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SEMINÁRIO DE JORNALISMO E LITERATURA
DE  9 A 29 DE OUTUBRO DE 2003 NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

     
4º dia - Sessão de Encerramento
29 de outubro, quarta-feira, das 18h às 20h
    - Abertura: Moderador
    - Palavras de boas vindas ao Acadêmico Pierre-Jean Rémy (da Académie Française),   pelo Presidente da ABL,  Embaixador Alberto da Costa e Silva
    - Palestrantes do dia: Acadêmico Pierre-Jean Rémy
      Jornalistas: Mário Sabino (Veja) e Leonardo Attuch (Isto É)
    - Resumo de encerramento do Seminário: Mauro Salles
    - Espaço aberto para perguntas do público aos Palestrantes
    - Entrega dos Certificados de Participação.
    - Moderador: Mauro Salles
A derradeira Seção do Seminário foi aberta pelo organizador e moderador do evento Mauro Salles, passando a palavra ao Embaixador Alberto da Costa e Silva, Presidente da Academia Brasileira de Letras, que deu as boas vindas a todos os conferencistas, e apresentou o resumo das atividades de Jean Rémy que lida tanto com ambas as áreas: como literato é membro da Academia Francesa, escrevendo também roteiros de para cinema e filmes, portanto um escritor completo dentro do processo criativo contemporâneo. Na imprensa exerceu o jornalismo de banca e a crítica cultural (de teatro, literatura, música) em importantes periódicos franceses, inclusive Le Figaro.
Como na primeira Sessão, o Acadêmico Alberto da Costa e Silva deixara no ar a pergunta se era possível ler-se Homero como lê-se um jornal diário, no encerramento, agora, ele queria dar a resposta a esta questão. Relendo jornais do período de 1939 a 1940, ele sentiu que a aproximação entre as notícias dos jornais e os versos do primeiro grande poeta da Humanidade: ambos narravam fatos como acreditavam ter acontecido; a única diferença era que um, o jornalista derivava fatos coletivos, enquanto o outro priorizava o pensamento, a emoção e a ação interior dos personagens individualizados. Ambos, frisou, trabalhavam com a mesma material de que ele próprio lidava quando escrevia um relatório político ou econômico Ñ que era outra forma de se fazer jornalismo. Neste último caso, porém, enquanto o diplomata escrevia mais de forma a ocultar, o poeta e o jornalista escreviam mais com o intuito de revelar fatos ou emoções. Portanto, a resposta à questão levantada na primeira Sessão era afirmativa e este Encontro tinha lhe dado a oportunidade de tirar esta conclusão, que aproxima as duas áreas por lidarem com material igual, apenas de modos diferentes.
 
 

PIERRE-JEAN RÉMY
(França)

