O que é necessário?

             

Li, num livro de economia, que o contexto de desenvolvimento sócio-econômico-tecnológico de um povo tende a criar novas necessidades e que tais necessidades seriam “artificiais”, pois não necessariamente necessárias. Sacou?

Explico:

Você bem que poderia comer o seu almoço usando as mãos, mas instituiu-se que é mais higiênico e educado usar um garfo; ou quem sabe usar roupas de fibra de sisal produzidas no interior baiano, não fossem as exigências da moda; ou continuar com o seu fusquinha, mas há muito ele já está ultrapassado e você necessita de um carro novo; ou continuar lavando louça, mas inventaram uma máquina que faz isso para você, portanto, necessária.

Numa sociedade onde as condições materiais e tecnológicas são precárias as necessidades se restringem ao básico. Numa outra, suntuosa, além das necessidades básicas satisfeitas, criam-se outras, essas artificiais, pois a sua não satisfação não implicaria em comprometimento à vida. Seriam luxo, apenas.

Senti na pele a verdade dessa teoria. Algum desconhecido componente interno do meu computador queimou. Tive de leva-lo ao técnico e fiquei uma semana sem o aparelho. Encontrei-me, praticamente, em uma situação precária . Não pude ler os jornais que costumo ler diariamente, não pude verificar e-mails, um projeto de pesquisa adiado porque o texto precisaria ser editado, perdi até um pouco do estímulo para escrever (não sei por que, sempre fui adepto do caderninho). Senti falta até dos joguinhos do Windows...

A idéia é de uma obviedade constrangedora: antes de certas coisas existirem, vivemos muito bem sem elas. Depois de inventadas, e se têm alguma utilidade , passam a ser indispensáveis.

As pessoas também liam jornais antes de existir a internet; comunicavam-se por cartas antes do e-mail; os projetos de pesquisas eram feitos sem auxílio do computador; escrevia-se usando caneta e papel, ou datilografando; e, quanto aos jogos, sempre existiram fora da tela do computador. Mesmo assim senti-me incapacitado, isolado do mundo e levando uma vida precária nessa semana que passei sem o PC. Esse período me fez refletir sobre a utilidade das coisas, sobre necessidade e suntuosidade, sobre os hábitos, sobre o contexto sócio-econômico e suas exigências. Calma, calma! Não vou continuar enchendo o saco com esse papo tão besta, efêmero e pessoal. Agora, felizmente, já não penso mais nesses assuntos: estou feliz, meu computador voltou do conserto e sua telinha brilhante voltará a projetar luzes e sombras nos mesmos lugares de antes.

Daniel Meira Jr.