âmago da nossa carne; ou, conforme a opinião de Cézanne, "Eu sou a consciência da paisagem que pensa em Mim". Já não podemos mais viver o mundo sem observar, que não se pode fazer idéia de um espírito que não esteja de par com um corpo.
O atual homem civilizado age de modo adequado ao seu espaço delimitado. Mas no caso de um dilema insolúvel, ele é capaz de ultrapassar os limites de sua civilização e trazer à tona a sua physis. Aí ele tem idéias súbitas e atua de acordo com inspirações momentâneas, que nada tem a ver com a razão; neste caso, nem mesmo é ele quem pensa, mas algo que pensa com ele. Integrado.
No passado renascentista, o olho era uma janela na qual a luz podia entrar e sair. Para Leonardo da Vince, o espírito do pintor (que era o cientista da época) deveria fazer-se semelhante a um espelho que adota a cor do que olha e se enche de tantas imagens quantas coisas tiver diante de si. Ou seja, a sua capacidade de olhar e perceber não era para esvaziar o espírito, mas ao contrário, para preenchê-lo. Como que admirado, Leonardo pergunta: quem acreditaria que um espaço tão reduzido (os olhos) seria capaz de absorver as imagens do universo? A natureza, para os renascentistas, tinha suas partes vinculadas pela alma do mundo e pelo espírito do mundo e regidos pelo amor. A magia era a arte dos vínculos e do amor, e a Natureza, porque vínculo universal, era maga. Segundo seus pensadores, o amor é mago porque todo poder da magia reside nele e a sua obra é feitiço e encantamento pelo olhar. O Renascimento divinizou a Natureza: para a ciência renascentista, ela é mágica e autônoma, em nada dependente de Deus, e possui os segredos da sua ordem, da sua vida, da sua alma; em moral, ela retém em si mesma o amor, a admiração, a confiança, a adoração enfim, que outrora visava ignorá-la. Havia uma identidade entre "visível e vidente". Aquele que via era vidente.
Foi o pensamento iluminista quem abraçou a idéia do progresso e buscou ativamente a ruptura com a história clássica. Esse pensamento visou o desenvolvimento de uma ciência objetiva, a moralidade das lei universais e a arte autônoma nos termos da própria lógica interna destas. O desenvolvimento de formas racionais de organização social e de modos racionais de pensamento prometia a libertação das irracionalidades do mito, da religião, superstição.. Por outro lado, as descobertas científicas e a busca da excelência individual em nome do progresso humano, levaram os iluministas a acolherem o turbilhão da mudança e verem a transitoriedade, o fugidio e o fragmentário como condição necessária por meio do qual o projeto modernizador poderia ser realizado.
Agora vivemos outra realidade, longe da Era das Luzes, mas produto do ápice dela. Ou seja, estamos no clímax da Luz, quando ver, já não tem mais importância.
Foi no início do século XX, enquanto as ciências oficiais tentavam frear suas vanguardas e, conseqüentemente, controlar sua modernidade, que outras em nascimento avançaram sobre assuntos desconhecidos. Assuntos desconhecidos esses, que já não eram sobre Deus, mas sobre a estrutura invisível dos átomos, sobre a estrutura inimaginável dos cosmos e sobre as imagens multifacetadas do inconsciente. As discussões sobre o inconsciente, por exemplo, desequilibraram todas as identificações, substituindo todas as crenças por um "buraco negro", um infinito de tempo, espaço e loucura; um lugar de linguagens intertextuais e mágicas.
Essa nova perspectiva do mundo surge dentro das frestas que os fluxos modernos fizeram aflorar através do inconsciente, dos átomos e da unificação do espaço-tempo. O controle e a apreensão da realidade passam a se dar por meio da interiorização, na qual os espaços externos e as superfícies iluminadas cedem lugar à energia e à mente.
O eclipse do olhar no fim da modernidade, não implica num retorno às trevas. Implica sim, numa sensibilização espacial, onde o corpo como um todo e as potências interiores do indivíduo expressam, modelam e se fixam. Nesse espaço a luz transita em vertiginosa telecinesia, imperceptível para o olho e para os instrumentos; este é o mundo trigonoteário onde não existe distância real entre um ponto e outro. Esta, enfim, é a Idade Cósmica que se avizinha da nossa realidade com o seu tempo eminentemente virtual.
A implosão das imagens superficiais da história é a tarefa da pesquisa arqueológica. É a arqueologia a disciplina que pode mergulhar na ordenação delirante do mundo, feito pelo sujeito moderno - um híbrido de histeria e paranóia -, que faz do interior um drama, enquanto a obscenidade do novo estado de coisas se exprime na esquizofrenia branca de um indivíduo, impossibilitado de oferecer resistência à transparência de uma ciência pronta para lhe penetrar.
O arqueólogo defronta-se com algo mais radical do que a invisibilidade de um passado vivo. Não é só a história que se encontra subtraída à visibilidade, mas a própria visibilidade como expressão da ciência. O que faz a arqueologia avançar não é a evidência intelectual das interpretações propostas pelo passado, mas um movimento ao interior desse mesmo passado, que além de não se deixar descrever em termos de atos de visão, faz com que aquele que o investiga absorva um sentido, ainda presente, mas até então julgado inexistente. O explícito exige a penetração sensível das entranhas. A arqueologia é o meio de penetração explícita da História.
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