O BEIJA-FLOR

               Sempre ao amanhecer. Mal raiava o dia e lá estava o beija-flor a sugar do pequeno recipiente suspenso a água adocicada, através de um orifício no meio de uma flor artificial. Deitado eu despertava e o observava na busca do primeiro alimento matinal. Introduzia a sua língua no orifício e sugava o líquido doce, ora pousado na borda do frasco, ora parado no ar, ao sabor das imperceptíveis batidas de suas asas. Era assim todas as manhãs, exceto quando chovia pois ele não vinha. Eu já estava habituado àquela rotina, pois me acostumara a acordar com aquele presente da natureza, a visita daquele belo pássaro. E ele também acabou se acostumando com a minha presença, tanto que certo dia, enquanto ele se alimentava aproximei-me com receio de assustá-lo e com medo que ele fosse e não mais voltasse. Ao me ver aproximando alçou vôo e pousado numa árvore próxima da janela ficou a me observar. Não demorou muito e ele estava de volta. Daí em diante foi assim. Sempre que eu queria me aproximava discretamente para vê-lo de perto e ele não mais se importava com a minha presença. Eu me perguntava como conseguira conquistar a confiança de um animal silvestre que por natureza evita contato com seres humanos. O que fez aquele beija-flor acreditar que eu não lhe faria mal? Talvez o fato de lhe proporcionar aquela água adocicada que diariamente eu disponibilizava na minha janela para ele. O fato é que com isso fui me habituando com a sua presença, e quando chovia e ele não vinha, eu sentia a sua falta. Meu dia não era normal se eu acordasse e não visse o beija-flor. Parecia que algo estava faltando para que o meu dia fosse completo. Algo deve ter acontecido. Anteontem não choveu. O dia amanheceu com um céu sem nuvens e o sol não tardou a se mostrar por completo. A claridade invadiu o meu quarto pela janela e me despertou. De imediato olhei para o bebedouro a procura do beija-flor mas ele não estava lá. Levantei-me e me apressei em olhar pela janela a procurá-lo na árvore sem no entanto encontra-lo. E o dia foi triste, diferente, não estava completo. Eu não vi o beija-flor. Ontem foi a mesma coisa. Ansioso procurei o pássaro sem êxito. Ele não apareceu. Hoje mais uma vez ele não veio. Olhando para o horizonte procurei a resposta. Cheguei a conclusão que o tempo daquele pássaro havia se cumprido e por certo ele não mais fazia parte da vida. Todos nós temos um tempo predeterminado para existir e por certo o beija-flor havia cumprido o dele. E certamente uma das suas missões nessa vida era proporcionar-me felicidade com a sua presença ao amanhecer. Agora eu desperto com uma sensação de perda pois não tenho mais aquela visão do lindo pássaro a bebericar gotas de água açucarada na minha janela. Por certo aquele beija-flor agora está feliz no reino dos animaizinhos que deixam este plano físico. Resta-me agradecer ao Criador pelo regalo de ter me permitido acordar por uns tempos daquela maneira e esperar que também o meu tempo se cumpra.

Valdir Barreto Ramos