Curiosidade

talvez matou o gato; o mais provável
foi um azar lamentável, ou o gato curioso
quis conhecer a morte, sem motivo
para lamber as presas, ou conceber ninhada
na ninhada dos gatinhos, como era plausível.

No entanto, ser curioso
é muito perigoso. Suspeitar
do que sempre é dito, do que parecia,
ter dúvidas estranhas, impedir a fantasia,

Sair de casa, farejar ratos, ter rações
não estima gatos para sociedades de cães
onde cestas asseadas, esposas educadas e boas refeições
são a ordem das coisas, e onde imperioso
é o abanar de cabeças e caudas incuriosos.

Admita. Curiosidade
Em si não nos mata –
Mas sua falta é fatal.
Nunca querer avistar
o outro lado do canal
ou aquele país inverossímil
onde viver é formidável
(talvez seja detestável)
para nós seria letal.
Somente os curiosos
têm, se vivem, uma lenda
para contar no final.

Cães dizem que os gatos amam demais, são inconstantes
são mutantes, casam com várias queridas
desertam seus filhos, esfriam todos os jantares
com contos de nove vidas.

Bom, eles são felizardos. Que tenham
nove vidas e sejam contrários,
curiosos o bastante para mudar, preparados
para o preço do gato, que é morrer
e morrer a cada momento,
sem que atenue o sofrimento.
Uma minoria de um
é tudo o que resta
para contar a verdade. E o que os gatos contam
cada vez que do inferno retornam
É isto: que a morte é o destino dos viventes,
Que a morte é o destino dos amantes,
E que cães mortos são os que não sabem
Que para viver, só a morte é relevante.

                                      Alastair Reid
                                  Trad. Virna Teixeira

Do livro: Ovelha negra, uma antologia de poesia da Escócia do Século XX (bilíngüe), Lumme Editor, 2007, SP
Obs.: com a permissão da tradutora.


Leilagatos