VOCÊ FAZ MARAVILHAS COM LEITE MOÇA

Ele nem sabe ao certo como a desilusão se instalou naquela casa. Talvez tenha percebido algo quando sua mãe parou de fazer pudim de leite aos domingos. Era sagrado. E era ele quem abria a lata. Uma marca antiga, no rótulo: uma vaquinha holandesa !

A mãe nunca foi muito afeita à cozinha. Dedicava-se mais ao tricô, com que presenteava toda a família, sem nunca fazer nada para si. Mas o pudim fazia parte de uma tradição que ela cumpria ritualisticamente. Empunhava o avental, caprichosamente bordado (por ela, evidente) e iniciava o que parecia ser uma fórmula de alquimia. Leite integral, daqueles de garrafa. Temperos importados, colocados com precisão. Ovos só de granja. Farinha peneirada três vezes. Suas mãos ao misturarem a massa elaboravam coreografias inesperadas. Quando criança, ele costumava dizer que quando fosse para o céu, queria comer pudim o tempo todo. Tinha razão, havia algo de divino naquela receita.

O que teria acontecido? Acabaram-se os pudins. Mesmo os tricôs foram escasseando. Passou a fazer apenas um pulôver por ano e era destinado a ele. Como se orgulhava disto. Sabia ser o filho predileto. Uma ligação profunda. Uma cumplicidade tácita.

Naquele ano, o inverno se pronunciou mais forte. Pela primeira vez, a mãe resolveu fazer um casaco para si mesma. Um ponto trançado de difícil execução. Desmanchou e recomeçou várias vezes. Valeu o esforço: um belo casaco lilás. Ficou parecendo mais estrangeira do que de costume. Ele teve vontade de levá-la a passear pela Europa. Foi sempre seu sonho. Meses depois, ela partiu para uma viagem bem mais longa.

A família foi se desmantelando. Aquela mulher tão frágil, nas tramas do seu tricô era quem os alinhavava. As conversas foram ficando lacônicas. Ninguém ia mais ao teatro, nem jantava fora. O aparelho de som: intocável. Ainda se sentia no ar, as óperas que ela costumava ouvir. As empregadas se foram. A desordem se acumulava. Todos pareciam acampados, como que numa morada provisória, sempre na eminência de uma partida. Levaram anos assim. As divergências cada vez mais claras. Ponto por ponto, carreira a carreira, a tessitura se desfez por completo.

Na porta da casa, uma tabuleta de “VENDE-SE”. Bem, pelo menos, ele descobriu, na semana passada, uma confeitaria que faz um delicioso pudim de leite.

Gilberto Gouma