A palestra do Acadêmico francês foi acompanhada pelo público brasileiro através de tradução instantânea. Pierre-Jean Rémy iniciou dizendo que o que ele estava fazendo era um exercício perigoso, uma vez que o Encontro já se encontrava em seu final e o tema já tinha sido abordado em todos os seus aspectos pelos escritores que lhe precederam. No entanto, como o tema era muito amplo, era passível de ser abordado de uma maneira diferente por cada participante, e era exatamente assim que ele o faria: à maneira de um escritor francês.
O Acadêmico francês afirmou não se considerar um jornalista, embora tivesse escrito crônicas e também críticas musicais, teatrais e  literárias em alguns jornais da imprensa francesa; no entanto, não se considerava um profissional da área por não ter contribuído com reflexões sobre grandes temas sócio-políticos nacionais através da imprensa ou  por não ter exercido o jornalismo informativo. Era, portanto, muito mais como escritor que ele estava participando deste Encontro e, justamente por isso, ele fazia uma provocação inicial, perguntando aos coordenadores do evento por quê o chamaram de Jornalismo e Literatura, e não o contrário? Neste título, ele já sentia como que uma certa "prioridade", no qual o jornalismo informaria o que os leitores tinham o direito de saber; depois viria a literatura (romances, poesias, ensaios) que se lê, depois, quando se tem tempo. Este matiz, embora sutil, mostra que o jornalista tem uma profissão, cujo objetivo é informar, comunicar; o outro, exerce "apenas" uma atividade artística. Ou seja: enquanto um tem um ofício, uma profissão ativa e participante, o outro é visto tão só como um criador, não necessariamente "engajado".
Balzac, com muito humor e certa perversidade, traçava um retrato ácido do jornalista e do jornalismo de seu tempo, afirmando que o jornalismo é feito dos crimes que se cometem na noite no meio da noite (as redações "viviam" noturnamente, para aprontar as edições matutinas ou esperar algum grande "furo de reportagem"; se não tinham novidades, caluniavam, inventavam muitas vezes). Fascinados pelo poder ou fama, havia jornalistas que não se importavam com a verdade, publicavam a notícia que tinham à mão, ou... na cabeça. No entanto, Pierre-Jean Rémy citou muitos escritores franceses que foram bons jornalistas, como Voltaire, George Sands, Victor Hugo, entre outros.
No século XIX o Sr. Bertrand inaugura na França um novo tipo de jornalismo, que não se volta apenas para a opinião ou a política, mas que quer, principalmente, dirigir, manipular o poder público; para alcançar este objetivo, o jornalismo desta época fazer aliança com grandes escritores, sendo talvez o mais célebre de todos o Caso Dreyfus (de Clemanceau com  Zola), em que ambos se beneficiaram com esta interação. Ainda citando grandes nomes de escritores que exerceram o jornalismo, o conferencista lembrou: Gautier, Gide, Camus, Sartre, Robert Bazilac, Maurice Druon, Mauriac (Prêmio Nobel), todos eles com um grande público, por serem principalmente escritores. Eles pertenceram a uma época em que através do jornalismo podiam tecer importantes reflexões sobre a História, em que os escritores eram grandes pensadores e mestres de suas gerações.
Depois da segunda grande guerra, o jornalismo sofre novas alterações e, atualmente, Pierre-Jean Rémy entende que ambas as áreas seguiram vivas paralelas, mas raramente convergentes. Embora haja grandes nomes do jornalismo, há também muito jornalista sem talento, escrevendo de forma patética, muitos preocupados mais com o impacto da mídia ou tentando manter-se em evidência, sem qualquer outra preocupação estética. Ou seja: o jornalismo atual nem de longe recria o carisma que possuía na metade do século XIX.
Quanto à deontologia do jornalismo, é necessário que ele tenha regras implícitas e explícitas, mas, afirma o Acadêmico francês, seu país está longe da arte poética de Boileau, por exemplo. Um jornalista precisa exercer a liberdade de expressão tenha ou não talento e o leitor tem o direito de ser bem informado, com ou sem talento. O escritor, sem talento, não exerce suas atividades. Ou seja: o escritor pode escrever sobre tudo, o jornalista não, ele restringe-se aos fatos da notícia. Outra diferença é que os jornalistas têm direitos (liberdade de imprensa) e deveres (de passar a informação) diários: a lei que o protege, também protege o cidadão que o lerá, podendo, em alguns casos graves, inclusive, sofrer ações legais, criminais inclusive, e, até, pagar com a própria vida o ato de meditar daquele instante (como o caso dos correspondentes de guerra). Ele tem responsabilidades específicas. Já o escritor precisa, além da consciência profissional, lidar também, com sua própria consciência, através de um processo criativo, imaginativo, bem diverso dos artigos da imprensa, estes últimos sujeitos a normas e pressões (até mesmo sociais) bastante diversas de um romance, de uma poesia ou de um ensaio.

Perguntado sobre  se os escritores e os jornalistas trabalhariam juntos ou seriam eternos adversários, o Acadêmico francês respondeu que, adversários não seriam, pois o escritor que precisava de um jornalista para divulgar seu livro não podia considerá-lo um inimigo; no entanto, nem sempre há oportunidades de um trabalho conjunto, às vezes tomando cada um deles rumos paralelos.
 
 

D. LILI DE CARVALHO

Logo em seguida, D. Lili de Carvalho Marinho recebeu o diploma especial do Seminário e, com uma simplicidade tocante, em suas breves palavras, transferiu para seu marido, o acadêmico Roberto Marinho, patrono e homenageado do evento, todas as honras, pois é a ele que cabem todos os méritos e encerrou seu agradecimento, antes que a emoção e a tristeza perturbassem este Colóquio excelente.
 
