Grécia, Turquia, Egito
 

DIÁRIO DE VIAGEM I

15 de Outubro – Terça-feira, 7 e meia da manhã. Preparo-me para voar durante três horas e meia a fim de voltar, para o mesmo ponto de partida. Explico-me: O vôo internacional sai de São Paulo e como o Nordeste fica na rota européia, sou obrigado não somente a retornar para onde estava há poucas horas, como também a submeter-me a uma irritante e contínua verificação deste vaivém maluco, pois um diagrama provocador ficava bem à minha frente mostrando cada milha percorrida em duplicata. Assim, uma viagem que deveria durar oito horas, passa a ser prorrogada para onze. A "síndrome da classe econômica" ainda não me pegou, mas nem por isto deixei de chegar em Zurique como se tivesse passado a noite inteira numa cela solitária e exígua cuja área é a medida exata do meu corpo. Sentado! E a comida que me serviram – e eu rejeitei – foi um pouco de macarrão com três fragmentos de frango branco e insípido. Por causa deste vício capital que é adorar me mandar mundo afora, tenho descontado muitos pecados cabeludos. Parece absurdo, mas Osama Bin Laden tem muito a ver com o meu desconforto. Antes do onze de Setembro de 2001 eu voava pela Swissair ou por outra companhia equivalente. Cheguei ao requinte de viajar de primeira classe pela British Airways. Parecia estar hospedado num quarto de hotel cinco estrelas. Mas por causa do muçulmano esta vida de "retirante" está se tornando mais difícil a cada dia. A Swissair quebrou. Sua substituta cortou qualquer resquício de mordomia. Parece que estava a adivinhar, pois naquela época escrevi: "E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José?" Longe de mim fazer quaisquer exercícios de futurologia. Entretanto, o que não se pode negar é que a maioria das pessoas que costuma voar, o faz com muito medo. Até mesmo aquelas de quem se esperaria raciocinar muito mais cartesianamente do que eu, um pobre escrevinhador das minhas viagens. O episódio ainda está muito recente e o tempo é, de fato, "senhor da razão", embora isto venha sendo dito por certas pessoas coloridas que não merecem a mínima credibilidade. A ameaça, contudo, é real. Empresas não existem sem clientes. A prova inequívoca disto são as falências de companhias aéreas de grande prestígio a que já estamos a observar." Cheguei mesmo a temer o pior, isto é, o retorno absoluto ao tempo em que atravessar o Atlântico era um feito acessível apenas a um herói como Charles Lindenberg. Ousei até parodiar Drumond: E agora, você? / Você que é sem nome, / Que zomba dos outros, / Você que faz versos, / Que ama, protesta?" Você que nunca saiu do lugar onde nasceu e, portanto, leu somente a primeira página do livro de sua vida? Você que já viajou e, consequentemente, tem muito mais a perder porque adquiriu um ‘vício’ do qual, provavelmente, nunca mais se libertará? "E agora, José?" Constatei que não chegamos a tanto. Até porque sinto muito mais medo quando engreno a primeira marcha do meu Fiesta para me aventurar através deste tráfego maluco de Fortaleza do que se morasse dentro de um Air Bus. Mas que uma travessia atlântica já foi um passeio menos estafante e mais generoso, lá isto foi!

16 de Outubro – Quarta-feira. Pouso em Zurique às seis horas e quatro minutos. No bilhete a previsão era para as seis e cinco. Talvez por causa disto o avião tenha taxiado mais do que o normal, a fim de evitar qualquer dúvida quanto à tradicional precisão suíça. Permanecemos na área destinada aos passageiros em trânsito, pois a saída para Atenas seria poucas horas depois. Esta área está saturada de lojas a que chamam Duty Free Shop, que de "Free" não tem mais nada e o "Shop" está cada vez mais em decadência. Somente o "Duty" permanece inabalável a espera dos raros "Shoppers" que ainda se aventuram a entrar lá. A minha "tara" por caviar levou-me a ousar pretender ser um destes. Em Maio do ano passado (2001) entrei na "Caviar House" deste mesmo aeroporto e comprei cento e vinte cinco gramas do Beluga por cem dólares. Pois bem, agora custei a crer no que estava vendo (e não duvidem de mim porque fui lá seis vezes somente para conferir e re-conferir e tenho testemunhas), as mesmas cento e vinte gramas, da mesma vitualha, vendida na mesma loja, procedente do mesmo país (Iran) e, se duvidarem, oferecida pela mesma vendedora, custava nada menos (vou escrever como se fosse um cheque) USD879 (oitocentos e setenta e nove dólares americanos). É isto mesmo que todos devem estar a pensar: 3.516 (três mil quinhentas e dezesseis) vezes a moeda brasileira da vez e do dia. Ou ainda, 17 (dezessete) meses e 15 (quinze) dias de trabalho de um operário tupiniquim com carteira assinada com o valor de um salário mínimo por 125 gramas de ova de peixe. Ou seja, um quilo da ova do Esturjão dos aiatolás estava custando USD 8.790 (oito mil setecentos e noventa dólares) ou trinta e cinco mil cento e sessenta unidades monetárias brasileiras da vez e do dia. Isto é, mais caro do que ouro. Desde aquele momento perdi para sempre a esperança de ainda vir a comer caviar. Pelo menos nesta encarnação!
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM II

16 de Outubro – Quarta-feira, 20 horas. Estou num dos quartos do Hotel Stanley, localizado numa área central da cidade de Atenas. Do Aeroporto para o hotel gastamos quase o mesmo tempo da viagem aérea. O aeroporto é distante da cidade, o trânsito é caótico – não se respeitam pedestres –, o engarrafamento é inevitável: viaja-se a uma velocidade média de menos de vinte quilômetros por hora. Na capa do bloco de papel onde escrevo estas notas leio uma advertência, sem indicação de autor: "Ter uma boa amizade é essencial, mas preservá-la é fundamental." Parece uma obviedade digna do Conselheiro Acácio, mas como já repeti várias vezes, as coisas óbvias demais tendem a ser subestimadas. Refleti um pouco sobre esta frase e procurei fazer uma autocrítica. Sou muito severo comigo mesmo no que diz respeito a amizades porque tenho certa dificuldade em construí-las. E justamente por causa disto, tenho também um quase pavor de perdê-las. Antes de viajar, só larguei a minha "janela para o mundo", que é como chamo a internet, quando não havia mais tempo sob pena de perder o avião. Não largava os amigos e amigas um só instante. Desde então sinto falta de todos eles. É como se estivesse me faltando alguma coisa indispensável: uma luz, um órgão do sentido, uma pessoa com quem conversar. Depois descobri que em bom português isto tem um nome: chama-se Saudade! Ainda na véspera de viajar recebi – gratuitamente – uma bofetada aplicada por uma destas amigas. Até agora a dor ainda não passou. Contudo, sinto que o que ela disse, apesar de ter-me magoado bastante – e a intenção dela era exatamente esta -, teve o seu lado positivo, como todas as coisas más que nos sucedem na vida. O final desta reflexão me leva a concluir que devo insistir em tentar manter, mesmo assim, esta amizade. Isto me traz alguma ansiedade mercê de um conflito: estarei procedendo imaturamente ao tentar preservar um laço afetivo inviável? Ou, por outro lado, estaria "oferecendo a outra face" e consequentemente ofertando o meu perdão?

21:30 – Jantar no Restaurante Strofi de onde se tem uma vista belíssima da Acrópole e do Parthenon, feeericamente iluminados. Somente este detalhe já compensa o preço meio caro do jantar. Comemos, além da entrada, polvo, cordeiro assado e abobrinhas fritas, e tomamos uma garrafa de excelente vinho grego.

17 de Outubro – Quinta-feira. Dia inteiro dedicado a visitar os principais pontos turísticos de Atenas. Como este diário pretende ser menos um Guia de Viagem, do que um relato de impressões pessoais, vou poupar a mim mesmo e aos eventuais leitores dos comentários técnicos. Estivemos na Praça de Omania, na Academia e na Biblioteca Nacional, na Praça Syntagma, no antigo Palácio Real, no Estádio Olímpico (onde se realizaram as primeiras Olimpíadas da Era Moderna), no Arco de Adriano e no Templo de Zeus. A seguir realizei um dos maiores sonhos da minha vida acalentado desde quando era criança: a subida da Acrópole. Já a tinha visualizado à distância na noite anterior. A imponência do Parthenon supera todas as expectativas. Todavia, a emoção que me perpassou o espírito durante cada minuto em que lá estive, vendo e visitando não apenas o Parthenon mas também todos os outros monumentos da Acrópole, decorreu muito mais dos elos afetivos que já mantinha com tudo aquilo do que pela majestade das próprias obras, que por si sós dispensam maiores comentários. Sentir que todo o mundo ocidental – e não apenas o latino – sofreu, de um modo ou de outro, a influência daquilo tudo, é algo que transcende a própria noção de perspectiva estética. Parece que a Terra inteira invejou a Acrópole, pois pelo menos alguns detalhes da arquitetura dos seus monumentos estão presentes em Roma, representados pelas suas ruínas e pelo Panteon; em Paris, pela igreja da Madeleine; em Londres, pelo edifício da National Gallery e do British Museum; em Washington, através das formas clássicas do Capitólio. Enfim, a magia dos edifícios da Acrópole dá forma, consistência e vida a quase tudo o que se relaciona com a cultura desta banda do hemisfério terrestre. Quando eu era criança assisti ao meu primeiro filme e à minha primeira peça de teatro no Cine Teatro Odeon, da minha aldeia natal. Mas só recentemente foi que soube que este nome deriva do Teatro de Herodes – o Ático, não o matador de criancinhas da Judéia. Construído no ano 161 da era cristã, foi lá onde primeiro foram representadas as peças escritas por Ésquilo, Sófocles e Eurípedes.
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM III

17 de Outubro – Quinta feira. Alguém já se deu conta de que falamos grego todos os dias o dia todo? Não? Pois fique bem evidente de que não se trata de nenhum exagero. Falamos grego ao pronunciar as seguintes palavras: Automático, Biblioteca, Cardiologista, Delta, Eutanásia, Fonética, Geografia, Hidrômetro, Hipertexto, Íon, Lambdóide, Megabyte, Nanograma, Ômega, Pentacampeão, Quiasma, Rádio, Sigma, Tetracampeão, Ultramar, Virologia, Xenófobo, Zoologia, ou seja, para cada letra do nosso Alfabeto - que é também um vocábulo grego - existe uma variedade imensa de palavras gregas na nossa língua e que pronunciamos a cada instante sem nos apercebermos disto. Não duvidem se ouvirem dizer que até os analfabetos falam grego, pois é exatamente o que fazem ao pedir uma almofada de carimbo para pôr o dedão no papel que deveriam assinar: "Desculpe, moço, sou anarfabeto". Mas não é somente neste aspecto que somos parecidos com os gregos, pois se assim o fosse praticamente todos os falantes de línguas indo-européias também pareceriam. O povo e a arquitetura grega – pelo menos em Atenas – lembram muito o nosso país, especialmente o Nordeste. Quando passei por algumas ruas da capital grega parecia-me estar a rever algo muito familiar. As feições, a estatura a cor da pele das pessoas parecem demais com as dos nordestinos. A fachada das casas de alvenaria do setor antigo da cidade têm a porta principal rente à rua. Não há entradas, recuos, jardins ou sacadas. Nas encostas de um morro próximo ao hotel onde estava hospedado, as casas populares se superpunham e seu aspecto físico me pareceram tão familiares que me levaram muito próximo a um "déjàvu" que me transportava no tempo, para a infância; e no espaço, para a minha aldeia natal.

