
Hotel Pequim
Para Jaqueline, sempre o meu Carnaval.
Para Chico Buarque, pela licença do final.
Mal podia acreditar quando avistou o quiosque de madeira, ao lado esquerdo do acesso à cidade, sob a luz fraca de um poste. Encostou o carro, baixou o vidro empoeirado e pediu uma Bohemia. O vendedor serviu Bavária, sinto muito, só temos desta aqui.
Ele sorriu. Afinal de contas, há três horas dirigia sem parar. Apanhou a garrafa gelada, o copo de plástico acinzentado e bebeu como um árabe faria defronte ao oásis. A cada gole, seus olhos espertos mapeavam o horizonte: poucas casas, uma usina de álcool sendo construída à esquerda, um pasto de ovelhas à direita. Poucos quilômetros de terra adiante lhe separavam de chuveiros e colchões.
Juntou as moedas, pagou a bebida sem olhar muito para o homem baixo e subserviente que recolhia a quantia numa caixa de sapatos e acelerou. Dez minutos entre poeira e solavancos até que as sombras das primeiras casas contivessem o calor infernal da época.
Era fevereiro. Era Carnaval. Havia se esquecido de como gostava deste feriado, o seu favorito enquanto criança, lembranças da mãe lhe vestindo para a matinê no clube. A prima de bailarina, olhos verdes na vestimenta alva, ele de pirata, tapa-olhos curiosos, peitoral de sabiá surgindo no colete vermelho. Confetes e serpentinas, as marchas de Ary Barroso e João de Barro e as máscaras coloridas adornando as paredes recém-pintadas do salão social. Naquele dia, só se lembrou da data ao avistar os garis recolhendo o que restou da primeira noite de folia. Há anos perdera o espírito de arlequim, sequer se lembrava dos sambas antigos, para ele cada dia era apenas mais um dia a ser vivido. Ajeitou o chapéu, reduziu a velocidade, perguntou sobre uma pousada ao transeunte mais próximo, um negro de dentes perfeitos, uniforme de gari, devia estar voltando para casa.
Ali o hotel Pequim, disse o homem. É o único da cidade com vista para a praça central onde o senhor ainda encontrará quartos vagos. Ducha quente e colchões limpos. Não é tão barato para os padrões daqui, mas os riscos de se deparar com baratas e ratos pelo assoalho são praticamente nulos. O doutor segue em frente que a recepção fica ao lado da banca de jornal.
Agradeceu e pensou que ainda existiam homens decentes no mundo, mas que não deveriam trabalhar como lixeiros em pequenas cidades. Estacionou o carro no meio-fio e, sobre os poucos olhares curiosos que cruzaram seu caminho naquela noite, limpou os pés no carpete marrom antes de ser atendido pelo recepcionista. Via-se que o rapaz descendia de orientais, dois brincos de prata no lóbulo esquerdo e cabelos negros e finos como o de um indígena.
Quarto?
Sim, respondeu.
Tenho um. Frente para a praça. Nunca consegue ser alugado por causa do carnaval de rua. Pessoas vêm para cá em busca de sossego, mas aqui no centro é um pouco complicado nessa época.
Quanto?
Oitenta reais os três dias. O chuveiro quente não funciona, mas garanto que a ducha é forte o suficiente para relaxar os músculos até com água fria.
O chinês tentava ser simpático, temia que a falta de um banho quente lhe removesse a idéia de se hospedar na cidade. Mas tudo se resolveu quando o dinheiro foi posto no balcão envelhecido.
O senhor pode deixar o carro na rua de trás, disse o recepcionista. Há um terreno baldio que serve de estacionamento. Muito seguro, um fila brasileiro feroz é solto à noite para resguardar os valores de nossos hóspedes.
Ele não disse nada, saiu e voltou cinco minutos depois com uma pequena mala de roupas. Não assinou o livro de registros do hotel, sequer apresentou documentos, mas isso nunca fora problema ali, desde que o pagamento fosse efetuado de forma adiantada. Apanhou as chaves, subiu a escadaria de carpete bordô e entrou no quarto. Não via uma cama há dois dias.
