O HORIZONTE ACERTA O PASSO

Cidade é presença e memória, é geografia humana e paisagem. Uma cidade existe a partir do esquecimento: quem vive nela precisa dos visitantes para lembrar-se da imponência do concreto, da identificação das ruas, do rendilhado da serra, ou do mar aberto para a invasão do desconhecido. Águas e terra escondem-se diante da realidade que faz morada nos habitantes. Nenhuma cidade faz sentido se dentro nela não existe alguém que coloque o forasteiro em seu abraço, por menor e mais frio que seja. Vista de longe, uma cidade é o mistério que não faz segredo para os nativos. Vista de perto, uma cidade é uma sucessão de desencantos: tudo o que é vivo impacta, tudo o que envolve perde a grandeza.

Quando há apenas passagem, o visitante confirma o que imaginou e vai embora carregado com as percepções formatadas pelo sonho. Se ficar um pouco, coleciona surpresas e decepções e já pode exibir lá fora um olhar abaixo da superfície sobre o que foi arduamente imaginado. Mas se pretende mesmo permanecer, deve se preparar. Como o planeta que dobra o espaço na sua trajetória, a força da gravidade empurra o recém chegado para o fundo do poço. O estranho traz dentro de si a cidade anterior, que o despejou. Ele reproduz, num primeiro instante, os passos que riscaram seu corpo, os hábitos que acertaram seu passo. É impossível para quem nunca esteve aqui, ou aqui esteve por instantes, entender por completo o que a cidade convoca como cotidiano. Os primeiros tempos são de estranhamento. A primeira crise é de desistência.

Mas passados esses momentos difíceis, eis que chega a fase em que o visitante é fisgado pelo espaço onde escolheu viver.  Não que se transforme em alguém do lugar, pois sempre será o que veio de longe. Mas ele adota o que o hostilizava, assume o que não lhe era próprio, aninha tudo o que combatia e abre espaço para o amor que preferiu esconder e que agora se escancara como uma advertência. O aviso é limpo como um verão à sombra: agora que você passou por tudo que o afastava daqui, deve tornar-se parte do patrimônio local. Não se trata de números ou placas, de residência fixa ou emprego, de amizades novas ou sotaques emprestados. É outra coisa, menos perceptível: o esquecimento das ruas onde trafega, o olhar indiferente à lua que sobe para a constelação mais próxima, o passo composto de regularidade. A cidade impregnou o antigo visitante com sua capacidade de esconder-se, de sumir por dentro da avenida. Ele não se assombra mais com verdades explícitas, agora recolhidas ao porão onde convivem os restos da emoção inaugural.

É quando o forasteiro deverá ser lembrado, quando turistas enfileirados estarão de olhos postos na beleza dos edifícios, ou na comunhão dos habitantes. Resgatará então tudo o que pensou antes de vir para cá e poderá ter uma recaída no seu olhar agora acostumado. Para reagir a essa tentação, terá que procurar novamente os habitantes que o influenciaram para vir, revisitar pessoas que ainda estão no seu lugar de sempre, como se a memória da cidade (o espelho onde ela lembra do que a compõe) estivesse recolhida em alguns eleitos. Poderá ser o vigia o mar, aquele que sabe onde existe o cardume, mas não conta para ninguém como vê tainha em noite sem lua. Poderá ser o fabricante de pranchas de surf, que um dia o encontrou ao lado de uma viagem de ônibus e lhe contou como escolheu a praia deserta para deitar raízes, e como dribla a falta de cidadania pegando carona no motor invisível da onda. Ou poderá ser a ascensorista que lê escondido (porque isso prejudicaria o serviço), e que empilha livros dentro dos casacos no inverno, ou os acumula na primavera, no compartimento do telefone de emergência.

O vigia, o surfista e a ascensorista são aquelas pessoas que possuem uma janela para o infinito. Eles possuem a chave dos que vivem para sempre no mesmo lugar, pois para eles não importa a falta de lembrança provocada pelo costume. O que eles enxergam serve de paisagem e de memória para o ex-visitante. Eles apontam para um horizonte que existe no térreo do coração aos pedaços. Sobre essa base eles assentam a vida e indicam o que pode existir numa geografia que parece a mesma, mas que no fundo é a viagem que fazemos em direção à eternidade.

Os habitantes que abrem janelas para essa dor de permanecer intacto, na vida que vai desmoronando com o tempo, são personagens de uma estranha compulsão: a de procurarmos pouso neste tempo de guerra, o de encontrarmos paz sem abrir mão do conflito, o de permanecermos em movimento quando tudo conspira para o retrocesso.

Nei Duclós

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