A IDADE DA AURORA
(Fragmentos)

                    1.
                    Depois de enterrar seus mortos — a febre maleva os ferroara — Futuro se põe a ordenar a ilha. Em círculos. Como fora a sua infância. Sob o sol, que o viu nascente e trabalhava.

                    Quem ao tempo vem, nele achados rende.
                    Antes, Futuro hospedou seus mortos na gleba do coração. Mais levinha, planosa.
                    Coisas como pedras seriam sopesadas e dispostas.
                    E Futuro estava coberto de memória. Como o limo das árvores.

 

                    2.

                    O solo da ilha florescida é memória. E também a linguagem que fora entalhada, cada dia. E se fizera igual à inscrição dos faraós.
                    Cada letra desabrochara, enigmaticamente, sob o sol. E as escritas se fizeram plantas surpreendentes, com inúmeras folhas. E flores em pétalas, ciliosas pálpebras.
                    Mas havia o alfabeto que emudecia no ir-e-vir das heras. Ali, exatamente, é que se ocultava o tão antigo, a palavra.

                    Onde o universo descansa.

                    A todos os mistérios Futuro se amestrara. E os ia confundindo com os riozinhos que desciam, clareáveis, dos seus olhos.

 

                    3.

                     Futuro não esqueceu do ritual para os mortos. Cavou na rocha imemorial os nomes de seus pais, lado a lado. E a veios se assemelhavam. Límpidas águas que jorravam da fonte de alguns nomes.
                    E continuava ignorado, onde os mortos dormiam claridades. Que só a luz falava. Impassível.
                    Os mortos respiram para dentro: no imóvel.

                    O espírito singrava o abismo.

 

                    24.

                    Resplandecem os atos. E são novos em folhas, os seres.
                    Os bichos existem e resmungam na palavra. Os focinhos bebem açucenas.
                    A palavra, rotação do universo, roldana.
                    Viver é ir caindo no vivido.
                    Debaixo do sol nada é soberano. A palavra vai mudando a eternidade. Água, reboço, cheiro de envelhecer as mortes.
                    Menores ou ínfimas, as palavras vicejam. Gotejam leite. Orvalham. Ruminam.
                    E Futuro amealhando, sondava estas aragens, a ordem das estrelas.
                    Não restava batalha, nem raio lumiante. O mal já não suporta.
                    Deus julgava a palavra.

 Carlos Nejar

Do livro: "A idade da aurora", Massa Ohno Editor, 1990, SP

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