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Por Quê?

Fazia mais de seis meses que não via televisão e há três dias resolvi ligar o meu receptor e sintonizá-lo num canal de cultura a fim de ver e ouvir os comentários que certamente haveriam de ser tecidos acerca da pessoa e da obra da maior poeta brasileira de todos os tempos - que me perdoe lá no Céu a querida Cecília -, pois ela tinha acabado de falecer. Gostaria de reiterar que o canal que sintonizei é totalmente dedicado à cultura; aliás, salvo engano, a estação ostenta exatamente este nome e por esta razão nem me preocupei em escolher outra de maior audiência, afinal eu queria ver e ouvir falarem sobre Hilda Hilst durante pelo menos um terço do tempo que os outros canais não culturais costumam despender quando morre um ídolo do esporte, da música popular, ou da própria casa, isto é umas duas ou três horas. Pois bem, a fim de não perder uma vírgula (ou um decibel) do que diria o locutor, escolhi um programa chamado “Jornal da Cultura”. Em outras palavras, no dia da morte da maior poeta brasileira de todos os tempos, depois de mais de seis meses sem assistir à televisão, sintonizei o meu aparelho de TV num canal de cultura, exatamente no horário de maior audiência que é o seu noticioso o qual, por acaso, também se chama Jornal da Cultura.

Pois bem, depois de quase uma hora e meia de notícias de todos os tipos, já no finalzinho do programa, entrou outro locutor e falou mais ou menos assim. “Faleceu hoje a escritora Hilda Hilst. Para quem a conhecia, tratava-se de uma grande poeta. Mas para a maioria da população ela era praticamente ignorada”. Acrescentou um ou dois detalhes sobre a obra de Hilda – num destes que ela teria sido taxada de autora pornográfica -, mas deixou de mencionar qualquer dos seus livros ou poemas; aliás, não citou sequer um único dos seus versos. E estamos conversados. Para quem está achando meio muito, devo fazer justiça à emissora e dizer que num dos horários da alta madrugada parece que foi apresentado um programa dedicado a ela. Mas as pessoas que viram mesmo a televisão “cultural”, ou seja, os raros telespectadores do seu noticiário – que por sinal nem o IBOPE se preocupa em pesquisar de tão irrelevante que é a sua audiência –, se conheciam Hilda Hilst, continuaram com o mesmo conhecimento anterior ao programa, e quem não a conhecia não soube nem quem foi que o Brasil perdeu naquele dia.

Por quê?

Se a ignorância da nossa população fosse somente quanto à pessoa e à obra de Hilda Hilst talvez houvesse atenuantes, afinal de contas se tratava de uma autora reclusa, pouco ou nada interessada em ser destacada pela mídia, e até mesmo podia-se alegar que a sua obra não fosse muito bem compreendida, exceto por raros e requintados intelectuais. Infelizmente, não se trata de nada disto. Muitos outros autores de excepcionais qualidades vegetam no ostracismo, quando não são vítimas de injustiças clamorosas enquanto ficam entregues à própria sorte em termos de apoio por parte das autoridades governamentais e dos responsáveis diretos pela educação e pela cultura do nosso povo Quantos professores do ensino médio conhecem a obra de Hilda Hilst? Quantos do ensino superior ou até mesmo do pós-superior já leram um poema... Um verso dela? Por outro lado, a grande mídia monopolizadora se contenta apenas em destacar a mesmice, evidenciar a mediocridade, divulgar a fatuidade, enfim, em inverter qualidades.

Por quê?

Raymundo Silveira