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O EVENTO
Leila Míccolis
Foi muito prazeiroso estar em Blumenau, por diversos motivos: o
primeiro, por ter reencontrado tantos amigos, de longa data: Affonso
Romano de Sant'Anna, o primeiro a publicar poema meu em um jornal
da grande imprensa (em sua coluna do Jornal do Brasil, na página
“Jornal de Poesias nº 2” de 29/09/73); Cleber Teixeira,
editor da histórica Noa Noa; Alcides Buss, diretor da Imprensa
da UFSC, Edltraud Zimmermann Fonseca, autora editada pela Blocos,
e que acaba de escrever "Prazer em Conhecer", uma pesquisa
histórica sobre as ruas de Indaial, cidade próxima
à Blumenau, Dúnia de Freitas, tão maravilhosa
sempre, participante do Grupo Zaragata, Marcelo Steil (a quem só
conhecia por correspondência, desde o Univerbo - Caderno de
vivas linguagens, alternativo que ele me enviava em 1993, além
do querido escritor Tchello de Barros (que conheci em Jundiaí/SP,
em um dos lançamentos de Douglas Mondo).
Em segundo, por conhecer tantos novos poetas e trazer em minha bagagens
livros maravilhosos desse pessoal que está começando
muito bem, com muita vontade de aprofundar-se nas artes poéticas
– escritas e técnicas. Haja visto o Grupo Zaragata,
do qual Dúnia é uma das participantes, que se reúne
duas vezes por semana para estudar poesia. Do grupo, estavam presentes,
além de Dúnia, Patrícia, Rita, Ramone, Marcelino,
José Oko e Rubens da Cunha (que já tinha um poema
no nosso site, inclusive). Também tive o prazer de conhecer
autores de Blumenau, como Maicon Tenfen, que me presentou com seu
magnífico livro: Mistérios, Mentiras e Trovões!
(que já devorei, inclusive, de um fôlego só).
Maicon ministrou a Oficina Literária de prosa e foi, também,
o moderador da Mesa Redonda sobre Crítica Literária.
Conheci ainda o maravilhoso trabalho do Centro
de Difusão da Literatura Regional para Cegos (impressionante
a produção exibida no Varal, inclusive de desenhos),
o Projeto Pão & Poesia (lembrei-me muito de Rogério
Salgado, que, na década de 80 introduziu, realizou o projeto
"In-sacando Poesia", no qual ensacava-se o pão
em um envelpes com poesia impressa (hoje, esta iniciativa, em Blumenau,
é realização conjunta da Cultura em Movimento,
da Fundação Cultural de Blumenau, da Prefeitura de
Blumenau, do Núcleo de Panificadores, bem como do Fundo Nacional
da Cultura (Min. da Cultura); nesta mesma linha, ainda pude conhecer
o poeta J.C. Ramos Filho, maranhense radicado em Santa Catarina,
que escreve poemas e publica em embalangens de preservativos, os
quais são distribuídos gratuitamente. Trata-se do
"preservativo poético". O poeta sempre se interessou
por questões as quais denomina de "doenças sociais":
"Falo sobre preconceito racia, prostituição,
menor abandonado, fome, e, claro, doenças sexualmente transmissíveis,
que são tema de Fragmento Essencial", obra com a qual
tive a alegria de ser presenteada por J. C., que já foi inclusive
entrevistado por Jô Soares e por vários grandes jornais,
como o Correio Braziliense (de Brasília). Aos poucos colaremos
em Blocos todo esse pessoal que nos presenteou com suas obras tão
interessantes e instigantes.
Em terceiro, por ouvir a fala, expressão
do pensamento, de grandes escritores: Affonso Romano de Sant'Anna,
homenageado deste Fórum, que fez uma excepcional conferência
sobre "Como repensar a Modernidade e a Pós-Modernidade",
Eglê Malheiros, Celestino Sachet e, novamente, Affonso Romano,
na Mesa sobre Crítica Literária.
Por fim, por participar da Oficina Literária
e da mesa sobre Literatura e Virtualidade, ao lado de Asta Vonzodas
do (PD de Literatura) e de Mário Prata. Quero deixar registradas
minhas impressões sobre ambas.
A Oficina Literária teve cerca de 30 participantes,
e foi extremamente gratificante. Uma turma de poetas maravilhosos
que me surpreenderam pela criatividade e amadurecimento em sua produção.
Só para que se tenha idéia da bela performance (individual
e coletiva do grupo), eis dois poemas produzidos por Tchello d´Barros:
HAI-KAI
folha amarela
caiu no meio da mesa
no meio do dia
TESTAMENTCHELLO
Depois que Tchello morrer
Podem vender os seus bens
Quando ele partir daqui
Podem doar os seus livros
Assim que ele sumir
Que abram seus e-mails
Quando desaparecer
Distribuam suas fotos
Depois que ele se for
Joguem os pincéis no rio
Na passagem deste vate
Façam bingo com seus olhos
Quando ele se mandar
Vendam os ossos na feira
Façam escambo do corpo
Distribuam seus despojos
Façam o que for preciso
Mas guardem seu coração
Que não deve ser rifado
Mas podem fazer leilão
Também não resisto a transcrever
o poema coletivo, feito também na Oficina, em que cada participante
escreveu um verso; a turma foi dividida em duas partes, uma delas
ficou com o início do poema e o meio, a outra partiu da último
verso, desenvolvendo o processo elaborativo até a conclusão.