 

MÁRIO SABINO

O Conferencista iniciou sua explanação falando um pouco de sua trajetória profissional: há vinte anos exerce a profissão de jornalista, tendo coordenado seção de livros para a Folha de SP, Folhetim, depois tendo trabalhado na Scipione criando uma coleção de literatura infantil com grandes escritores, inclusive Paulo Leminski); foi Editor Cultural da Isto É, exercendo, atualmente, as funções Diretor Executivo de Artes e Espetáculos da Revista Veja.
Esses anos todos de imprensa fez com que Mário Sabino se dissesse detentor de duas ou três certezas nada originais; e, uma destas é a de que a Literatura Brasileira não é assunto importante para a imprensa, muitas vezes nem mesmo assunto é. Os critérios para comentar-se livros de algum autor muitas vezes não têm nenhuma preocupação literária. Interessante, neste aspecto é, por exemplo, quando a escolha do livro para comentar-se é de algum jornalista que o escreveu como meio de legitimação pessoal. Ora, como, em um país que tão pouco se lê, escrever um livro pode ser meio eficaz para algum tipo de legitimação?...
A realidade é que a literatura ocupa 1/3 do espaço total destinado à divulgação cultural dentro de uma revista, ou seja, 1/3 de muito pouco. Dentro de um "inventário de culpas", não são só os jornalistas os culpados, por ignorarem o que se passa nesta área; mas também o mercado editorial tem a sua parcela de responsabilidade. Não há mais muitos Mários Faustinos para realizar este trabalho de informação. Os prazos cada vez mais apertados das pautas não permitem que se faça pesquisas para descobrir novos autores ou para que se reavalie a obra de algum autor conhecido. É necessário, então, que sejam enviados previamente dados ou pareceres sobre as obras. E, aqui, entram dois tipos de fontes: os críticos literários e os próprios escritores.
Os críticos literários brasileiros são muito limitados: em geral, são professores universitários mais preocupados em garantir a sua própria posição na universidade. Com esta postura, não se interessam muito em detectar tendências ou novas perspectivas do que ocorre ou não, dentro do panorama brasileiro. Reafirmam formas e encastelam-se em obras teóricas, sem se dar conta dos novos escritores. Pouco conhecem sobre a modernidade. Há os que se se encontram em um passadismo regionalista há 60 anos; e foi justamente este formalismo que substituiu o verso pela visualização do nada. Com relação ao romance, pior ainda, desvalorizou a narrativa: agora boas histórias passaram a praticamente ser psicografadas em código morse, através de frases curtas com seis palavras, sentenciando as vírgulas para o exílio, ao que tudo indica, definitivo. Como, sem história com h minúsculo, a literatura brasileira quer fazer História, com H maiúsculo?
Quanto aos escritores, estão muito mais ansiosos de cultivar seu próprio jardim do que olhar o jardim dos outros. E esse efeito é bastante limitativo. Seria muito salutar se  houvesse, de vez em quando, um telefonema de um escritor, indicando algum livro, como José Paulo Paes, iluminista iluminado, falecido em 1998 que fazia isto com descrição, independência e generosidade. Atitudes como a dele equalizariam melhor o trabalho para o jornalista, que é um profissional da generalização, por falta de tempo ou disposição e que, por isso mesmo, precisa deste tipo de ajuda. Sem ela, impera a omissão, por falta de dados concretos. Eis também o motivo pelo qual obras mais fartos de divulgação, de fortuna crítica,  aparecem mais (como é o caso dos livros estrangeiros).
Dentro deste contexto, restam aos jornalistas apenas dois tipos de fontes na hora da escolha de livros de literatura para serem comentados pela imprensa: o primeiro é o impressionismo, que já salvou do ostracismo muita obra excelente. Ou seja: impressões casuais. O próprio palestrante, uma vez, salvou da queda um livro que estava em cima de uma grande pilha e descobri que era um excelente livro para ser comentado. O outro são as próprias casas editoriais, que, no entanto, muitas vezes "empurram" livros ruins para venderem seus peixes Ñ nem sempre frescos. Estas casas editoriais, se fizessem uma ponte maior e melhor, seriam de grande ajuda para os jornalistas divulgarem obras interessantes; efetivamente isto não acontece; no entanto, são essas casas que, dentro de uma repercussão tão fria por parte da imprensa quanto aos livros lançados, e de um mercado tão pequeno e ameaçado sempre, como o editorial,  continuam mantendo a literatura brasileira, com o seu lema idealista: cremos, logo existimos.

Perguntado sobre se a situação precária da literatura nas revistas era culpa do jornalismo ou da falta do interesse do leitor, o palestrante respondeu que, realmente, como a coluna de livros não é das mais listas na parte cultural, desestimula o jornalista; por tudo isto há muito a fazer em um país em que é grande o índice de analfabetismo e baixo o número de leitores.
 
