VINTE E CINCO HORAS
(Conto de uma noite de natal, ou 25:00h de um dia 25 de dezembro)

São 0:00h de um certo dia 25 de dezembro de um ano qualquer, numa data perdida. O relógio da catedral insiste em tocar em sons intermináveis e cheios de ecos dindão...dindão...dindão... Nas casas próximas à igreja ouve-se bramidos, rumores e gritos. Pessoas entram e saem de um portão semi-aberto de uma velha construção inacabada. Fogos de artifícios explodem em seqüências intermináveis de boons... Boom...boom...boom... No mesmo compasso, na quadra da escola de samba unidos do vai que eu fico, ouve-se um bum... bum... baticubum... bum...bum...estava meio desafinado, mas que importa, se todos estão felizes a sambar e dançar mesmo com as pernas trocadas e bambas, conseqüência da bebida barata consumida. Na velha escola o silêncio ensurdecedor da noite incomoda-me. Estava sentado na cama de pijama sem a parte de cima, esperando em branco àquela interminável noite passar. Se meu vulto subisse a escada do barracão onde servia de quarto, e fosse em direção à casa grande, decerto que teria que abraçar muita gente, fingir que todos estão felizes. O dia chato, de pessoas chatas que te aporrinha o ano inteiro e justamente neste dia impera a falsidade. Algumas pessoas lá dentro da velha casa conversava continuamente com alguém muito paciente que, só confirmava com a interjeição - rum !rum! Realmente pareciam todos felizes, ou simplesmente fingiam muito bem, pois enganavam a si mesmos. De repente meu vulto em sombra saiu voando da janela entreaberta e subiu àquela escada escorregadia. Passou então, por todos que cantavam, brindavam e abriam presentes. Estavam todos tão ocupados e dispersos que a noite seguia ao som terrível dos pagodes e ninguém notara a minha ausência e virtual presença astral. Podia-se notar as expressões de espanto e frustrações enfeitadas, quando de dentro daquelas caixinhas, todas bem embrulhadinhas não havia o esperado, via-se sorrisos amarelos e cinzentos, ciúmes e olhos arregalados a cada regalo desnudado. E o vulto saiu pelas ruas, visitou bairros e vilas, cidades e estados e até países e mundos? talvez, quem sabe? Naquele instante o tempo inerte já não fazia sentido, o horário não existia, logo não existia fuso horário em todos os cantos do mundo. E era natal, sim era natal em cada lugar onde se passasse, era. Se aquele dia era importante para muitos, para outros nem tanto, era um dia comum, um dia onde nascera tantos anônimos e outros que não eram ninguém, tantos sem identidade sem eira e nem beira, noite triste e passageira, assim como suas miseráveis vidas. O vulto via espasmos de espanto, sofrimento e dor. Afinal não existia natal para os cachorros vira latas que, nem sabiam que nascera naquela data. Um tal homem que, alguém teve a feliz idéia de colocar uma placa informando a sua alcunha “Bibelô” que, dormia na rua, sem cobertor , que uma dia fora tratado como Monsenhor  Artur de Bragança, já não tinha esperança, mesmo sem juízo, pensando ser de novo criança não fazia planos e não tinha sonhos, tampouco acreditava em Papai Noel. Já não se faz bons velhinhos como antigamente. Bibelô que ganhou da vida apenas o apelido, pois o soldado que fazia a ronda naquela praça, sempre o via ali, naquele mesmo banco, deitado, parecia um enfeite de natal ou um presépio vivo com suas tralhas e cão tão vira latas quanto o seu virtual dono que, quieto dormia, um consolando o outro em lambidas e roncos. Ninguém mais sabia que Bibelô dormia no seu aniversário, nem ele, nem o seu amigo fiel, acho que nem Noel. No dia 25 de dezembro, um bom velhinho de nome Noel estaria atrasado? ou não? saberia ele todos os endereços, inclusive pontes, ruas e praças? Bibelô que antes fora assaltado, surrado e despejado, estava desempregado e desamparado deitou no banco da única praça que o acolheu. Pensava ser criança, fazia pirraça e tinha bebido muita cachaça. Ele não tinha nem sapato, então tirou sua meia suja, furada e quase toda desfiada, e pendurou num prego que estava afixado em sua árvore de natal, que também era a árvore da praça que, o prefeito mandara iluminar. Coitado, aquele homem não sabia nem o seu nome, mas acreditava em um menino de nome Jesus, ele rezava à sua maneira e ficava esperando um dia passar para Ele a sua cruz, e quantos e quantas cruzes hemos de passar. Então o vulto em lágrimas foi embora, pois não tinha esmola e mesmo que tivesse não adiantaria dar por que daquela noite Bibelô não iria passar. Presente melhor os céus poderia lhe dá? Descanso e paz, pobre e rica alma Bibelô jaz.