18 de Outubro – Sexta feira. Partindo do porto de Pireus e a bordo do "Aegean I" -  um navio de porte médio e luxuoso - a caminho de Mikonos: primeira escala de um cruzeiro de três dias pelas ilhas gregas. Minha companheira de viagem era minha filha caçula. Estava tão afetada pelas quinze horas de vôo na classe econômica que chegou a suspeitar de algo impensável: "Pai, parece que neste navio que iremos embarcar vão nos alojar na "classe econômica" onde há somente uma poltrona para cada pessoa". Ri-me tanto que cheguei a constrangê-la. Com efeito, passar três dias e quatro noites a bordo de uma embarcação sentados num "espremedor de gente" igual à da classe econômica de uma aeronave seria mesmo dose pra elefante. Que digo? Que elefante suportaria algo tão absurdo levando-se em conta o seu peso e o seu porte? Seria dose para mamulengo de ventríloquo! Ainda bem que ela estava completamente equivocada. O nosso barco não era exatamente um transatlântico mas dispunha de muito conforto. Além de um camarote aconchegante, havia à nossa disposição, dois restaurantes: um com serviço "à la carte" e outro para bufê; salão de jogos, cinema, um miniteatro onde se apresentavam danças folclóricos, salão de baile e outros. Mas como tudo na vida, havia limites. A cabine do navio era confortável, sim, mas o banheiro era algo semelhante àquelas jaulas do filme "Tubarão" onde desciam os mergulhadores. Não pude conter a minha irreverência, curiosidade, senso de humor moleque, sei lá que nome dê àquilo! Explico-me. Havia, entre os passageiros, uma senhora imensa e cujo traseiro era tão descomunal que me fez passar horas a dar tratos à bola a fim de entender como ela se haveria para entrar naquela câmara de tortura, usar o chuveiro e, sobretudo, o vaso sanitário.

18 de Outubro – Quatro horas da tarde. Encontrar-se em Mikonos equivale a tomar um calmante forte sem os efeitos colaterais deste. Tudo contribui para isto: o clima, a paisagem, o azul do céu e do mar, a limpeza das praias, a limpidez das águas do Egeu, o semblante das pessoas e até os afagos que se faz a um gatinho manso e complacente – como aconteceu comigo. Todas as casas, sem exceção, são pintadas de branco e isto também concorre para acentuar aquela atmosfera de paz e encantamento. Já escrevi, certa feita, que se fosse Aladim e o gênio da lâmpada me oferecesse as opções de uma cidade, um bairro e uma praça para morar, diria sem hesitação: Paris, Marais, Place des Vosges. Pois vou dar uma de FHC. Esqueçam o que escrevi. Se o gênio me desse uma Segunda chance não pensaria duas vezes: Mikonos, Mikonos, Mikonos. Em qualquer bairro, praça, rua ou logradouro!
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM IV

18 - 19 de Outubro (madrugada de sexta-feira para sábado) – Quando se chega lá por via marítima, a primeira visão que se tem da cidade de Rodes – capital da ilha de mesmo nome – é imponente. Trata-se de gigantesca estátua do deus do sol (Helio), medindo cerca de quarenta metros de altura, mantendo as pernas entreabertas, estando os pés assentados em duas bases solidamente fincadas no mar, e cujo braço direito erguido, sustém em sua mão uma imensa tocha. O "Colosso de Rodes" situa-se logo à entrada do Porto de Mandráki e por baixo de suas pernas afastadas passam navios de grande porte que entram e saem da baía. Bem, pelo menos foi assim que sonhei naquela noite a bordo do Aegean I. Mas a realidade é outra. O "Colosso de Rodes" de fato existiu. Foi esculpido no ano 305 antes de Cristo a fim de celebrar a vitória da ilha sobre o Rei macedônio Demétrio I. A estátua – que foi considerada uma das sete maravilhas do mundo antigo – foi obra do escultor Charles de Líndos. Construída com o bronze das armas de guerra, custou nove toneladas de prata e levou doze anos para ser concluída. Mas no ano 227 antes de Cristo, um grande terremoto acabou com tudo.

19 de Outubro – Sábado. (7 horas) O café da manhã a bordo do Aegean parece ter sido preparado pelos cozinheiros dos Grão-Mestres da Rodes medieval. Enquanto escrevo isto parece que estão a almoçar a esta hora mesmo, tão convidativo é o aroma dos acepipes. Mas estou sem apetite e nunca pus vitualhas de quaisquer espécies na minha boca a menos que sinta fome.

(8 horas) - Chegada a Rodes, desembarque e caminhada de manhã inteira pelo centro da cidade antiga que é a única do mundo circundada por três muralhas sucessivas, separadas umas das outras através de fossos. Há indícios de História até no ar que se respira e tudo quanto se vê é da era medieval. A primeira muralha servia para proteger o "Bourg", espécie de bairro pobre, onde residia a arraia miúda, a ralé, a patuléia. A muralha seguinte servia para isolar o "Collachium", e incluía a Rua dos Cavaleiros. O Palácio dos Grão-Mestres – construído no século XIV e onde residiam os administradores da cidade – situava-se por trás do Collachium e era, portanto, o último bastião vulnerável em caso de ataque. Como se vê, o tão falado "apartheid", citado a cada "arroto" da mídia do século XXI como se fora um modismo é, na realidade, fenômeno muito antigo. Talvez, se fosse possível transportar a Rodes antiga para o Brasil da era neoliberal do FHC, o "Collachium" ficaria situado (e sitiado) na Zona Sul Carioca; o Bourg seria as favelas – alvo preferido das catapultas, digo, das balas perdidas, mas ao contrário daquele, sem nenhuma muralha de proteção. O Palácio do Grão-Mestre... isto mesmo, seria a Praça dos Três Poderes, em Brasília.

14 horas – Vagueando sozinhos (Fillipa e eu) pelas ruas de Rodes. Ela sempre à procura da cabeça de um filósofo grego que nunca encontrava ("só tem Hipócrates, pai, parece que estavam adivinhando que você vinha pra cá") e eu só observando e respirando a "atmosfera da História". Pensando no passado, nos Cruzados, nos Otomanos, na Idade Média. Pisando o mesmo solo há séculos também palmilhado pelos Cavaleiros da Ordem de Malta – que guardavam o Santo Sepulcro e atendiam aos peregrinos cristãos em Jerusalém -, por Pierre d’Aubusson (grão-mestre francês), Fabricius de Carretto (grão-mestre italiano), por todos os demais grão-mestres ingleses, alemães, provençais e espanhóis, pois cada nacionalidade protegia uma determinada área da muralha da cidade. Os Cavaleiros de Malta chegaram a construir três dezenas de castelos em todo o Dodecaneso somente com esta finalidade. Subitamente sofro um susto como se estivesse sonhando e despertasse de repente. Ou melhor ainda, como se estivesse retornando da Era Medieval para o século XXI. Estarei, acaso, no Brasil? Dois moleques de mais ou menos oito anos. Um com a camisa da seleção brasileira como nome Ronaldo estampado às costas em letras garrafais; o outro com a do Barcelona com o nome do Rivaldo. Pouco antes daquele curioso encontro com algo familiar em terras tão longínquas e pensamento não menos distante, havia retirado os filmes das câmeras fotográficas e esquecido de repô-los. Lamentei não haver captado para a posteridade aquela cena inusitada.
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM – V

19 de Outubro – Sábado. A bordo do Aegean I. Estou muito surpreso com o Inglês de Fillipa. Há dois anos ela só tinha conhecimentos desta língua ao nível do segundo grau escolar e de um curso básico do Yázigi. Quando se matriculou no Centro de Cultura Britânica não era capaz de manter uma conversação consistente por mais de cinco minutos. Agora é ela quem resolve tudo: reserva mesas em restaurantes, confirma vôos, reclama de alguma dificuldade relacionada aos quartos de hotéis e ao camarote do navio, pede e obtém informações turísticas, descobre em poucos minutos como se faz uma chamada telefônica de longa distância, a cobrar, em suma, fala fluentemente o Inglês. Havíamos entrado numa farmácia a fim de comprar creme dental e eu falei: "Vamos experimentar o sabor da pasta grega". A bisnaga me pareceu familiar, então julguei que, como se tratava de uma empresa multinacional, a embalagem do produto não deveria variar muito mesmo. Agora fui escovar os dentes e reparei no rótulo com mais atenção: "Manufactured by a colgate-palmolive company in Brazil – Av. Manoel Pedro Pimentel, 101, Osasco, São Paulo".

Somente hoje fiquei sabendo da omissão mais do que covarde que os cavaleiros que depois passaram a se chamar da Ordem de Malta – pois foi nesta ilha que se refugiaram – praticaram contra os habitantes da ilha de Rodes quando esta foi tomada em 1522 pelos otomanos. Embora tendo sobrevivido apenas cento e oitenta cavaleiros, de um total de 650, aqueles jamais poderiam ter agido como agiram: simplesmente abandonaram a população da ilha deixando-a a mercê da fúria e da crueldade de Solimão II e seus exércitos. Os cavaleiros vinham de famílias católicas e nobres italianas. Faziam votos de castidade, obediência e pobreza. O Palácio do Grão-Mestre é uma fortaleza dentro doutra fortaleza porque, como já ficou dito neste diário, duas muralhas e dois fossos superpostos o protegiam. Foi construído no século XIV e resistiu a um terremoto e vários cercos inimigos. Visitamos algumas áreas do palácio, pois percorrê-lo integralmente é tarefa para vários dias. Entramos pelo portão principal ladeado por dois enormes torreões, e estivemos no Pátio Central, na Câmara de Medusa, na Câmara abobadada da Primeira Cruz e na Câmara de Laocoonte – onde se encontra uma estátua que o representa em luta com as serpentes que tentam atacar os seus filhos. Deixamos o Palácio por onde havíamos entrado e percorremos a longa Rua dos Cavaleiros até sairmos de dentro das muralhas.