Infelizmente, devido ao adiantado da hora, nem todos puderam participar
deste exercício de sensibilização; mas, através
deles, vocês verão que belo trabalho este, composto
por 24 poetas:
A tarde abriu suas asas
na luz da curva do rio
Margens rodeiam a cidade,
abraçando ventos,
e sílfides ainda me temem
e me sonegam seus pensamentos lascivos,
em um silêncio de não se ouvir mais nada,
ventos, gritos, dores de ipês.
Arranhar as costas da alma
Cicatrizar a luz deste abandono.
O credo da meia noite,
ladainha meus ouvidos.
Neste lindo pôr-do-sol, voou
Minha alma, em asas alçou.
Palavras descobrem montanhas
para revelarem-se árvores.
Árvores das quais brotam os sons
das letras que vão nas bocas
e o gozo das folhas verdes
dançantes no vento das falas.
Falas que falam de amor,
berço de silêncio eloquente,
– eloquência nascida no devaneio
desta natureza, chamada nós.
Sobre a Mesa Redonda "Literatura na Virtualidade",
o primeiro a falar foi Mário Prata, que, a nível de
depoimento pessoal, contou a interessantíssima experiência,
no ano 2.000, de seu livro policial "O Anjo de Badaró",
inteiramente escrito online. A obra impressa é a versão
final de uma experiência pioneira: o processo criativo do
texto foi acompanhado por milhares de pessoas (cerca de 4.000),
diariamente - letra a letra, palavra a palavra, corte a corte. Quatro
monitores, ligados o tempo todo (até porque era muito difícil
desligá-los, segundo o autor), mostravam Mário trabalhando
ao vivo, ou seja, o processo criativo em tempo real: na tela do
leitor aparecia exatamente o que estava sendo escrito naquele momento
(inclusive com a imagem dele digitando - exigência para que
as pessoas não pensassem que estava sendo enganado). Mário
mencionou que suas maiores dificuldades era não poder fumar,
enquanto trabalhava (pois muitas mães reclamavam que ele
estava dando mau exemplo para seus filhos) e conseguir trabalhar
em um "fuso horário" mais ou menos plausível
do maior número de países poder acompanhar esta experiência.
Os leitores mais assíduos desta experiência proclamaram-se
"Anjos" - mais especificamente, os "Anjos de Prata",
e Mário, para este seu séquito celestial, lançou
o concurso das melhores crônicas, presenteando-os com a publicação
do livro: "As crônicas dos anjos de prata" (o volume
1, pois os Anjos continuam em ação, independentes
de Mário).
Asta Vonzodas falou sobre a experiência do PD de Literatura
(Poesia Diária) também um dos mais antigos sites de
literatura, discorrendo sobre o site, tecendo um histórico
desde o tempo de Calex (quando não era uma página,
mas mails remetidos a uma lista de cadastrados), também mencionando
as mudanças de nome até fixar-se no atual, mencionando
as seções, e o trabalho de orientação
que presta aos autores novos, tentando escoar esta intensa produção,
além de aconselhar alguns que se encontram mais perdidos
ou desorientados.
Comecei falando sobre a organização
estrutural de Blocos Online, dados informacionais, linha editorial
e algumas diferenças entre ele e outros sites literários
"da mesma idade" que ele; entre essas diferenças
estão: 1) Blocos é um portal, abrigando outros sites
dentro deles; 2) Blocos não faz divisão entre autores
famosos e novos; 3) Em caso principalmente de obra que ainda não
caiu em domínio público Blocos só divulga poetas
com autorização a devida autorização
(respeitando os direitos autorais); 4) Nas páginas de Blocos
encontram-se os mais diversos gêneros poéticos, desde
o tradicional até a polipoesia da atualidade. 5) Blocos não
é apenas um banco de dados; tem consciência de fazer
jornalismo alternativo, no sentido de priorizar a formação,
em vez da informação, sem, contudo, deixar de noticiar
– na parte de serviços – o que considera de interesse
para seu público-alvo: notícias culturais, regulamentos
de concursos, textos sobre direitos autorais, livros recebidos,
etc. Em seguida, como material para a parte de debates, lancei algumas
questões polêmicas sobre a prática desta literatura
virtual, as quais poderão ser lidas a partir do dia 1 de
novembro, no editorial da primeira quinzena, na página de
entrada.
Infelizmente o tempo foi curto para passear pela
cidade, embora no trajeto meus olhos tenham se extasiado com a arquitetura
em enxaimel, existente em Blumenau. O Fórum ainda me reservou
uma última surpresa: voltei com Affonso Romano, que também
não pôde ficar para assistir o término da solenidade,
e assim tivemos tempo de conversar bastante sobre impasses, dificuldades,
prazeres e alegrias de nossa profissão. Momentos agradabilíssimos
e raros, uma vez que, incontestavelmente, ele é um dos escritores
mais requisitados e, conseqüentemente, mais ocupados deste
país – ele e Marina Colassanti, de quem também
sou grande admiradora.
Este resumo está bem aquém de tudo
o que vivenciei no 2º Fórum Brasileiro de Literatura
de Blumenau, cercada de tantas gentilezas e atenções.
É, portanto, mais um registro afetivo; assim sendo, não
poderia terminar sem expressar meus agradecimentos especiais aos
escritores Tchello D'Barros (da Sociedade Escritores de Blumenau)
e Dirceu Bombonatti, da Fundação Cultural de Blumenau,
responsáveis por essas 24 horas em Blumenau, intensas e repletas
dos mais diversos tipos de emoções - todas maravilhosas.
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