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o segundo que a vida leva
(para Hilda Hilst)
antes que a morte me pegue assim dividida
deixa eu cantar
nos seus ouvidos
meu bem:
a vida é um passeio por todas as ruas – vielas tortas
ou retas
em todas as direções – do pulso à aorta
– vias curvas ou arestas
com gostos e cheiros nem sempre bons (ou toleráveis),
mas é vida,
meu bem
que corre rua abaixo
e planta-se sob a árvore
que escolhemos por ser bela
(ou ainda à revelia)
por dar mais sombra
que as demais possam nos dar
à guisa de sombras,
meu bem
(ou – os entretantos – por ser a única disponível
entre todos os cantos das ruas
por onde elas façam sombra
aos nossos delírios sãos
– e, desde quando o são?
eu te pergunto,
meu bem)
A vida, lampejo de espaço-tempo
é tão ínfimo,
que um segundo
às vezes basta
para lembrar-se dela inteira:
aos pedaços
sem detalhes
sem emendas
coerência
ou intervalos
(a vida nunca foi filme,
meu bem,
apesar dos fotogramas
que guardamos nos armários)
A vida,
meu bem,
é um corre-corre
desvairado
para contar-se dela mesma
ou
de outras vidas, outros bens
nada muito
mais que isso
– e ainda que isso atente contra nossa-boa-vontade
novamente eu te pergunto:
– e desde quando, meu bem?
a vida: lume sem tempo certo
tem o volume de um livro aberto
de mil folhas
em mil faces
– seus disfarces –
como romance e poesia
como conto de todos os dias
(desses que contamos,
e afins)
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antes que a morte me pegue assim dividida
deixa eu cantar
nos seus ouvidos
meu bem:
A vida não vale o tempo
que leva para existir
mas basta um segundo
para se tornar-se inteira
quando foi VIDA-VIDA
(enfim):
o tempo do gozo que deu inicio à ela
(entre o tempo que ela corre)
é o mesmo com que se chega ao fim.
Ana Peluso
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