 

LEONARDO ATTUCH

Editor de Economia da Revista Isto É Dinheiro, o conferencista iniciou sua palestra situando-se como pertencente ao um jornalismo mais recente, que Nelson Rodrigues - grande homem de imprensa - chamava de idiotas criativos, fazedores de manuais de redação que "ensinam" somente quem, quando, onde e porquê; ou seja, ele faz parte, dentro do jornalismo, da ditadura da forma.
Embora a sua área, de economia, tenha pouco a ver com a literatura, ele concorda com a citação de autoria de Balzac de que na calada da noite, muitas decisões são tomadas, no jornalismo, mas também acha que este entrechoque de ambição pode trazer bons frutos. E, um destes, foi a Editora Três quando editou a série "Os Imortais", justamente experiência da qual ele gostaria de se deter.
Em um meio em que o jornalista é tido, hoje, como um profissional que não precisa saber escrever bem (diferente de antigamente), esta coleção mostra que a imprensa pode ajudar a literatura. Os Imortais resgatou "Os Retirantes", obra de José do Patrocínio, abolicionista que escrevia na Gazeta de Notícia; era um livro praticamente extinto, não havia nem na Biblioteca Nacional, foi preciso microfilmar do colecionador que possuía um único exemplar. Também resgatou "O Hóspede", de Pardal Mallet, outro livro nas mesmas condições. A Editora Três, surgiu em 1972, com Domingo Alzugaray e Fabrizio Fasano; em 74/75 já editava uma Coleção sobre História da República Brasileira, coordenada por Hélio Silva; e em 74/75 saíram Os Imortais, que a princípio era para ter 20 títulos e acabou saindo 50 (volumes como Helena, Memórias de um Sargento de Milícia e Iracema participavam da coleção). Esta iniciativa atingiu muitos leitores por serem vendidos a preços populares: R$ 8,00, R$ 9,00, e em bancas (enquanto tempos 2.000 livrarias, temos 20.000 bancas de revistas e jornais). Após a Editora Três lançou uma Coleção de escritores portugueses, e por fim, A Vida dos Grandes Brasileiros, coleção coordenada por dois Acadêmicos: Afonso Arinos e Américo Jacobina Lacombe - projeto que vai ser, inclusive relançado, com o auxílio da Brasil Telecom, prevendo-se atingir 500.000 exemplares de tiragem. Citou também a Abril, a Global como editoras que também têm este trabalho cultural.
Concluindo, o palestrante frisou que, devido aos dados mencionados, ele acredita que haja mercado para o livro, para o mundo das letras dentro do jornalismo, e que, ao contrário também, era o livro um amigo da grande reportagem, que precisa transformar-se em livro para mostrar a sua profundidade dentro das abordagens temáticas. E mencionou também as cartas, como outra modalidade de jornalismo cultural que resgata a História, de forma literária.

Perguntado sobre por que as editoras não publicam autores novos, o palestrante citou o trinômio tempo-espaço-dinheiro como fatores que influenciam decisivamente esta situação no Brasil.
 
 

MAURO SALLES

Finalizando, Mauro Salles fez um rápido levantamento de todo o Seminário, através de estatísticas que referendam, em número, o absoluto sucesso deste empreendimento cultural: a participação de 15 acadêmicos, 5 jornalistas participando como palestrantes, 4 dirigentes de entidades de ensino (inclusive o Pen Clube, 1320 mails, 669 inscritos ocupando duas salas da ABL, o auditório R. Magalhães Júnior e a Sala José de Alencar, através de telão, com uma média de 415 pessoas, elevado número para qualquer evento cultural brasileiro.
 
 

O término do Seminário coincidiu com o "Dia Nacional do Livro", data oficial da fundação da Biblioteca Nacional  que, em  29 de outubro de 1810, foi transferida para o lugar que havia servido de catacumba às carmelitas, local onde está localizada até hoje. Os editores de Blocos Online sentem-se extremamente gratificados pela cobertura do evento via internet, mostrando até a presente data, com exclusividade, não só para o Brasil mas para o mundo inteiro, a reflexão crítica de grandes pensadores da atualidade, sobre um tema reconhecidamente de interesse de todos os que têm o jornalismo no sangue, e a literatura no coração.
 

As sínteses acima foram elaboradas por Leila Míccolis