Estes e outros detalhes só conseguimos perceber se antes de viajarmos estudarmos o mais que puder os dados históricos, geográficos e culturais sobre os lugares a ser visitados. Por mais que se preste atenção às explicações dos Guias, nossa capacidade de reter aspectos fundamentais dos lugares visitados, fica muito limitada. Por causa disto, além de estudar enquanto me preparo para uma viagem como esta, nunca deixo de conduzir um livro atualizado sobre os principais pontos turísticos que pretendo visitar. O ideal seria levar um laptop e acessar a internet onde é possível se encontrar praticamente tudo, embora através de links. Contudo, contraproducente mesmo, creio eu, são aquelas anotações a toque de caixa que vejo muitas pessoas a fazer no exato momento das explicações. Nunca fiz isto, nem também jamais me arrependi de evitar esta conduta conduta, que, para mim, é algo parecido a se pretender chupar cana e assobiar simultaneamente. Mas não se pense que ao chegar em casa perco o interesse naquilo que vi. Pelo contrário, volto a repassar tudo. E quanto mais eu leio, mais indagações vão surgindo.
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM - VI

20 de Outubro – Domingo – (7 horas da manhã). Quando vou visitar lugares sagrados ou de peregrinação, infelizmente não sinto muito entusiasmo, a menos que haja atrativos artísticos como um imponente templo gótico ou pelo menos um quadro digno de admiração; um Goya, por exemplo. É o resultado de algumas marcas que me deixaram três anos de uma educação "religiosa" medieval, quando ainda vestia calças curtas, digo, batinas escuras sobre roupas de frio, em pleno sertão escaldante do Nordeste. Espero que esta ilha de Patmos não me decepcione, pois não estou disposto a viajar metade do mundo a fim de ver carolices.

9 horas – Ainda bem que não me frustrei. Apesar dos aspectos cerimoniosos da liturgia ortodoxa, Patmos pode ser considerada a "Jerusalém" do Egeu. No ano 95 da era cristã aqui chegou São João Evangelista e em 1088 foi construído um Mosteiro dedicado a ele. É um dos mais ricos da Grécia, possui torres e arcobotantes de um castelo medieval e um acervo de tesouros religiosos representado por duas centenas de ícones, trezentas peças de prata e uma coleção de jóias digna de qualquer rei ou imperador profano. A entrada principal (século XVII) apresenta fendas que serviam para despejar óleo fervente sobre os saqueadores. É através dela que se tem acesso ao pátio principal. A população da ilha foi enriquecendo pouco a pouco e se desvinculando do controle monástico. No século XVIII monges e leigos separaram suas terras e a indústria do turismo fez o resto. Há, portanto, um fluxo contínuo tanto de turistas quanto de peregrinos que responde pelo sucesso econômico da ilha. O Mosteiro é a atração principal de Patmos, se não a única. Consequentemente, uma visita de pelo menos uma manhã inteira torna-se indispensável. O Pátio Principal do convento contém afrescos do século XVIII retratando São João. A arquitetura também é sedutora. Há magníficas arcadas formando parte integrante do conjunto do pátio. Na igreja principal há um ícone do evangelista datado do século XII. É uma espécie de "lay-out" da ilha e do monastério. O refeitório dos monges possui duas mesas de mármore retiradas do Templo de Artemis. Para pessoas muito religiosas – e mesmo para aquelas que não o são tanto, mas não dispensam curiosidades – vale a pena entrar na Santa Caverna onde São João morou e teria escrito – sempre de pé, segundo o Guia – o Apocalipse.

14 horas – Continuo impressionado e muito curioso para entender como aquela senhora do bumbum descomunal "se vira" (em ambos os sentidos) a fim de usar o banheiro – e sobretudo o vaso sanitário – do seu camarote. Ela chama mais atenção do que o normal porque não sossega um só instante: sobe e desce escadas, pede que lhe tirem fotografias - "usted sacaria una foto de nosotros?" – passeia pelo convés, entra e sai da cabina a todo instante. Esqueci de verificar se ela usa a piscina, pois não cheguei até lá. Mas não duvido! As suas atitudes aliadas ao seu "modelo antropofísico alternativo" está me tornando um fofoqueiro. Ainda bem que só confio estas reflexões a este diário secreto.
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM VII

20 de Outubro - Domingo (14 horas) – Desembarque no Porto de Kusadasi, Turquia. Enquanto espero descarregar a nossa bagagem saio à procura de alguém que estivesse a me esperar porque consta no meu roteiro: "Recepção na chegada a Kusadasi e partida para visita a Éfeso e à Casa da Virgem Maria". Não encontro por perto ninguém que sequer fale inglês. Depois de muito procurar avisto um autocarro com o logotipo da empresa cujos serviços contratei. Corri para lá. O motorista estava sozinho. O seu biotipo era o de um nordestino brasileiro sem tirar nem pôr. "Helo. Is there anyone to take our suitcases?" Nada. "Sir, Is this the Pacha Tour’s bus?" Nada. "May we get up and have any seat?" O cara nem olhava pra nós. Pensei que era surdo. "Please, are you the driver who should catch us at harbour?" "Is there a Guide in this shit? Fuck You!" Era como se estivesse elogiando a mãe dele ou pelo menos falando para as poltronas do ônibus. Um pouco mais tarde surge uma Guia cujo inglês era parecido com o português do finado deputado Juruna. Quase ninguém na Turquia fala inglês. Somente cerca de uma hora depois encontramos com Nuri. Não sei quanto ao seu inglês, mas este falava um português de maranhense.

15:20 – Uma capelinha como tantas outras que já visitei representa a casa onde residiu Nossa Senhora. Não sou muito de praticar religião, mas Nossa Senhora sempre me protegeu, tenho certeza disto porque se trata de uma mulher. Nunca escutei aquela canção do Roberto Carlos sem que não chorasse: "Nossa Senhora / Me dê a mão / Cuida do meu coração / Da minha Vida / Do meu destino..." Não vou prosseguir porque do contrário estarei fazendo isto mesmo e preciso escrever... Há uma espécie de painel onde se põem "pedidos" por escrito. Eu fiz três: um deles era para que os idiotas sádicos que ficaram oito anos no poder da minha pátria nunca mais retornassem. Será que serei atendido? Os outros dois, "nem às paredes confesso" quais foram. Em frente à casa da Virgem deu-se um fato curioso, pelo menos para mim. Durante toda a minha vida admirei e cultivei gatos em minha casa, mas só os vi beber leite ou comer carne. Pois este gatinho de Éfeso comeu, com voracidade fora do comum e na minha própria mão, toda uma barra de chocolate que eu o ofereci.

16 horas: Visita a Éfeso. Trata-se de uma cidade que foi escavada por arqueólogos e, das ruínas romanas que já visitei, esta
é a mais conservada. Vou encerrar por aqui porque se começar a falar sobre Éfeso vai ser difícil parar...
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM VIII

20 de Outubro - Asseguram os homens de ciência que Éfeso já era habitada no século XIV antes de Cristo, mas as ruínas que lá permanecem são dos primeiros séculos de depois. Nunca estive num lugar onde as construções romanas estivessem tão bem preservadas quanto aqui, excetuando obviamente o Pantheon de Roma. Acho que todos conhecem a história da conversão de São Paulo que nasceu em Tarso, chamava-se, a princípio, Saulo, e ajudava os legionários romanos a perseguir os cristãos em sua própria terra. Ele viajava sozinho a cavalo quando teria ouvido uma voz: "Saulo, Saulo por que me persegues? "Quem sois Vós Senhor?" "Sou Jesus de Narazé, a quem tu persegues!" Depois disto ele viveu em Éfeso durante três anos e aqui escreveu suas famosas epístolas, inclusive aos Efésios. São João depois que saiu de Patmos também viveu aqui com Nossa Senhora e teria escrito – também aqui – o seu Evangelho. Já se viu que o Apocalipse ele teria escrito na Santa Caverna, em Patmos. Hoje, as atrações de Éfeso são, naturalmente, as ruínas gregas e romanas e dentre elas se destacam: a mais bem preservada que é a Biblioteca de Celso cuja foto encima este texto; a via dos Curetes, a rua mais importante e central da cidade. Começa exatamente defronte à Biblioteca de Celso e termina na Ágora. É uma rua toda pavimentada em pedras e mármore e ladeada por duas longas arcadas sustentadas por colunas coríntias. (Foi durante esta viagem que aprendi a distinguir se uma determinada coluna é Dórica, Jônica ou Coríntia). Atrás das arcadas se situavam galerias ladrilhadas de mosaicos de onde se tinha acesso às casas, às lojas e aos escritórios. O Odeon (o nome do cinema da minha aldeia e eu não sabia por quê), ou pequeno teatro, ainda está bem conservado e possui uma acústica surpreendente. Basta bater palmas para se constatar este interessante fenômeno. O Grande Teatro, por outro lado, deixa uma boa impressão daquilo que deve ter acontecido lá. Situa-se na encosta de uma colina, dominando todo o vale. Tinha capacidade para mais de vinte mil espectadores nas suas sessenta e seis filas superpostas de degraus. Foi construído pelos romanos sob o império de Cláudio, no século I depois de Cristo. A fachada (que já não existe mais) apresentava três pavimentos contendo colunas com nichos e estátuas. O Templo de Adriano foi construído em 138 d. C. quando a Via dos Curetes ainda era a artéria de maior fluxo de pedestres. As quatro colunas coríntias ao centro sustentavam um frontão ricamente decorado. Na fachada remanescem os vestígios de quatro estátuas, representados pelos seus pedestais contendo as inscrições dos nomes de quatro imperadores: Constâncio, Galério, Deocleciano e Maximiliano. Na minha modestíssima opinião de curioso, este é o segundo ou terceiro monumento mais bem conservado de todo o Império Romano. Pagaria de bom grado uma ou mais diárias de hotel a fim de ficar aqui por mais tempo. Mas a programação já está toda preestabelecida. Esta é uma das desvantagens de se viajar em grupos.

20 de Outubro – Domingo à noite no hotel de Kusadasi.

