Mãe Natureza

Domingo das Mães

Ser filha de minha Mãe, Terezinha do Menino Jesus, foi um grande presente do céu.meu pai, aos vinte-e-cinco anos, casou-se com menina de quinze. E teve esposa ciança para o resto de suas vidas.de acidente, ela se foi, sete meses antes de complementarem cinquenta anos de casados. Muito sábia na maturidade, jamais deixou porém que a menina dentro dela adormec esse. Contava que adorou a primogênita - eu - ser uma garota, porque assim, poderia continuar brincando de casinha. E o fez. Ensinou-me tudo sobre o mundo mágico da miniatura. Construía móveis de caixas de fósforos, caminhas de caixetas, jogos de café e água com tampinhas de dentifrícios, boizinhos de xuxus pequenos, era de uma criatividade ímpar. Minhas casinhas de boneca eram completas. Meu pai entrava no embalo, pois aos dez anos, ganhei dele um rádio, montado por ele, que era uma mansão. E ali, os moveizinhos, quadros emoldurados, micro-vasos de flores, mini-tapetes
.Eu lavantava a cortina e, para pasmo de minhas amigas de queixo caído, lá estava o dial, e a música nos envolvia...
Caçula de dezenove filhos de meus avós Luiz Máximo -o poeta e jornalista - e Teófila Theonila, já nasceu com a mãe velha. Para os padrões da época. E embranqecera a cabeça de fazendeira mimada casada com político, poeta e apreciados do belo sexo, aos 23 anos. Acho que foi aí, que virou santa em vida. Jamais reclamava, jamais falava alto. Morreu com quase cem anos e por vovô haver sido atropelado aos 83 anos, esperou por um bom tempo o reencontro com ele, por quem nutria uma grande paixão.
Mamãe era exuberante, sorriso fácil, enfermeira, dedicada á obstetrícia, dedo-verde, salvadora e criadora de animais. Criou de tudo: porquinho na mamadeira, cágados e tartarugas, tucanos, preás, pacas, cotias, onça, macacos, além dos mais domésticos.
Coloquei em seu memorial que ela gostava de pedras, pássaros, flores. Seu gostar envolvia um grande senso de novidade em tudo:olhar de triagem, era capaz de abaixar-se centenas de vezes em uma praia, para catar tesouros vindos do mar, dos búzios mais comuns, a algas, ouriços, pedaços de corais. Mesmo morando em cidade litorânea, jamais se acostumava à beleza, sempre encantada com a coisas simples da natureza..Boa de forno e fogão. Receber visitas, um prazer. Em 2006, tiramos uma foto dela com dezessete netos, ao longo da escadaria. Se os visitantes de férias iam à praia, ia junto. Depois é que, ao chegar, pilotava a refeição. Conhecia o segredo da multiplicação de tudo. Haja bolos, rocamboles, bolinhos, ensopados, macarronadas, lasanhas, quibes, sopas nutritivas...Nós, quando jovens, depois da aula, jamais nos demos conta de que éramos cinco - depois seis, com nosso maninho Down que foi seu grande companheirinho até que ela partiu - e que levávamos tantas pessoas á nossa mesa.amigos, namorados, a adoravam.
Com meu pai, viajou bastante, depois foi morar na fronteira com a Colômbia, em Japurá e também na Ilha de Fernando de Noronha - de onde viemos para Minas Gerais, quando eu estava com seis anos.Adotou crianças, foi comadre de centenas e fez muitos partos, com o maior prazer.
Sempre temi que morresse em alto mar, pois nada lonjuras, para voltar na prancha dos netos, ou no barco dos pescadores, com o amior peixe pescado.Com mais de seis décadas, poderia ter cãimbras ou cansar-se. Mas as coisas acontecem, muitas vezes, de forma inesperada. Morreu na estrada, chão seco e a voz do policial a dizer que "o corpo" estava ao chão... Que corpo? Era a minha mãe!
Mas no velório, em natal, cidade que tanto amava, linda, linda, aprecia dormir. Prefiro pensar que adormeceu com a netinha nos braços e acordou entre os anjos e entes queridos.
Passei a noite vendo, qual num filme, muitos episódios dessa mulher de grande alma.
Nas fotos uma, em Belém do Pará, já grávida de minha irmã Cleone, vestido godê estampado, fita no cabelo, comigo de chapeuzinho crochetado por ela, meias idem: aos dois anos, portanto em 1949. A amiga do lado depois amadrinhou minha mana.
E na outra, as três gerações, vovó Teó, mamãe e eu.
Não é um dia diferente dos demais, porque todos os dias, acordo e vejo o seu retrato, bem à minha frente. E o de D. Didi, uma mãezinha emprestada pela vida,poeta e ceramista, agora com 93 anos-e que já perdeu três de seus quatro filhos.
Mas minha alma canta, em homenagem a todas às Mães do Mundo: elas formam a casta do precioso amor incondicional. Ele existe, através de seu exemplo...
Meus filhos já estiveram aqui, com presentes e carinhos. Queriam levar-me para festejar, mas preferi ficar por aqui: ontem, os cãezinhos correram e me derrubaram. E estou meio dolorida. Mas quem disse que estou sozinha?
As lembranças e os entes queridos fazem-me companhia.Sinto a palma da mão materna de encontro à minha e sei que está por aqui...

Clevane Pessoa

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