Deitou-se na cama e tinha a impressão de que seus ossos estralavam. Sono pesado, acordou com o primeiro estampido dos rojões e a primeira marchinha carnavalesca invadindo a cortina entreaberta do quarto. Reconheceu os acordes de “O Teu Cabelo Não Nega” e, hipnotizado, foi avistar o movimento do parapeito da janela. A praça estava cheia, um oceano de pessoas ocupava as ruas de paralelepípedo, contou seis instrumentistas num palco improvisado ao lado do coreto central e avistou serpentinas nos fios elétricos de quase toda a avenida. Resolveu tomar um banho e fumar um cigarro antes de dormir. De onde vinha, o barulho das marchinhas e dos foliões não passava de canções de ninar para seus tímpanos. Passava noites ouvindo coisas muito piores.
A água fria tinha a força de um Panzer. Enrolou-se na toalha e pensou em apreciar a folia de seu camarote particular. Mas não tinha cigarros. Então avistou uma porta aberta na rua entre a praça e a igrejinha de torre baixa, pensou muito se era interessante se expor, analisou e concluiu que seria apenas mais um na multidão, como na canção cantada pelo Erasmo. Colocou uma bermuda cáqui, uma camiseta escura e calçou um par de Havaianas branco, apanhou seu Ray-Ban, trancou o quarto com volta dupla na chave e cruzou a praça em passos apertados.
Era um bar. O único bar da cidade, mesinhas de ferro e pôsteres envelhecidos das musas da pornochanchada nacional. Onde a garrafa de Bohemia custava dois reais e onde poderia encontrar cigarros à vontade para terminar de enegrecer seus pulmões. Pediu a cerveja, acendeu o cigarro e, ao se voltar, deparou-se com um copo de vidro apontado em sua direção.
Você divide comigo?
Ela tinha cabelos claros como o de sua mãe, nas fotos guardadas no armário de seu pai, e usava-os presos num rabo-de-cavalo simetricamente perfeito. Discreto aparelho na arcada dentária superior, um piercing no nariz e leve sotaque do interior. Blusinha vermelha, saia jeans e tênis branco.
É claro, disse ele, enquanto enchia o copo da garota.
Ela apanhou seu cigarro aceso, deu uma tragada, bebeu um gole da cerveja e emitiu argolas de fumaça que ganharam as ruas com a mesma rapidez com que fez a primeira pergunta.
Qual o seu nome, rapaz?
Sou o arlequim.
Eu sou a colombina. E riu seu riso de criança. Posso ficar com este cigarro?
É claro. Desde que você não queime a fantasia do teu pierrô.
Sempre preferi o arlequim. O da marchinha, que chora pelo amor da colombina no meio da multidão. O pierrô só atrapalha o verdadeiro amor entre as outras duas personagens, serve apenas como adorno às canções do Chico Buarque.
Ele esboçou o sorriso enquanto mapeava o ambiente. Muitas garotas, mas em menor quantidade que os homens. Mas, não sabia o porque, a única que lhe interessava era a colombina de olhos doces e hálito tão puro que nem a nicotina foi capaz de afetá-lo.
Eu sou apaixonado pelo Chico Buarque.
Olha que eu vou estranhar, meu arlequim. Apaixonado por um senhor de olhos claros?
Apaixonado pelas canções dele. Gosto de mulher.
Prova isso para mim então.
Beijos doces no bar, copos estilhaçados pelo chão, fusão térmica de paixão aguda caminhando pelos paralelepípedos cobertos por pedacinhos coloridos de saudade. Nem a chuva suave era capaz de esfriar o que nascia ali. O quarto do hotel Pequim se tornou a biblioteca dele, onde escreveu seu samba-enredo no corpo nu e macio daquela colombina. Por três dias dividiram sorvetes de casquinha e ela mostrou-lhe as cachoeiras da região. Por duas outras noites se encontraram no bar, dividiram a cerveja, o cigarro, as porções de pastéis e as secreções perfumadas da paixão nos únicos lençóis limpos da cidade. Na terceira noite que passava na cidade, ele viu a chegada da polícia pelas laterais da praça enquanto sua colombina tentava descobrir o motivo do atraso na fritura da segunda porção. Quatro viaturas, três policiais em cada uma, armas nos coldres, espalhando-se pelos quatro cantos como formigas em fuga.