Diálogo com um cara que se dizia argentino e se encontrava, ao jantar, na mesma mesa que eu: "Adonde moras in Brasilll?" "Fortaleza". "Ah Jo la conheço". "E tu, moras adonde?" "Em julho do ano passado".
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM – IX

20 de Outubro – Domingo (22:30). As pessoas se comportam de três maneiras diferentes em relação ao ato de viajar. Tenho um amigo que já me confessou: "Silveira, se me oferecessem um Boeing só para mim, equipado como todo o conforto do Air Force One – o avião presidencial americano -, ainda assim eu me recusaria a viajar". Não tenho nenhum motivo para duvidar de sua sinceridade. O meu amigo é uma pessoa a quem o dito popular "Boa Romaria Faz, quem em sua casa está em paz", cai como uma luva. Há outro grupo de indivíduos – entre os quais me incluo – para quem viajar é um dos maiores encantos da existência. Já fiz aqui a minha declaração de bens. Tenho trinta e dois anos de formado e não possuo casa própria, de praia, de montanha e nem imóveis de qualquer espécie. Também não possuo "um fusca, um violão e muito menos uma nega chamada Teresa". Meu único patrimônio é um Fiesta modelo 1997 e as recordações das minhas viagens maravilhosas. Somos aqueles a quem o provérbio mais condizente é: "Cobra que não anda, não engole sapos". Há uma terceira categoria de pessoas que tem um desejo enorme de viajar mas não o faz por vários motivos: de saúde, econômico-financeiro, medo, avareza, e vários outros. Para estes vale o adágio, que é uma réplica do anterior: "As serpentes que muito andam levam pau na cabeça". Outros prazeres da vida que me seduzem muito são ler e escrever. Acho que não é necessário citar o maior de todos eles, pois penso ser universal: o ato de amar. Desde 1999 venho infectando esta internet com os vírus desta compulsão. Se forem verdadeiras as palavras que me escrevem sobre os meus textos – e não detenho nenhum motivo para supor o contrário -, a quase totalidade dos meus leitores gosta dos meus escritos. Menos talvez, por sua qualidade literária, mas pelo fascínio que lhes despertam os meus relatos. Havia, entretanto uns três gatos pingados que não gostavam – e provavelmente assim ainda continuam. Houve um destes cujos e-mails eram tão virulentos que não foi difícil enxergar nas suas entrelinhas os sintomas de grave distúrbio mental. Tratei-o por "meu irmãozinho" e recomendei-lhe um tratamento psiquiátrico. Parece que seguiu o meu conselho; pelo menos o seu silêncio me faz pensar assim. Insh Alá!

Madrugada de 20 para 21 de Outubro – Encontro-me no interior da magnífica Biblioteca de Celso em Éfeso. Da sacada central, situada no segundo pavimento, descortina-se um panorama ímpar que nunca supus encontrar entre ruínas do Império Romano. Trata-se da Via dos Curetes terminando na Ágora. A fachada do edifício de dois andares é suntuosamente ornamentada com colunas e capitéis e apresenta nichos engastados com estátuas que simbolizam a Inteligência e a Sabedoria Há três portas para se entrar no vasto salão de leituras. Entro pela do centro em virtude de divisar defronte a ela, uma enorme imagem da deusa Atena. O teto do salão é de madeira, mas as paredes, revestidas de mármore, possuem reentrâncias – ou nichos – onde repousam os pergaminhos. Pergunto a um dos funcionários se seria possível consultar os escritos de um tal Saulo, originário da cidade de Tarso, mas que atualmente reside em Éfeso. O funcionário reage com uma expressão facial ao mesmo tempo contrafeita e indignada. "Senhor, aqui nós não conservamos panfletos de qualquer natureza, ainda mais quando se trata de autores hereges e de textos subversivos. Esta é uma casa da Sabedoria e da Inteligência que caracterizam o nosso eterno Império". Neste exato momento soa uma campainha estridente na cabeceira da minha cama. "Good morning, Sir. It’s seven o’clock in the morning. Your transfer to Bursa and Istanbul is almost ready. Have a nice trip".
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM – X

21 de Outubro – Segunda-feira (Oito e meia da manhã). Saudade de todas as minhas amigas – ou pelo menos, assim eu as considero -: Helena, DD, Maria Petronilho, Cris, Márcia, Dina, Diana, Marga, Naine, Leyla, Chris, Dayse, Mercia, Maricell, Monica, Elza Vicente, Maria Lúcia, Urda, Nandinha, Lílian, Sil, Ceminha, Olga, Liane, Regina Souza, Regina Mas, Nena, Vilma, Terezinha, Simone, a lista é muito longa. Não deveria ter começado a citação porque vai ficar faltando a maioria. Só me resta esperar que compreendam o que se passa na cabeça de alguém que anda às voltas com coisas estranhas a tudo aquilo que nunca foi sua rotina, e que me perdoem as omissões. Apesar de já conhecer um pouco de tudo isto através das minhas leituras, parece um outro planeta.

10 horas – Bursa foi a primeira capital do Império Otomano e, segundo Nuri, é a mais turca das cidades turcas. É também a capital do Kebab, a iguaria oriental que devoro sempre onde me encontro e a encontro. Vou contar um segredo que nunca revelei a ninguém. Em 1989 eu despertei pela madrugada, morto de fome, num hotel Londrino situado próximo ao British Museum. Pois acreditem que tomei o "Tube" somente para ir comer um Kebab numa rua próxima ao Marble Arch – praticamente no outro extremo da city. Na volta tive de tomar um táxi, pois o metrô já havia encerrado as atividades daquele dia. Bursa é também conhecida como "cidade verde" e "cidade da seda". Em Bursa há cento e vinte e cinco mesquitas. Aquela onde entramos – foi a primeira vez que entrei num templo islâmico, pois no Marrocos é proibida a entrada de "infiéis" em mesquitas - chama-se Yesil Camii ou Mesquita Verde, mandada construir pelo sultão Mehemer Çclebi I, cujos restos mortais repousam ali numa tumba revestida de azulejos verdes. Será que todos os brasileiros com sobrenome Mesquita sabem que o devem a estes templos muçulmanos? Nunca me saiu do pensamento a influência árabe na Península Ibérica; afinal foram mais de sete séculos de domínio com todas as conseqüências e influências culturais, étnicas e artísticas. Sevilha, Córdoba e Granada por exemplo, são cidades européias, mas a sua arquitetura é predominantemente árabe. Quase todos os vocábulos portugueses que se iniciam pelo prefixo "Al" são de origem sarracena: alguidar, alameda, Algarve, Alfama, alcácer, alcatra, alcova. A lista é imensa. Primitivamente os otomanos eram originários da Anatólia, uma região que era isolada da atual Turquia e hoje é parte integrante do seu território. O vocábulo "primitivamente" é relativo, porque se voltarmos mais ainda no tempo, veremos que este povo se deslocou de remotas paragens da Ásia que conhecemos, em português, pelo sufixo "tão": Uzbequistão, Cazaquistão, Afeganistão... e tantos outros "tão". Pois no século XV esta gente abateu o aparentemente sólido Império Romano do Oriente e se estendeu em todas as direções: do leste da Europa à Índia; da costa ocidental da África, ao extremo do Oriente Médio. Estou citando estes dados de memória. Por favor, confiram em vossos Atlas.

16 horas – Travessia em "ferry boat" de um golfo do Mar de Mármara; de Yalova a Pendik e daí prosseguindo novamente de autocarro para Istambul. Consulto minha biblioteca itinerante e vejo muitas coisas que estou impaciente para conhecer: o estreito do Bósforo que comunica o citado Mar de Mármara ao Mar Negro; a situação geograficamente peculiar de Istambul, situada em dois continentes; e um tal "chifre de ouro" que me deixou muito curioso.

19:30 horas – Travessia de uma das pontes que separa a Istambul européia da asiática. Pronto! Agora posso dizer que já estive em quatro continentes: América, Europa, África e Ásia. Falta a Oceania. Mas, pensando bem, isto não tem importância alguma. Nunca pretendi ir para a Oceania. Fazer o quê? Afinal não deixei nada lá!
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM – XI

21 de Outubro – Segunda-feira – (20:30) AZYADÉ? Que hotel de nome estranho! Ainda bem que é confortável e fica no lado asiático de Constantinopla, perdão, Istambul. A primeira vez que vi cenários deste lugar foi nos filmes de 007, com Sean Connery no papel de James Bond. Mas muito antes disto eu já a conhecia das minhas leituras e aulas de História. A cidade foi construída sobre três promontórios: Stanbul, Beyoglu (tem um sinal gráfico em forma de meia lua em cima do "g") e Üsküdar. O setor asiático é do ano 650 antes de Cristo. Dados não documentais referem que foi fundada por um colono grego de nome Byzas, que teria originado o termo Bizâncio. O pai de Alexandre, o Grande, Filipe da Macedônia, tentou invadi-la mas, segundo a lenda, a deusa Hécate teria salvado os gregos sitiados. Os símbolos desta divindade eram a meia Lua e uma estrela, que ainda hoje ornam o fundo vermelho da bandeira da Turquia. Em 330 da era cristã tornou-se capital do Império Romano do Oriente, tendo à frente o imperador Constantino Magno. Teve início, então a civilização bizantina que duraria quase onze séculos. Durante este período foram construídos palácios, igrejas, monumentos, estátuas, colunas, fontes até que Constantinopla atingiu o seu apogeu sob o Imperador Justiniano. Depois foi invadida várias vezes pelos persas e pelos árabes até ressurgir das cinzas e atingir um outro pico de grandeza sob o reinado de Constantino VII. No século XI aconteceu o cisma que separou as igrejas cristãs Ocidental e Ortodoxa. No ano de 1204 os Cruzados saquearam Constantinopla, mas os bizantinos a recuperaram e Bizâncio veio a experimentar um terceiro surto de desenvolvimento. Até que em 1453 o Sultão Mohamed II derrubou o Império Bizantino, a cidade passou a ser chamada Istambul e a integrar o Império Otomano que duraria até 1923, quando nasceu a República turca e se deu a transferência da capital para Ankara. Fico aqui imaginando neste meu quarto de hotel o que eu teria vindo fazer aqui se não soubesse previamente destes detalhes. Seria o mesmo que um marciano a assistir a uma partida final de um campeonato mundial de futebol. Portanto, caros amigos, se pretenderem viajar, leiam, leiam e leiam tudo sobre os lugares para onde irão. Jamais haverão de se arrepender.

