
A espera
Olhares masculinos sempre lhe traziam a pergunta:
– Será ele? Por que não? Tem olhos negros como os meus e sobrancelhas grossas. Por que me olharia tanto, se não fosse? – Assim pensava na ingenuidade de sua infância. Os dias passavam e mais envolvida ficava, vislumbrando o encontro de sua vida.
Com o passar dos anos, tornou-se uma mulher sensual, atraindo todos os tipos de olhares. Lascivos, vulgares, invejosos. Contudo, ainda tentava ver neles o que sempre buscara, repelindo qualquer lampejo de impossibilidade. Encontraria o olhar, pensava, pois ali residia a razão de sua vida.
Os cabelos embranqueceram e a busca não cessara. Nos olhares ternos que lhe dirigiam em sua senectude, ainda imaginava que poderia encontrá-lo. – Sim, poderia, por que não?
– dizia para si mesma.
Passeando pelo parque numa tarde de domingo, subitamente tropeçou e caiu ao chão. Um senhor, bastante idoso, veio em sua direção para ajudá-la. Erguendo-se, olhou-o fixamente e, segurando seus braços, perguntou trêmula:
– É você, papai?
O homem, sem proferir palavra, virou as costas e, balançando a cabeça, continuou sua caminhada.
Belvedere Bruno