Estava frio demais, assim como o frio é para as crianças de rua em todos os natais. Enquanto adultos e crianças de todas a idades brincavam e comemoravam o dia do nascimento do Messias. Empresas contabilizavam os grandes lucros dessa epidêmica nostalgia. O mundo de injustiça e de injustiçados, o vulto percorria em visita fúnebre, castelos de areia, lia nas mentes opacas e limitadas. Então o vulto queria retornar ao seu verdadeiro lugar, mas não conseguia, pois havia entrado no Carandirú e tinha que visitar Raul que, um dia fora “Santo” e fora preso por engano, e, que, para sobreviver teve que se perverter. Virou mocinha e foi obrigado a matar mais de dois com estilete. Tudo culpa do sistema que seria para proteger o cidadão e reincorporá-lo à sociedade tão medíocre quanto o sistema. Raul via o natal só no cinema improvisado no pavilhão sete, naquele momento estava enjaulado no pavilhão nove, junto com os mais perigosos bandidos, nisto o sistema se encarregou de o transformar. Raul, então, deu seu último suspiro nos braços de uma poltrona, onde um simpático médico tentou o socorrer de mais uma punhalada da sorte, que belo presente a morte, estava na lista negra devido a superlotação. Raul voltou a viver em espírito e recuperou sua honra, pois somente o seu corpo foi estuprado e mutilado, ele vive do outro lado.

Voltando aquele quarto, uma meia-água de telha de amianto tão frio feito a noite, por um lapso do tempo retornei, e, ainda, era natal - dingo bel e tudo mais. Estava escuro, mas pude perceber que o relógio marcava 0:00h e fazia um sonoro tic...tac... Ora, pensei ser o fim da estória. Sentia o frio da noite, e como estava fria àquela noite. Ouvia-se vozes e um canto desafinado, acho que vinha do outro lado, me espantei com o fato de que o natal não havia passado. Daí a imaginação foi de encontro à realidade, passou também por várias cidades. Viu as mães da praça de maio, viu como choravam as favelas em luz de lamparinas. passei aquela noite a contemplar o céu de estrelas, além da linha vermelha de arco íris, felizes as meretrizes cambaleiam andando na ponta do nariz nesta noite sem fim. Que trágica noite, também acontecia chacina, tem gente que escreve, poeta faz rima. Pés descalços ao chão, relento, poeira e vento, haveria dia de sol, na noite apenas vento que, soprou de encontro ao tempo que, ainda, por um lapso de uma hora contou a história de um tempo sem glória. Nasceu Tarcísio, Natália, Natan e Jacinto, como já senti fome em noite de ceia farta, mas isto fazem muitos natais.

Então é natal, é noite de natal, pisca pisca, árvore e presépio; presentes e ausentes na noite de festa; juras e promessas; outras juras de amor fraterno, encontro de povos e de raças que, resistem as imperfeições do mundo em vários mil e novecentos passados... O ponteiro dos minutos cansado de passear sem destino, sem saber quando e onde chegar, pois o ponteiro das horas, preguiçoso, demora e naquela noite não quis nem andar, apenas o primeiro trafegava perdido na noite, ficou tonto de tanto rodar em vão, em solo, sem companhia, como eu estou agora. Teria o ponteiro menor esquecido do tempo? ou simplesmente em protesto fez greve por uma hora. Vejo além das alegrias da noite de peru e pernil, cantil e vinho, presentes e abraços, beijos e lágrimas. Paz celestial ainda presencia execuções, as nações unidas ou desunidas param para ver a chegada da estrela de natal que, voa solitária, sem destino, já não mais vai a Belém. Em qualquer língua que se fala, as mensagens tornam-se meros clichês. Maquinistas, motoristas, garçons, artistas e uma legião de trabalhadores labutam enquanto outros festejam. Que diferença faz se é natal? um dia igual aos outros, tão somente especial pelo lado espiritual, dia do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo, no mais é o dia internacional da pieguice e falsidade. Amor e paz urge, o natal surge. A noite continua... entra ano e sai ano... Os ponteiros do tempo avançam e mesmo que passada a noite, será sempre natal. Felicidades meu caro leitor, pelo seu natalício, pois hoje talvez, para ti seja natal e o mundo não parou por isto. Amo a cada dia de natal assim como os treze mil, duzentos e dezessete dias de minha vida. Jesus vive a setecentos e vinte e nove mil, quinhentos e setenta e um dias em nossos corações. Ame-o, ame-se e ame o próximo, antes, durante e depois... NATAL.

Eustáquio Mário Ribeiro Braga (THACKYN)