22 horas – Saímos para jantar num restaurante que fica localizado num emaranhado de ruas que só tem isto mesmo: restaurantes. São centenas de casas de pasto emendadas umas nas outras e a perder de vista. Apesar de se tratar de um local seguro, a princípio inspira um pouco de temor, pois os garçons só não nos puxam pelo colarinho, mas chegam o obstruir nosso caminho com cardápios quase a tapar o nosso rosto. Apesar de falarem turco entendemos o que querem dizer: "a comida daqui é a melhor". Escolhemos um deles em virtude de estar mais freqüentado – logo deveria ser um dos melhores – e pela presença de shows ao vivo. Comemos frutos do mar e saladas. O assédio de um gato levou-me a praticar algo que não costumo fazer: pôr comida no chão, já que não seria possível convidá-lo a comer conosco à mesa. Os gatos da Grécia e da Turquia, apesar de gordos, parecem famélicos.

22 de Outubro – Terça-feira. Até que enfim entendi o que é o tal "corno de ouro". A princípio julguei que se tratasse de uma espécie de troféu conferido ao turco cuja esposa tivesse o maior número de amantes! Agora fiquei sabendo que não se trata de nada disto. São dois braços do mar de Mármara que abraçam uma península e deixam refletir a luz do pôr-do-sol simulando um par de chifres dourados.
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM XII

 22 de Outubro – Terça-feira (oito horas da manhã). Descobri, tardiamente, que a principal dificuldade que tenho para construir uma nova amizade é esta franqueza escandalosa da qual nunca consegui me livrar. Não sei de quem herdei isto, mas desconfio que vem desde a infância. Tem mais. Esta sinceridade acabrunhadora não sucede apenas com as pessoas com quem me relaciono, mas também acerca de mim próprio. Isto, longe de ser uma qualidade – como a princípio alguém poderia presumir -, é um grave defeito da minha personalidade. Venho tendo sucessivos "insights" acerca disto e, inclusive já falei para o meu analista. Em certas ocasiões não apenas tenho dificuldades de iniciar uma nova amizade, como também creio que granjeei até desafetos, por conta disto. A primeira pessoa com quem me relacionei na internet nunca mais quis saber de "papo" comigo, simplesmente porque no nosso primeiro chat ao ICQ "vomitei" tudo sobre a minha vida. Desde quando me entendi por gente até agora. Parece que ela ficou tão escandalizada e teria fugido de mim como o diabo da cruz. Nunca mais tive qualquer notícia dela. Estas próprias palavras que acabo de escrever enquanto aguardo Nuri para sairmos em visita aos principais pontos de atração turística de Istambul, já são uma demonstração cabal do que acabo de declarar.

9 horas – Até este momento a minha Santa Ignorância me fazia supor que Hagia Sofia (Santa Sofia) era um templo dedicado a uma santa chamada Sofia. Pois não é nada disto! Sofia, em grego, quer dizer sabedoria e daí vem Filo (amigo) Sofia (saber). Um dia termino por aprender as coisas banais! Então "Hagia Sophia" quer dizer: "Igreja da Divina Sabedoria" e foi mandada construir pelo Imperador Justiniano. Só que não é mais uma igreja. Com a queda do Império Bizantino foi transformada em mesquita, o que também não é mais nos dias de hoje. Desde 1935 foi transformada em Museu por determinação do Presidente da República da Turquia, Mustafá Kemal. É considerada um dos mais significativos monumentos da criação humana. Foi construída sobre as ruínas de um templo ao deus Apollo no topo de uma colina de onde se pode divisar um panorama deslumbrante do Mar de Mármara. O historiador Sócrates – obviamente nada a ver com o filósofo grego – escreveu em 440 sua História da Igreja que abrange o período compreendido entre os anos 305 a 439 e atribui a Constantino II, filho de Constantino, o Grande, a conclusão das obras do templo. Sinto que estou a fugir do meu propósito inicial que era não escrever um Guia de Viagens, pois estes já existem às centenas, mas procurar transmitir um pouco das minhas próprias impressões. Todavia, seria uma omissão imperdoável se deixasse de tecer breves comentários acerca da iconografia, para mim um dos maiores atrativos do museu. Em 1847 o Sultão Abdul Mecit I encarregou os arquitetos suíços Gaspar e Giuseppe Fossati de restaurar aquilo que restou dos mosaicos que decoram o monumento. Os irmãos Fossati deixaram vários afrescos que são de valor inestimável para os estudos iconográficos posteriores, mas também promoveram algumas modificações, adicionando flores e outros motivos artísticos que quebraram a originalidade das pinturas. Um dos mais belos e originais ícones mostra Nossa Senhora sentada em um trono com o Menino Jesus ao colo. A figura foi pintada sobre um fundo revestido em ouro. Este ícone é uma espécie de "lay-out" da "Hagia Sophia". Existem ainda mosaicos mais recentes onde aparecem as figuras dos arcanjos Miguel e Gabriel prestando o papel de guardiães da Virgem e do Menino Jesus.
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM - XIII

 22 de Outubro – Terça-feira. Cruzeiro pelo Bósforo. De um lado a costa européia, do outro, a asiática. Já estive em Gibraltar que também é um estreito e separa dois continentes: a África da Europa. Mas apesar de "estreito" é largo demais a fim de que se possa avistar as duas beiras, como sucede aqui. As construções antigas à margem das águas trouxeram-me uma ligeira impressão do Grande Canal de Veneza.

10 horas - Visita à Mesquita de Eyüp, situada em pleno "Corno de Ouro" (continuo desconfiado deste nome; ainda o associo a um troféu a ser conferido ao mais corno dos turcos). Possui dois minaretes, é completamente branca, imersa numa área verde e é um local de peregrinação dos muçulmanos. Foi construída em 1458 e recuperada no século XVIII após ser destruída por violento terremoto. O nome se deve ao discípulo de Maomé, Eyüp El Ensari, e lá repousam seus restos mortais sepultados num magnífico mausoléu octogonal. Eyüp foi morto em Constantinopla durante a invasão árabe entre 674 e 678. Entra-se na mesquita através de uma das duas belíssimas portas que dão acesso aos dois pátios. O templo é recoberto por uma cúpula central circundada por outras oito semicúpulas sustentadas por igual número de colunas. A sala de orações é clara e iluminada; toda decorada com inscrições em ouro de trechos do Alcorão. Nesta mesquita aconteciam as cerimônias de coroação dos sultões do Império Otomano.

À tarde – Visita ao "maior mercado do mundo", segundo o Guia turco: o "Grande Bazar". Está situado no centro de Istambul. Entramos por um portão em forma de arco e nos perdemos lá dentro em labirintos de ruas, vielas, e becos onde estão expostas as mais diversas mercadorias. Existe praticamente de tudo o que se possa imaginar. Lembrei-me do Baião do Luís Gonzaga: "Na feira de Caruaru / Tem tudo o que gente quer / De tudo que hai no mundo / Nela tem pra vender". Tem nada! Se comparada ao Grande Bazar de Istambul não passa de um pequeno quiosque. Trata-se de uma estrutura milenária que remonta ao final do século XV quando Constantinopla foi conquistada pelos otomanos. Existem mais de quatrocentas joalharias, ourivesarias, antiquários, alfaiatarias, e tapeçarias. Há mais de cinqüenta restaurantes, centenas de casas de chá e café, lojas com todos os tipos de especiarias, desde aquelas que já são conhecidas do mundo ocidental até as mais exóticas e nunca experimentadas por quem jamais saiu desta banda do hemisfério. Há também um barulho intenso de vozes nas mais variadas línguas, configurando uma autêntica Babel. O Grande Bazar me lembrou um pouco as Medinas de Fez e de Marrakesh no Marrocos. Com a diferença de que aqui, apesar de muito maior, existe apenas comércio. Foi lá onde encontrei, afinal, caviar a granel, mas só para "milionários". "Legítimo Beluga do mar Cáspio", segundo o vendedor. Comprei 250 gramas e paguei Quinhentos e sessenta milhões (de liras turcas); mas mesmo assim muito insignificante diante do "ouro" do aeroporto de Zurique, pois um dólar americano equivale a um milhão e seiscentas mil liras turcas. Logo paguei apenas trinta e cinco dólares por um quarto de quilo do "objeto do meu desejo". Nada a ver com o filme do Buñuel. Este último – pelo menos por enquanto – está muito acima da vontade de comer caviar, e muito abaixo do órgão através do qual este é ingerido. Espero que tal apetite demore muito a subir para o estômago. Não vacilei em dar 35 dólares por 250 gramas de caviar. Para permanecer muito mais tempo desejando o "objeto" de que trata o filme do cineasta espanhol daria, sem hesitação, anos de vida. Compramos também algumas bugigangas: punhais turcos, baralhos, bijuterias e alguns "souvenirs". Uma das coisas que mais detesto quando estou viajando (se não a única) é fazer compras. Aliás, tenho a impressão de que não é só quando estou viajando, não!
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM – XIV

23 de Outubro – Quarta-feira

Bebi vinho ontem à noite e acordei de ressaca. Esta foi a Segunda vez que bebi nesta viagem. A primeira foi em Atenas, olhando para a Acrópole iluminada. Mas ontem andei exagerando. Entornei mais de uma garrafa. Prometo que se escapar desta nunca mais beberei. Ainda bem que não fiz como aquele "alemão" que encontrei em Pisa. Foi em 1980 mas ainda lembro como se fosse agora. Era um misto de bar, restaurante e albergue. Junto ao toalete havia um aglomerado de pessoas e a dialogar com elas uma garçonete. Não era bem uma garçonete. À falta de uma palavra em português para defini-la melhor vou chamá-la "chambermaid", pois suas funções incluíam muito mais do que servir às mesas. Para aqueles que ainda não sabem, em alguns restaurantes da Europa paga-se para entrar num toalete. Uma das funções da "chambermaid" era cobrar por isto. Acerquei-me dela para ouvir o que dizia pois percebi-a em intensa agitação. Abordei-a, em inglês. Ela me respondeu estar muito aborrecida porque "um alemão" havia entrado no toalete há mais de meia hora e não voltava. Havia uma fila esperando o lugar dele! Ofereci-me para ir verificar o que ocorria e ela aquiesceu, malgrado a sua irritação. Ao adentrar o toalete deparei com o "alemão" completamente nu, mais bêbado que um gambá, envolto numa espessa camada constituída de uma "salada sortida" de fezes, vômito, urina e outros dejetos não menos abomináveis. Suas roupas, jogadas ao chão, estavam tão "refogadas" quanto ele próprio. Dei meia volta e expliquei a situação à "chambermaid". Ela entrou num transe histérico e eu me encaminhei para o bar. "Garçom, una Grapa! Dupla, ‘per piacere’!"

