DIALÓGICA

Olha, eu não sei com muita clareza o que sinto por você. Nós nos conhecemos há tão pouco tempo. Me sinto forte a seu lado. Só de pensar em você fico excitado, desejando ficar no teu rumo, no teu movimento. Mas não sei de nada. Estou me separando ainda. É recente demais minha separação.

É claro, tava tudo errado. Era uma relação que se sustentava por conta do amor a meus filhos. Pensava ser possível levar uma vida com dedicação exclusiva a minhas crias, apesar da frustração da convivência com Bete..

É impossível, inviável querer viver com uma mulher que não se ama mais por causa dos filhos. É confusão o tempo todo. Pior foi a crise da saída de casa, com crianças chorando e tudo o que um dramalhão mexicano dá de direito ao fim de um casamento. Tava me achando o cara mais ridículo do planeta. E depois, as mágoas de Bete impedindo meus passeios com os meninos. Agora ela sabe de você e acredita que nos conhecemos durante o casamento. Acha que você já era minha amante e que nos planejamos essa situação de antes.

Eu morando nesse velho apartamento de minha família. Lugar sem qualquer estrutura. Sem móveis, sem tralha de cozinha, sem conforto. Não sei, não sei com certeza o que sinto ou o que nós podemos esperar um do outro. Viver junto com outra mulher é coisa que não passa por minha cabeça pelo menos por enquanto. Toda essa coisa de repartir, partilhar, reconhecer os limites e os direitos do outro. Ser, politicamente correto sem chauvinismo, sem egoísmo.

Olha, a Bete me exigia tamanhas posturas corretas e dignas de uma coexistência supostamente sadia que acredito que não vou casar nunca mais.

Não quero saber de reviver aquilo outra vez. Será que toda relação a dois tende à burocracia, à perversão? Quando casei com Bete experimentava uma emoção tão potente, tão pujante... Confiava na durabilidade de minha paixão.

Pensava na relação e no casamento de minha mãe e de meu pai. Cinqüenta anos de bodas. Sobreviveram a dificuldades inimagináveis. Quando nossas crises iniciaram, achei que superaríamos tudo. Depois, como não tivemos êxito nas tentativas de superação, ruiu o edifício da boa memória afetiva de minha família. Pude então entender por minha própria experiência, que minha mãe e meu pai não superavam suas dificuldades e crises. Dissimulavam, enganavam a eles próprios e mantinham os conflitos nos segredos das noites no quarto de dormir. Brigavam em silêncio para que não soubéssemos, para que não dividíssemos as encrencas existenciais aflitivas dos dois com o todo do grupo familiar. Eles empurraram com a barriga suas crises e escamotearam os resultados e conseqüências perversas do desastre que havia entre os dois.

Via com olhos críticos os outros meninos da escola que os pais eram separados. A permanência, a estabilidade do casamento de minha mãe e meu pai guardava minha felicidade afetiva. Todavia era mentira, lorota, se odiavam e destilavam suas abominações com parceiros obtusos, desconhecidos, que não podiam ser integrados à nossa amizade e companheirismo porque representavam o papel social de adúlteros. Como é difícil aceitar tanta estupidez em nome da moral, dos bons costumes, da família, da boa constância da mesmice da vida. Vidas dedicadas à alienação e à desagregação psicológica.

No tempo que casei, houve como que um terremoto simultâneo destroçando os últimos pisos, os derradeiros chãos onde aquela relação erguia baldrames. Os dois morreram pouco depois. Um de cada vez e todos os dois de depressão.

Não sei e acho que não desejo saber onde nosso amor pode ou deve chegar, mas não vou pensar nisso agora. Eu compreendo sua ansiedade, de certa forma eu me sinto um tanto assim também, mas não posso estruturar uma nova vida com você agora.

Estou apaixonado, acredito na paixão. Você é uma mulher maravilhosa. Parece realizar minhas fantasias. Mais ainda, parece interpretar com decisão e gosto os traços de desejos meus sobre possuir uma mulher. Eu te quero, te desejo, te vejo e arrepio com a certeza de nossa circunstância sensual, amorosa, romântica.

Será que você pode me entender, me decifrar? Preciso ficar só, preciso reconstruir alguma coisa, algo meu está perdido ou desaparecido dentro de mim mesmo. Talvez seja impossível volver a amar alguém com a mesma intensidade que amei e me entreguei ao amor de Bete. O nome disso é trauma? Se tiver esse nome então estou traumatizado. Quem sofre um trauma necessita um período de reflexão, de repouso dos sentidos. Deixar baixar a poeira para enxergar outra vez as possibilidades do amor.

Penso... Melhor, temo que, se der inicio a uma relação duradoura com você, volte a cometer os erros perpetrados contra Bete. E ainda tenho medo dos fluxos, das partes de sua personalidade que só se revelarão no dia-a-dia, no cotidiano, na história da relação sem os floreios e os encantos desses momentos. Sonho com a eternização do tesão da paixão. Isso será crível?

Quando observava a falsa boa vida conjugal de meus pais, tinha fé no tesão da paixão como um sentimento revestido e protegido dos males do mundo. Tinha fé na permanência da sensação insana da fidelidade interna do sexo, do prazer sexual. Mas o amor está mais para Heráclito do que para Reich. As coisas se modificam, se transformam. E se transformam para os dois, então, segurar essa barra é para quem tem estrutura de caráter, de história de vida pessoal. Para quem pode e deve se orgulhar disso. É para quem pode esnobar o ciúme. É para quem pode se dar ao luxo de amar a humanidade ao invés de amar uma pessoa somente. É para quem não carrega medos e mentiras na formação da consciência, como eu carrego a mentira do casamento cinqüentenário de meus pais. Dá pra me entender?

Dá, dá pra te entender só que você também não é capaz de sensibilizar os meus sonhos e pesadelos, a história da derrocada da minha relação com o Meirelles. Você sabe, compreende, mede o que é ser casada por dez anos com um psicanalista freudiano?

Pode tentar entender o quanto eu também sofri? As interpretações diárias que o Meirelles realizava sobre meus comportamentos? Os complexos, as taras, as neuroses? O tudo que fui acusada e diagnosticada como deprimida, fria, doentia, maluca. Ser casada com um cara que tem o reconhecimento público de um cientista de grande importância política, e que, no entanto, dentro de casa, não passa de um rato. Calculista, machista, exercendo controle sobre todos os passos da tua vida. Querendo sempre saber com quem você esteve, com quem almoçou, com quem vai se encontrar. E além do mais, brocha, invariavelmente brocha. Incapaz sexualmente e cuidando da vida mental dos outros e destruindo a vida de com quem convive.

Eu pensava que essa praga havia abolido minha capacidade de amar, até que conheci você e pude experimentar a mim mesma como uma pessoa saudável e normal por gostar de sexo. Não vou te exigir nada, nenhuminha decisão. Pra mim é difícil saber se sou capaz de voltar a morar com alguém e viver um dia-a-dia de intensa paixão. Eu quero acreditar na permanência do amor da descoberta, do amor da paixão. Eu vou te entender e te entendo pelo mesmo motivo que você me solicita compreensão. Eu também estou destroçada.

Então vamos nos ver nos momentos que o coração pedir. Vamos estar juntos sem forçar a barra. Não vamos nos impor limites. A única regra que vamos adotar é a da liberdade. O respeito a nossas individualidades. Aos desejos de cada um. Não queremos acabar. Vamos deixar as coisas andarem a seu próprio ritmo. Cada é cada um. Vamos admitir que é possível para alguém apaixonado a maior das liberdades do ser, a realização do amor pela oportunidade do encontro.

Alexandre Acampora

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