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Hilda Hilst imortal

Morreu Hilda Hist, artista genial que tive o prazer de conhecer pessoalmente, graças a dois amigos, a saudosa Lydia Westin e Picoco Bárbaro. Fizemos duas visitas à Casa do Sol, nos arredores de Campinas, onde Hilda Hilst vivia e recebia amigos e estudiosos de sua obra. Trajando uma bata despojada, que lhe dava um ar de
sacerdotiza, a artista conversou conosco à mesa da sala de jantar, diante de um aparelho de televisão recém-desligado e de uma garrafa de uísque, que ela tomava
medindo cada dose colocada no copo. “Não posso tomar mais que quatro doses por noite”, dizia, sorrindo malandramente. Durante a conversa, perdia a conta.
Entretanto, se matinha lúcida e bem-humorada.

Na segunda visita, Hilda Hilst estava tomada por uma euforia, causada pelos poemas que acabara de escrever. Explicou-nos como tivera a inspiração dos versos geniais, mostrados ainda manuscritos. Ela estava no banho, quando reparou que uma antiga mancha de umidade na parede representava o rosto de Camões, tal qual ele aparece nas ilustrações de enciclopédias. “Duvidam? Então me acompanhem”. E nos levou ao banheiro, nos posicionou como ela estava e nos fez testemunhar a aparição. Ficamos divididos entre os que reconheciam o vate e os que, como eu, não conseguiram. De volta à sala, com sotaque lusitano, Hilda leu os poemas.

Aí, já não importava a aparição ou não de Camões. Perfeitos, os versos – me perdoem os portugueses – tinham igual beleza e tanta grandiloqüência como as do grande poeta lusitano. Tinham mais, uma angústia valente, feminina, desafiadora, a indagar os mistérios do viver e do amar. Ouvi-la nos levou a um êxtase que, a mim, deu a sensação de estar diante de uma entidade já pronta pra imortalidade, já imortal. Foi uma das mais empolgantes sensações que tive, em toda a minha vida. Essa coletânea de poemas, Hilda dedicou à filha do medico Aristodemo Pinotti, seu amigo, ex-reitor da Unicamp. A moça, de pouco mais de vinte anos de idade, morreu em trágico acidente de carro, pouco tempo depois da nossa visita à escritora.

Encerro estas linhas citando um trecho de “Sobre a Tua Grande Face”, livro editado por Masso Ohno Editor, em 1986; “Honra-me com teus nadas/ Traduz meu passo/ De maneira que eu nunca me perceba. / Confunde estas linhas que te escrevo/ Como se um brejeiro escoliasta/ Resolvesse/ Brincar a morte de seu próprio texto”.

Erazê Martinho