8 horas – Visita ao Hipódromo Romano. É ricamente arborizado e se situa entre a Igreja (museu) de Santa Sofia (que não é dedicada a nenhuma santa chamada Sofia) e a Mesquita Azul. Era o "Jóquei Clube" dos romanos, mas também foi cenário de revoltas como aquela que foi esboçada contra o Imperador Justiniano no ano 532. Aqui, em 1826, foram massacrados os Janízaros - soldados do primeiro corpo regular da infantaria turca – por ordem do sultão Mahmut II. Constantino, o grande, foi quem mandou ampliar e modificar as linhas gerais do Hipódromo, mas a sua construção primitiva é do ano 203 depois de Cristo. Ao centro se ergue monumental obelisco, também chamado "Coluna de Constantino", e mede 32 metros de altura.

A Mesquita Azul fica a poucos metros de distância dali. Foi construída no século XVII e é a única do mundo com seis minaretes. Esta palavra me lembra muito as leituras da minha adolescência. Malba Tahan, um professor brasileiro de matemática, escrevia também contos orientais e era um dos meus autores prediletos. Do alto do Minarete o Muezim chama os fiéis para as orações – que todo muçulmano é obrigado a fazer cinco vezes ao dia – através de um canto dolente e arrastado. Sempre que me desloco no espaço, volto um pouco também no tempo. Recupero um pouco do meu passado, das minhas fantasias e ilusões da infância e da adolescência. Talvez seja por causa disto que a Poeta Margarida Reimão diz tão adequadamente: "Para mim, viajar é recolher os nossos próprios pedaços que ficaram em algum lugar." Adoro todos os (as) poetas deste mundo porque sabem transformar em lindas palavras aquilo que sinto e não sei dizer. A "Mesquita Azul" atrai muitos visitantes e assim sendo só é possível adentrá-la em pequenos grupos. Todos têm de tirar os sapatos e, as mulheres, recebem um xale marrom na entrada com o qual cobrem a cabeça e os braços. Nunca entendi por que quase todas as religiões monoteístas exageram o pudor físico. Seria a sexualidade humana uma criação diabólica? Ou toda fonte de prazer material é pecaminosa por si própria. Se esta segunda hipótese estiver correta, então por que Deus a inventou? Entra-se na "Mesquita Azul" por um grande pátio com pórticos sobre os quais há trinta cúpulas sustentadas por vinte e seis colunas. Entra-se na Sala de Orações através de três enormes portas e, imediatamente, fica-se ofuscado pela luz e pelas cores. Quando nos estarrecemos diante das obras de Miguelangelo na Basílica de São Pedro, dificilmente nos lembramos que os turcos otomanos também não deixavam por menos.
 
 

 DIÁRIO DE VIAGEM - XV

23 de Outubro – Quarta-feira. Os Guias de turismo parecem não acreditar em exceções. Pensam que todo brasileiro anda pelo mundo a arrebanhar bugigangas a torto e a direito. De fato, a maioria é assim mesmo. Nunca vi turistas americanos, japoneses, europeus e nem sul-americanos hispânicos carregados de troços de toda qualidade em virtude de comprarem tudo o que vêem. Só os brasileiros são assim. Talvez seja uma herança dos nossos silvícolas que trocavam com os invasores as suas valiosas mercadorias como o pau brasil, por espelhos, machados, facões, e todo tipo de quinquilharia que lhes ofereciam. Infelizmente, para Nuri – que deveria receber uma gorda comissão sobre as vendas – o nosso grupo era composto de apenas quatro pessoas. Talvez exatamente as quatro únicas exceções à regra deste furor aquisitivo que caracteriza o turista tupiniquim. Pior para ele; por que não perguntou antes: "Vocês pretendem comprar tapetes?" Não! Levou-nos a uma tapeçaria onde, para enfado meu e simulação de interesse dos outros três, o vendedor entrou a desenrolar tapetes de todo tamanho, valor, qualidade e...haja saco! "Vocês não vão comprar nada mesmo?" "Não". Quando íamos saindo tive vontade de dizer: "F da p. é você". E ele com certeza diria: "Mas eu não falei nada!" E eu replicaria: "Mas pensou!"

O ponto alto desta quarta-feira, pelo menos para mim, foi a visita de quase duas horas que fizemos ao Palácio de Topkapi. Está situado no topo de uma das colinas de Istambul entre o troféu do corno, digo, entre o "Corno de Ouro", o Bósforo e o Mar de Mármara. Foi construído em 1462 no mesmo local onde outrora se erguera o Palácio de Constantino e serviu, por vários séculos, de moradia e sede de governo dos sultões otomanos. É circundado por altas muralhas e torres e compreende quatro pátios que se comunicam entre si através de majestosos portões. A "Porta Imperial", no primeiro pátio, é a mais importante; através dela somente podia passar o sultão. A "Porta da Saudação", por onde hoje entram e saem os turistas. E a "Porta da Felicidade", que dá acesso ao terceiro pátio e era também chamada de "Porta dos Eunucos". Não me perguntem o que tem felicidade a ver com eunucos pois não saberia responder. Talvez representasse a "felicidade" dos sultões por saberem que jamais seriam corneados. O conjunto de edifícios que constitui o Palácio é enorme, pois cada sultão o ampliava de acordo com as suas preferências e conveniências pessoais, sem obedecer a nenhuma harmonia arquitetônica. Algo assim como estão loucos para fazer com Brasília e eu acho que ainda não o fizeram para não escandalizar o Oscar Niemeyer. Aquilo que desperta mais curiosidade nos turistas é o Harém ou "Casa da Felicidade"; esta sim, o nome dela já fala por si próprio. Todavia, o Harém não corresponde apenas àquilo que nós, ocidentais, sempre fantasiamos, ou seja, um lugar de concupiscência e de prazeres "pecaminosos". Era também isto, mas sobretudo uma espécie de repartição pública com disciplina e regras muito severas. A sucessão ao trono era feita através de competição, inclusive através da força física, entre os numerosos filhos dos sultões. Fiquei imaginando o quanto de ciumeira, de fofocas, de ódio e de violência deveria existir entre as mulheres a fim de assegurar para seus próprios filhos tão cobiçadas honrarias, poder, glória e riquezas. Aliás, as salas que contêm os tesouros, as roupas luxuosas e outros objetos dos sultões, merecem um capítulo especial. Penso que as jóias da coroa britânica, que estão na "Torre de Londres", perdem longe para as riquezas do "Palácio de Topkapi".

À tarde, visita ao "Bazar Egípcio" que é uma espécie de sucursal do "Grande Bazar". As mesmas quinquilharias que só servem para fazer a felicidade de quem é um "comprólatra" assumido. Perguntei o preço de um punhal turco decorado com vidro colorido a simular pedras preciosas, e o cara respondeu: "dezoito milhões de liras". Quando já ia saindo ele disse que venderia por dez milhões. "Quero não; só tenho aqui comigo seis milhões". "Dê-me-as. Pode levar". Como não tinha mais saco para subir e descer corredores saturados de bibocas, sentei-me numa destas que pertencia a um brasileiro de São Paulo. Minha filha comprou uma bijuteria e o paulistano me ofereceu aquilo que poderia ter sido o maior presente que alguém poderia me ofertar naquela ocasião: uma revista brasileira semanal recente quando faltavam apenas quatro dias para o segundo turno das eleições presidenciais. Contudo, a matéria era tão tendenciosa e espúria, que nela se podia sentir o desespero daqueles que já não tinham como evitar a derrota do candidato das elites. O chá de maçã que o meu patrício me serviu me fez muito mais bem do que aquele "Diário Oficial" em forma de panfleto. Pois, pelo menos, me acalmou os nervos.
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM – XVI

24 de Outubro – Quinta-feira Ontem estava cansado e com muito sono, então decidi adiar para hoje as anotações acerca de um setor especial do "Palácio de Topkapi", cuja riqueza, a meu ver, supera todos os similares que já vi no mundo ocidental, incluindo as jóias da coroa britânica, da casa imperial da Áustria e os objetos luxuosos do "Museu do Louvre". Trata-se do "Museu Imperial" do "Palácio de Topkapi". Como o vôo para o Cairo só está previsto para sair às 15:30, vou escrever agora – enquanto está tudo na minha memória – embora ainda pretenda visitar outros lugares de Istambul antes de viajar. A princípio, as várias peças do tesouro imperial estavam dispersas em diversos compartimentos do palácio e eram estritamente privativas dos olhos dos seus donos. Não se podia sequer imaginar a sua existência. Havia inclusive relíquias do Profeta Maomé que deveriam permanecer isoladas dos mortais comuns. Os diversos objetos foram, mais tarde, reunidos num edifício construído especificamente com a finalidade de ordená-los e melhor conservá-los. Este setor do Palácio de Topkapi é conhecido atualmente como "Museu Imperial". A maior parte do acervo é constituída de objetos luxuosíssimos que a cada ano eram ali depositados em homenagem ao Profeta. Entrando-se no Salão de número I pode-se ver, logo à direita, urnas transparentes contendo os trajes do Sultão Mustafá III. A armadura é predominantemente moldada em ferro, porém toda revestida em ouro e incrustada de pedras preciosas. Era destinada a proteger, a quem a vestia, desde a cabeça até as pontas dos dedos dos pés. Ao lado está uma espada feita em ouro maciço. A segunda urna mostra capas imperiais decoradas com pérolas formando versos do Alcorão. Há um manto negro de veludo também decorado com pérolas configurando a expressão "Deus Abançoe o Sultão", tendo ao centro, um diamante e terminando numa borla formada por um suporte em forma de campânula, do qual pendem inúmeros fios de ouro e mais pérolas. Na terceira urna encontra-se um trono confeccionado em ébano, com filigranas de marfim – uma obra prima do artesanato turco do século XVII - e que pertenceu ao Sultão Murad IV. Há uma quarta cápsula contendo utensílios de cozinha e jarros para líquidos e logo à frente, uma quinta, com candelabros de ouro maciço. Existem ainda outras urnas transparentes contendo cetros, vasos de jade com diamantes e outros objetos que pertenceram ao Sultão Abdulhamit II e que lhe foram presenteados pelo Imperador Wilhelm, da Alemanha. No II salão existem mais envoltórios transparentes contendo peças incrustadas com esmeraldas; mantos confeccionados em ouro, com motivos florais; armaduras de ouro com diamantes e pedras preciosas. Existem ainda outras noventa e sete peças similares a estas. No III Salão encontram-se mais peças em ouro e diamantes. À direita de quem entra há um riquíssimo manto real tecido em fios de ouro e também decorado com pedras preciosas formando versos do Alcorão. Acima da terceira urna há um imenso brasão com diamantes num fundo azul e rosa, contornado por pesadas correntes de ouro maciço, com borlas terminadas em fios de ouro e pérolas, medindo quase meio metro de comprimento. A peça mais importante do IV Salão encontra-se ao centro e se trata do Trono de Mahmut I. É considerada uma obra prima da arte turca e indiana daquele século. Foi um presente do Rei Persa Nadir Shah. Há um fundo verde e vermelho ornado com esmeraldas e pérolas. À direita da entrada principal deste salão, encontra-se uma urna contendo vasos e espelhos emoldurados em marfim. Em frente, uma variedade imensa de urnas contendo espadas, rifles, pérolas, colheres, garfos, facas e outros objetos de metal, tudo confeccionado em ouro maciço. De particular interesse nesta sala é uma caixa que contém o manto do Profeta Maomé. Não gostaria de encerrar este texto sem mencionar duas maravilhosas peças que, apesar de me chamarem muito a atenção e ter passado bastante tempo a admirá-las, não me recordo exatamente em que Salão se encontram. Trata-se do "Diamante da Colher", que é enorme e foi anunciado pelo guia como sendo o maior existente no mundo; e de um berço de ouro, para cujos recém-nascidos que lá se deitaram, cabe literalmente a expressão: "Nascido em Berço de Ouro". Obviamente, o "Museu Imperial" não se limita a estas peças que descrevi rapidamente, pois seria necessário escrever um livro, caso quisesse fornecer todos os outros detalhes.
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM – XVII

