
OS PLAGIADORES NOSSOS DE CADA DIA
O leitor eventual ou contumaz dos sites literários que proliferam Internet afora, e que com eles não mantém nenhum vínculo ou cumplicidade literária, sequer imagina que, por detrás da frieza translúcida do monitor de vídeo, existe um mundo à parte, cheio de intrigas, fofocas, vaidades, amor, traição, ódio, e que muitos casamentos podem ser feitos ou desfeitos na mesma velocidade em que o raciocínio acompanha as letras opacas dos textos. Amizades se constroem e amigos se destroem no mais leve toque de tecla nos chamados e-groups, muito mais rápido do que no acionamento da tecla “delete”.
Fui iniciado nesses sites pelo meu discípulo Luiz Eudes, hoje um escritor premiadíssimo nessa vasta biblioteca virtual. Ele era editor de um jornal o qual eu colaborava, e selecionou algumas crônicas minhas e enviou para alguns sites, me avisando depois do seu feito. Posteriormente enviei outros textos para outros e fui comunicado, um dia, que estava concorrendo a um prêmio em um determinado site. Fiz uma visita para conferir e descobri que o segundo colocado era um plágio grosseiro de Graciliano Ramos, um causo contado no livro “Alexandre e Outros Heróis”. Imediatamente denunciei o meliante aos responsáveis pelo mesmo, porém recebi uma resposta evasiva, justificando o roubo. O patife era amigo do pessoal que militava nos bastidores e fizeram vistas grossas para o caso.
Ora, plágio é plágio, um furto de propriedade intelectual devidamente qualificado no Código Civil. Como a votação era on line, venci a peleja, porém declinei do prêmio e saí do site, em protesto.
O plágio é, antes de tudo, uma imoralidade, embora muita gente famosa ande plagiando a torto e a direito. Pantaleão, personagem criado por Chico Anísio nos anos 70 para o programa Chico City, foi um plágio de “Alexandre e Outros Heróis”, do mestre da Literatura Regional, Graciliano Ramos, ou mestre Graça. Roberto Carlos foi condenado por plágio em dois processos. W. Bush, o filho, plagia os grandes conquistadores.
Gêmeo não é cópia nem clone. Lula garante que não é cópia de FHC e nos últimos dias esperneia para provar que não é um plágio de Fernandinho Cheira-Colla, o ex-marido da Rosane, que é um plágio mal feito da Barbie.. O PFL atual plagia o PT de antigamente que plagia o PSDB. Zé Dirceu tinha convicção de que era Mussolini.
Já Enéas é um plágio mal feito de Monga, a mulher-macaco.
Nos anos 70 plagiei a juventude transviada, transei Maiakovski, declamei Brecht e amei os Beatles e os Rolling Stones. Nos anos 80 caminhei com Vandré, corri de cachorro no meio do fumaceiro de bombas lacrimogêneas e chorei a Nova República. Nos anos 90 plagiei John Lennon: o sonho acabou. No novo milênio plagiei a velhinha de Taubaté, a crédula: acreditei que a esperança finalmente havia vencido o medo.
Aliás, falando em Maiakovski, dizem que o grande escritor russo também plagiou um brasileiro, embora a obra plagiada tenha sido escrita muitos anos além de sua morte e duvido que o próprio Maiakovski tenha sabido disso lá no Além. Falo do poema “No caminho com Maiakovski”, do poeta fluminense Eduardo Alves da Costa, que, por muitos anos, algumas estrofes foram o mote revolucionário da Esquerda, dando como autor o suicida russo.
Como se vê (ou se lê), original mesmo só o Homem de Neanderthal.
Mas voltemos aos sites, onde a generosidade dos deuses da Literatura nos brinda com seus escritos, sem cobrar cachê ou direitos autorais.
A minha iniciação nos chamados grupos literários aconteceu a convite da escritora carioca Márcia Ribeiro, três anos atrás, apesar de ela me tentar desde priscas eras, ou de quando começamos a nos relacionar em uma troca de carícias literárias em um desses sites. Por e-mail, claro.
A minha primeira experiência foi desastrosa, frustrante e traumatizante, tal qual uma mocinha violentada sexualmente. Um estupro mental. Doeu e não foi bom. O manda-chuva do grupo era um senhor problemático, digno de ocupar um divã e torrar a paciência do psicanalista, e durei um pouco mais de uma semana.
Outra vez, a convite, estive visitando um grupo e dei de cara com um texto meu, sem o devido crédito. Solicitei aos responsáveis que colocassem o nome do autor e, em vez disso, resolveram retirar o texto do site. Com a delicadeza dos elefantes, disse que enfiassem o grupo onde achassem melhor.
Enquanto você está lendo este texto, milhares de outros estão sendo plagiados por pessoas inescrupulosas, parasitas intelectuais que se nutrem da criação alheia. É bem capaz de que, antes mesmo de você chegar ao parágrafo final, este texto já tenha sido plagiado por umas dez pessoas.
Se textos que, além do registro legal há o registro mnemônico de leitores atentos e de impressões que atestam a autenticidade da obra, são plagiados deliberadamente e na maior cara-de-pau, imagine se um simples selinho de copyright fará essa turma inescrupulosa frear sua índole de gatunagem! Nem pensar. Em compensação, pode-se perder um amigo por causa desses direitos reservados explícitos, que deixa implícita a falta de confiança no destinatário.
Portanto, pense nisso ao enviar um texto chamando a atenção de propriedade reservada. Deus, que é Deus, senhor supremo, já foi plagiado por ACM, imagine o resto, nós, pobres mortais
Ronaldo Torres Cruz