Apanhou sua colombina pela mão com rapidez, mas muita suavidade. Correram para fora do bar, esgueirando-se pelas paredes, fundindo-se às sombras, ela o guiava seguindo parcas luzes dos becos formados entre os poucos sobradinhos coloniais, resquícios de épocas gloriosas que não voltam mais. Caminharam por trinta minutos e pararam debaixo de frondosas árvores, cujas silhuetas se sobressaíam num descampado escuro, e de onde se ouvia a letra de “Máscara Negra” entoada pela multidão. Ela encarou o branco dos olhos dele, trêmulos, duvidosos, mas sinceros como nenhum dos homens com os quais ela já havia se deitado em muitos outros carnavais. Ele era o arlequim nunca encontrado em outros lábios e ela não queria mais perdê-lo dentre outras tristes composições da época.
Só me responda uma coisa: você tem outra?
Não tenho.
O que você aprontou nesta vida, meu arlequim?
Matei um homem. Filho de desembargador. Um ano pela estrada, com parada de um ou dois dias, nunca mais que isso. Sempre com um dia de vantagem diante dos federais. Você mudou meu rumo, meu destino, minha paz.
Eu te amo.
Você não deve me amar.
Não devo, mas amo. Diz que volta para mim?
Volto. Não sei quando. Mas volto.
Beijaram-se como se pela última vez, mesmo sem saber que essa era a única mentira daquele instante. Ele voltaria e ela sabia disso. Adentraram o negro descampado, cruzaram duas chácaras, mordidas de vespas e esterco de vaca nos calçados. Enfim no terreno baldio atrás do hotel Pequim.
Eu entro, disse a colombina. Para ver se a polícia está de tocaia.
Ele não queria que ninguém corresse riscos. Subiu no muro, alcançou a janela basculante do banheiro de seu quarto, na lateral do prédio. O fila brasileiro acorrentado latia desesperadamente, mas sua ação foi imperceptível: em quatro minutos lançava a mala em direção ao chão batido do terreno. Em seguida desceu pelo muro, beijou-a e jurou voltar. Entrou no Celta azulado, de placas frias, com o qual rodava pelas estradas quando o dia se punha. Matou o rapaz no litoral sul paulista, caiu na vida, os federais no seu encalço, milhares de quilômetros percorridos, tudo começava a pesar em suas costas, mas queria cruzar a fronteira com outro estado nas próximas horas.
Entre a direita na terceira rua. Estará na rodovia em tempo mais do que suficiente para ganhar distância, disse a garota. Os policiais devem estar vasculhando todos os hotéis fora do centro.
Ele notara que o hotel Pequim, perto de tudo naquele fim de mundo, era o ponto menos improvável de hospedagem de um foragido da justiça. Agradecia em pensamento à informação do gari de dentes perfeitos, orou para que nunca lhe faltasse nada, beijou sua colombina e acelerou. A poeira a transformou numa silhueta, num vulto que se distanciava pelo retrovisor interno. Ela certamente o aguardaria e isso o fortaleceu. Há dois anos não sabia o que era ter alguém à sua espera.
Tentou sintonizar o rádio durante o trajeto, mas não se ouvia nada. Apenas o som das marchinhas se afastando conforme o giro do velocímetro. Quando sentiu a maciez do asfalto, os primeiros acordes da canção tomaram conta do automóvel. E ele se divertiu com o fato de que o destino pode ser irônico quando bem lhe aprouver, pois a voz do Chico Buarque descrevia com exatidão o momento que vivera naquela cidade. Da qual carregaria consigo o nome e a lembrança doce da mulher que, um dia, voltaria a ver.
“No palco, na praça, no circo, num banco de jardim
Correndo no escuro, pichado no muro
Você vai saber de mim
Mambembe, cigano
Debaixo da ponte
Cantando
Por baixo da terra
Cantando
Na boca do povo
Cantando
Mendigo, malandro, moleque, molambo, bem ou mal
Cantando
Escravo fugido, um louco varrido
Vou fazer meu festival
Mambembe, cigano
Debaixo da ponte
Cantando
Por baixo da terra
Cantando
Na boca do povo
Cantando
Poeta, palhaço, pirata, corisco, feirante, judeu
Cantando
Dormindo na estrada, no nada, no nada
E esse mundo é todo meu
Mambembe, cigano
Debaixo da ponte
Cantando
Por baixo da terra
Cantando
Na boca do povo
Cantando”.
Luís Fernando Pinotti Silva