24 de Outubro – Quinta-feira (14 horas). "You can’t take this plane. You should confirm your books at least three days ago! Aquelas palavras caíram como se fossem uma paulada na cabeça de cada um de nós, mas foram proferidas com toda a indiferença deste mundo pelo gerente da Air Egypt no balcão do Aeroporto de Istambul. Nós éramos os primeiros passageiros do vôo 738 que sairia às 15:20 com destino ao Cairo e ficamos literalmente sem saber o que fazer. Outro vôo só no dia seguinte às 19 horas. Fomos colocados numa fila de espera; caso sobrassem lugares, viajaríamos. Se não, "adeus tia Maroca". Tudo indica que a culpa foi da dita companhia aérea cujas co-irmãs do "terceiro mundo" eu já sabia que tinham o hábito de praticar uma maracutaia que atende pela graça de "overbooking", ou seja, vender passagens acima da capacidade de lotação da aeronave, confiando na desistência de alguns passageiros, e assim conseguir faturar mais. As confirmações do nossas passagens tinham sido feitas por Nuri desde que entramos em território  turco, mais especificamente em Kusadasi. Quando estou viajando meu limiar de "stress" sobe bastante. Durante a minha primeira viagem à Europa sucedeu um incidente que quase arrebentou com os nervos dos meus três companheiros, mas eu fiquei na minha. Compramos passagem em Madri para seguirmos até Nice onde encontraríamos o grupo da excursão. Houve uma parada em Barcelona e outra em Avignon. O serviço de alto-falantes da estação ferroviária desta cidade anunciou três seguidas vezes, em francês, espanhol e inglês: "Atenção muita atenção passageiros que se dirigem à Côte D'Azur: queiram fazer o transbordo para outro comboio!" Entendi muito bem e tentei repassar a imprevisível (?) informação aos meus companheiros. Houve um princípio de dúvida mas a irresistível vaidade que confere excesso de confiança ao turista brasileiro, falou mais alto. Predominou a democracia; eram três contra um. (E afinal, que diabo, ia-se, de fato para Nice e não para a Côte D'Azur)."Que não; você não entendeu; se assim fosse, não deixariam de nos advertir em Madri". Tratei de lhes chamar atenção mais de uma vez, mas na terceira desisti pois já estavam a se aborrecerem comigo. Precavido, não me abalei. Início de viagem, solteiríssimo da silva, verdinhas quase intactas no bolso, bagagem diminuta. Quatro horas França a dentro margeando o Ródano. Por incrível que pareça tive "sangue frio" suficiente até para filmar aquele vale de vinicultura exuberante, sabendo que estávamos seguindo para Paris. Súbito, Lyon. Desnecessário comentar o misto de angústia e perplexidade. E Nice? Quando chegaremos a Nice? O chefe do trem só estalava os dedos e murmurava entre dentes numa língua meio esquisita: Nice? Avignon! Avignon! Doutra feita, ia para Viena com escalas em Lisboa e Zurique. Foi a única vez que esbocei um pouco de nervosismo, até porque me encontrava absolutamente sozinho. Havia diferença de fuso horário entre Lisboa e Zurique. Estando lá, na maior descontração, dirigi-me – conferindo a hora do embarque assinalada no meu bilhete, com o mostrador do meu relógio - ao balcão da Swissair onde ouvi atônito de um dos funcionários: "I’m sorry. You’re too late. Your flight left one hour ago!" Você já foi assaltado? Atropelado? Sentiu um mal súbito estando absolutamente sozinho? Se sim, sabe do que estou a falar. Do contrário, se imagine sendo preso num lugar desconhecido sem conhecer os motivos e sem ter para quem apelar. Algo assim como sucedeu ao personagem daquele filme "O Expresso da Meia Noite", quando foi detido por porte ilegal de drogas, na dita Turquia onde eu me encontrava agora. Talvez esteja a exagerar um pouco, mas o impacto inicial foi este mesmo! Por falar em drogas, foi justamente para uma delas que apelei. Dirigi-me ao Duty Free Shop, comprei um quarto de litro de uísque e entornei a metade. O alívio foi quase imediato. Mas, desta vez agüentei o tranco de "cara limpa". Não engoli nem suco de maracujá, mesmo porque ali poderia existir até homem grávido, exceto maracujá. E o tempo passando. Deu duas e meia. Nada! Deu três horas. Nada". Quando eram três horas e quinze minutos o dito gerente que nos havia dado "com a porta na cara", gritou: "Where are the Brazilians? Hurry. There are only four places and the plane is just going taking off". Ficaram quinze passageiros, que aguardavam também um lugar, a ver navios, digo, aviões, e não viajaram. Só estavam esperando por nós outros. Mal entramos o Boeing decolou. Ficamos dispersos; minha filha viajou na Classe Executiva e eu me sentei nos fundos do avião vizinho a um egípcio que me ofereceu um jornal. Tenho certeza absoluta de que nem que eu fosse Champolion conseguiria decifrar aqueles hieroglifos parecidos com um daqueles desenhos que aparecem no livro "O Pequeno Príncipe" e o autor interroga se aquilo é um chapéu ou uma jibóia que engoliu uma vaca. Excetuando tudo isto, foi o nosso vôo mais confortável e tranqüilo.
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM XVIII

"Todos temem o tempo, mas o tempo só teme as Pirâmides"

(Provérbio Egípcio)

24 de Outubro – Quinta-feira (20 horas). Não estou exagerando: a viagem de táxi até o Hotel Mövenpick Resort – Pyramids durou quase o mesmo tempo de vôo de Istambul até o aeroporto do Cairo. O tráfego de veículos é pesado e caótico. Os guiadores buzinam feito loucos. A cada instante sente-se a iminência de uma colisão. A velocidade média é menor do que em Atenas e o hotel não fica situado exatamente no Cairo, mas em Giza – próximo às Pirâmides -, que é uma espécie de cidade satélite. Entro no meu quarto e estiro-me na cama. Estou cansado. Meto a mão na minha sacola de viagem e retiro um livro qualquer; escolho um dos menos volumosos. Trata-se da "A Hora da Estrela" de Clarice Lispector e abro-o exatamente na página que contém este trecho: "Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na Terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado; não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas, preparado estou para sair discretamente pela porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só queria ter o que eu tivesse sido e não fui." Medito profundamente sobre estas palavras. Sinto-me identificado plenamente com os três primeiros períodos. Contudo, discordo frontalmente da última frase e digo por quê. Salvo engano já li algo semelhante em Drumond, João Cabral ou Vinícius, não lembro bem. Mas vi também uma entrevista do Ferreira Gular na qual ele diz abominar esta história de se querer ter sido algo que não se foi. Concordo com ele. De que adianta eu querer ter sido o que queria ser e não fui? Para mim isto é puro masoquismo. Nós não poderíamos modificar a nossa existência nem que no princípio dela nos fosse projetado um filme daquilo que nos aguardaria no futuro. Experiência? Esta de nada vale, do contrário bastaria a primeira queda para que déssemos a volta por cima e nunca mais reincidíssemos no erro. Nunca poderíamos planejar a nossa vida. Isto não é, de modo algum, fatalismo. Somos tutelados pelos instintos e estes não se modificam nem com toda a psicanálise do mundo. Continuo achando que nós não somos exatamente nós. Cada um de nós é si mesmo, mas também a sua circunstância. E esta última sempre obedece aos instintos. Aliás, "NÓS" é também o plural de "NÓ!"

25 de Outubro – Sexta-feira (6 horas). Releio este diário e constato que ontem andei escrevendo bobagem. Nunca fui filósofo. Ainda acho que Filosofia é "a ciência com a qual ou sem a qual o mundo marcha tal e qual". Mesmo assim admito que cada pessoa é detentora do seu próprio modo de pensar; de perscrutar o universo; de especular sobre a vida e a não vida. E vou parar por aqui porque isto também é filosofia. E das mais baratas. Vamos tratar de conhecer o Cairo que é melhor.

8 horas – Visita ao Museu de Arte Faraônico com tesouros de Tutankamon. Sempre aquela mesma frescura: mesmo tendo pago para entrar e para fotografar, não se pode usar flashes. Ora, p...., como se pode tirar fotografias se a quantidade de luz é insuficiente? Mesmo levando cagaço todo tempo tiro fotos, usando flash, a torto e a direito. Aqui se encontra uma das mais raras coleções de antigüidades egípcias, incluindo parte dos tesouros de Tutankamon, e que não estão disponíveis no Museu do Cairo. No caminho de volta para Giza – desta vez para visitar as famosas Pirâmides de Queops, Quefrem e Miquerinos -, uma surpresa. Surge à nossa frente uma pirâmide em forma de escada. Minha impressão é de que se trata de uma tentativa; uma espécie de ensaio; um protótipo das primeiras. Fica situada na região de Sakkara, próximo a Giza, e teria sido construída por um Faraó da dinastia Zoser, a terceira que a História registra. Foi construída no ano 2800 antes de Cristo.

9:30 – Até que enfim tornam-se realidade não apenas os meus sonhos, mas também todas as fantasias da infância e da adolescência associadas ao Egito Antigo. Encontro-me diante das três famosíssimas Pirâmides e da Esfinge de Giza. Por que será que as obras produzidas pelos humanos fascinam tanto a eles próprios a ponto de obscurecer a grandiosidade de certas maravilhas da natureza? Este pensamento foi o primeiro grande impacto que tive ao avistá-las. Esta emoção se torna ainda mais proeminente quando se considera o mistério das suas origens. Há cerca de cinco mil anos elas se mantêm, indiferentes a catástrofes, sejam naturais ou artificiais. Como se quisessem preservar o desafio ao tempo pretendido pelos seus construtores. Quase toda a grandiosidade das outras antigas civilizações desaparecerem ou deixaram apenas vestígios. As Pirâmides, pelo contrário, permanecem indiferentes a tudo apesar dos séculos a mais de suas idades. Os documentos mais importantes que registram dados sobre elas foram escritos por Heródoto, o pai da História. Escreve o historiador grego: "Queops deixou uma obra colossal. Ele obrigou os seus súditos a trabalharem para ele transportando, através de remotas planícies e das águas profundas do Nilo, os blocos gigantescos de pedra, extraídos das montanhas da Arábia. Havia sempre cem mil homens trabalhando e sendo substituídos a cada três meses." Ainda de acordo com Heródoto, dez anos se passaram somente para ser construído o caminho por onde passariam os enormes monólitos, e mais outros dez até que a primeira Pirâmide estivesse concluída. Outros historiadores deixaram documentos importantes sobre a construção das Pirâmides, mas nenhum deles explica satisfatoriamente como foi possível a uma civilização primitiva levar a cabo uma obra ao mesmo tempo grandiosa, duradoura e perfeita sob todos os aspectos levados em conta pela moderna tecnologia. Não foi à toa que, das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, somente estas ousaram transformar as pessoas do século XXI – e certamente dos muitos que ainda virão – em testemunhas oculares da sua colossal existência.
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM – XIX

25 de Outubro – Sexta-feira (11 horas). Às vezes chego a pensar que a quantidade de dinheiro arrecadada com o turismo no Egito, seria suficiente para construir outras três pirâmides e uma esfinge. Paga-se para tudo: entrar nos museus, fotografar dentro dos museus (sem flashes), pegar um simples mapa dos museus, ver determinada área do Museu (que o ingresso não cobre: múmias, por exemplo), catálogos dos museus, Guia dos museus, fitas de vídeo e livros sobre os museus, fazer xixi e cocô nos museus. Junto às Pirâmides paga-se para vê-las, entrar nas suas câmaras, outro tanto para fotografá-las, subir num camelo, tirar fotos montado nos camelos, afora tolerar o assédio de vendedores de trajes típicos, folhetos, souvenirs e outros troços, além de assistir a um espetáculo artificial à noite com iluminação e simulação teatral. Se vacilar, até para se respirar se paga. Concluo que esta deve ser a fonte mais importante de divisas para o Egito, se não a única – e me pergunto por que aí no Brasil não se desenvolve algo semelhante. Certo que não temos História para mostrar. Mas a nossa Geografia é privilegiada. Pouquíssimos países no mundo possuem atrativos naturais como o nosso. Somente o Pantanal, as Cataratas do Iguaçu, a Amazônia e a beleza sem par do Rio de Janeiro seriam suficientes – se convenientemente explorados – a fim de que se obtivesse uma fonte extraordinária de recursos neste setor.

12 horas – Almoço num restaurante típico. Pela primeira vez na vida provei Tâmaras. Tinha quase certeza de que se tratava de "uma vagem oblonga, ou linear-oblonga, curvada, subcilíndrica ou comprimida, irregularmente constrita entre as sementes, com a camada externa do pericarpo delgada, a interna polposa, ácidula, agradável ao paladar e sementes obovado-elípticas ou arredondadas comprimidas". Não se assustem porque estou a falar do meu velho conhecido Tamarindo de cuja árvore havia dois pés em frente à casa onde nasci. E eu só sei deste fraseado metido a besta por dois motivos: 1 – fui professor de Botânica; 2 – olhei na Enciclopédia. E o motivo de pensar que Tâmara era também assim, está no nome. Tâmara não tem nada a ver com Tamarindo - é um fruto de mais ou menos cinco centímetros de comprimento, avermelhado, de forma cilíndrica, contendo uma semente da mesma forma e com incrível sabor de coco.

14 horas – Uma tarde inteira perdida. Lá veio o cara oferecer bugigangas. Oferecer não, levar-nos até às lojas sem sequer nos consultar nada. Primeiro fomos a uma perfumaria. E do mesmo modo que o tapeceiro de Istambul, o vendedor toca a mostrar e a mandar que cheirássemos perfumes, sem sequer perguntar se tínhamos interesse em comprar. Quando ele terminou aquela lengalenga de mais de uma hora., deu-me uma vontade imensa de dizer: "Eu só não compro estes seus perfumes por três motivos: primeiro, não tenho o dinheiro agora". Mas tive receio que ele me interrompesse: "Pare! Não carece de dizer os outros dois".

15:30 – Vagueando durante uma hora e meia por um tal de Bazar Khan El Khalil. Suportei aquilo como se estivesse no dentista a fazer restaurações sem anestesia; o que nunca fiz. Quando tenho de chumbar um dente, por mínima que seja a cárie, não dispenso a anestesia. Prefiro mil vezes a picada da agulha do que aquela máquina de tortura em minha boca

20 horas – A bordo de um Bateaux Mouche para um passeio no Nilo para shows pouco atrativos, dança do ventre de uma dançarina Chatonilda e comida que não era lá essas coisas. Caro que só! Fui para não ficar sozinho no hotel coçando "os olhos".
 
 

DIÁRIO DE VIAGEM – XX

26 de Outubro – Sábado. Seria mais do que petulância da minha parte; seria o extremo da insolência, tentar descrever o Museu do Cairo. Tenho aqui comigo o "The Illustrated Guide To The Egyptian Musem", um cartapácio de seiscentas e trinta
e duas páginas e o autor diz na introdução que se trata apenas de um resumo. Entretanto não posso omitir pelo menos a emoção que senti ao estar ali. Entrar no Museu do Cairo é recuar quase cinco mil anos no tempo; é estar bem próximo das relíquias de uma civilização, ao mesmo tempo intrigante, colossal e misteriosa; é nos darmos conta da nossa pequenez e da insignificância deste átimo de tempo que passamos aqui neste planeta; é experimentar uma emoção parecida com aquelas que tiveram os cientistas que se defrontaram pela primeira vez com aqueles tesouros arqueológicos; é transformar em realidade sonhos, fantasias, desejos, que nunca supúnhamos um dia vir a acontecer; é, enfim, sentir-se uma privilegiada testemunha ocular da mais importante e remota cultura registrada pela historiografia oficial.
 
 

Estou convencido de que, a partir de agora, este texto vai parecer paradoxal, levando-se em conta o que foi declarado no principio do seu primeiro parágrafo. Contudo, duvido que exista alguém que se contenha em deixar de revelar pelo menos uma amostragem insignificante daquilo que presenciou uma vez tendo estado ali. O "Museu de Antigüidades Egípcias" – seu nome oficial – fica situado no centro da cidade do Cairo e sua existência se deve principalmente ao egiptólogo francês Auguste Mariette. Possui cerca de uma centena de salas de exposições distribuídas em dois pavimentos, além de uma rica e vasta Biblioteca. Dentre todas as coleções importantes e valiosas ali reunidas, destaca-se a de Tutankamon. . O seu sarcófago em ouro pesa aproximadamente uma tonelada e meia e representa a obra de ourivesaria mais importante do planeta, em todas as épocas. Três peças sucessivas foram fabricadas para conter os restos mortais do jovem Faraó, que faleceu aos dezoito anos de idade. Outras peças de particular interesse são as que remontam ao Império Antigo como as estátuas de Queops, Quefrem e Miquerinos – os construtores das Pirâmides. Também digna de particular atenção é uma estátua oriunda da IV dinastia. Encontra-se na sala 42 e representa um escriba sentado, com as pernas cruzadas, tendo sobre as coxas uma espécie de prancheta contendo um rolo de papiro. Os olhos são de quartzo incrustado, com um contorno de bronze. Embora os egípcios observassem escrupulosamente uma certa simetria em suas esculturas, a cabeça do escriba encontra-se ligeiramente voltada para a direita, sugerindo que estivesse refletindo sobre o que iria escrever. Os antigos egípcios consideravam a profissão de escriba como uma das mais dignas, provavelmente devido à cultura e à sabedoria destes profissionais da escrita. Eles faziam parte da corte e viviam muito próximos aos Faraós. Como se vê, quatro mil e quinhentos anos não foram suficientes para tornar os escritores de hoje em alguém merecedor de algum reconhecimento, pelo menos no nosso país. Muito pelo contrário. Os "faustosos" aparatos televisivos que o digam. Uma famosa estátua de madeira que remonta ao Império Antigo representa um indivíduo da nobreza – o Cheik-el-Beled, da IV dinastia que viveu em Memphis em torno do ano 2500 antes de Cristo. Suas feições denotam dignidade. Os olhos são de quartzo e a estátua está constituída de várias peças de madeira pintada.

Quando estávamos prestes a sair do Museu deparamos com duas estátuas geminadas e o Guia nos desafiou: "uma moeda de uma libra para quem reconhecer um único detalhe que diferencia uma estátua da outra". Não sei se foi coincidência, ou res ltado do meu acurado senso de percepção quando estou a observar algo de muito interesse, mas em menos de um minuto verifiquei que a estátua da direita apresentava na testa um leve traço transversal caracterizando os braços de uma cruz. O Guia deu-me a moeda e falou: "foi a pessoa que até agora vi decifrar com maior rapidez o ‘jogo do único erro’".

As horas restantes deste dia foram dedicadas a outras atividades tão banais que sequer merecem algum comentário depois daquelas horas no "túnel do tempo" que é o Museu do Cairo. Mais Bazares, visita a um monumento dedicado ao ex-presidente Anwar el Sadat, rápida passagem por um curioso cemitério em cujas tumbas há pessoas (vivas) residindo e uma vista panorâmica noturna da cidade do Cairo do alto de uma colina. Há mais mistérios entre o cotidiano da vida comum e as relíquias do passado do que possa imaginar o nosso vão conhecimento da História.

Raymundo Silveira

« Voltar