O CRIATIVO EXÍLIO DE ANTONIO JÚNIOR

Entrevista com o escritor, poeta, viajante e jornalista baiano Antonio Júnior sobre literatura.
Sua novela, O Coração Deserto,  acaba de estrear na página web Blocos, em cinco capítulos.
 

A novela que está on line em Blocos, conta a história de um homem em crise, perdido num mundo quase místico, e da ruína de uma sociedade, em um ambiente contraditório, entre a prosa poética e constantes referências ao gênero policialesco, com personagens mergulhados nas sombras e na violência contida. Com uma intenção, segundo o autor: “revelar a extrema solidão coletiva que quase tem corpo e nome próprio”.

EB - Cain Infante, o protagonista desta novela, arrasta um vazio interior que o aproxima do existencialismo de Camus e Sartre. A vida passa diante de seus olhos como uma peça teatral. Ele tem muito de você ou surgiu de uma observação aguda?

AJ - Ele tem muito de inúmeras pessoas e também nada concreto de quem quer que seja. É o resultado de várias figuras que minha imaginação construiu. Inicialmente seria um secundário, mas seus apontamentos existencialistas e reflexões estéticas, além dos perversos mecanismos que vive, roubaram o protagonismo. Somente num dos capítulos, o prostituto-menino Jean-Pierre domina a ação com a sua indiferença natural, sem ódios ou truques. O que pensei inicialmente foi numa história coral, onde a solidão reinaria soberana. O Cain foi crescendo com o desaparecimento de alguns personagens.

EB - Nem o amor nem a morte parecem importantes nesta novela. O eixo central é conduzido pela solidão e pelo vazio.

AJ - Realmente nenhum personagem é demasiado importante, nem mesmo a onipresente Darlene Santos. Não há personagens com uma dignidade de caráter dostoievskiano. São todos atores atuando como zumbis num filme de terror barato, como a vida mesmo. E eu não tenho simpatia por eles, exponho suas vísceras. Sensibilizei-me por Jean-Pierre e Hilda, mas resolvi que não acataria o favoritismo, eles seguiriam sua sorte sem  proteção. É que os idiotas são as únicas pessoas puras. Quando se tem uma chispa de inteligência, de coordenação mental, somos corrompidos imediatamente pela maldade. Ao contar suas histórias, vinha às vezes uma sensação de abatimento, então o coração dizia ”bata!”, e me centrava na extrema solidão que quase tem corpo e nome próprio.

EB - Em sua novela há a presença da cultura cinematográfica e também da grapiúna. Ilhéus e Itabuna, cidades do Sul da Bahia, onde nasceu, seriam a Twin Peaks, a cidade-sem-nome deste cenário?

AJ - Não me interessa retratar cidades em que vivi, e sim a experiência que elas me produziram. Sou um inadaptado absurdo. Eu nunca consegui entender as cidades em que vivi ou as pessoas da minha vida. Sou um viajante que não escreve sobre o que vê, e sim sobre o que imagina ou deseja ver. As minhas cidades literárias são fragmentos da fantasia e da memória.

EB - O final é bastante ambíguo. O que pensa dele? É possível a reconstrução de uma vida?

AJ - “Que labirintos bebem meu rosto”, pergunta Cecília Meireles sem encontrar respostas. Eu também não tenho respostas para o último capítulo de O Coração Deserto, porque ele não acaba, continua no invisível, como o cotidiano dos próprios leitores. Mas reconstruir uma vida é possível. Eu iniciei uma nova vida quando parti para a Europa. O que resultou? Sou simplesmente alguém que diz não a muitas coisas. Tudo se resume a isso.

EB - Darlene Santos pode lembrar mulheres conhecidas da região do cacau. Foi por isso que tardou tanto a apresentar O Coração Deserto publicamente?

AJ - Darlene lembra também mulheres do cinema “noir” norte-americano, lembra mulheres de carne-e-osso espanholas ou japonesas, entre outras raças. Ninguém é um só, somos pedaços de muitos que nem conhecemos. E O Coração Deserto não foi publicado antes porque não me convencia. Enxergava em algumas frases e personagens um rancor oculto, uma vingança cruel, uma perversidade torturante. “Não, não sou eu, meu Anjo!”, dizia. Guardava-o por temporadas, voltava a lê-lo e riscava linhas e mais linhas, reescrevia páginas, com o conselho de Lygia Fagundes Telles na cabeça: “Quando tiver dúvida de uma frase ou mesmo de uma palavra, melhor cortá-la!”.  Nesta limpeza – ou seria amadurecimento? – de quase dez anos, eliminei dezenas de personagens incômodos.

EB - Sente pesar ao lembrar que leitores como Hilda Hilst ou Pedro Paulo de Senna Madureira não gostaram de sua novela?

AJ - Na época, sim. Era bastante romântico, acreditava que um escritor entendia qualquer experiência bem intencionada de um colega. Hoje sei que os escritores são os piores inimigos dos escritores. A sorte é que não tenho ídolos, não rendo-me diante dos famosos e não guardo rancor. Não sou também um deslumbrado necessitado de inteligentes que me ponham a mão na cabeça. O meu espírito se comportou corretamente quando ainda adolescente Manuel Puig elogiou o meu conto As Queridinhas, quando falei de poesia com Arnaldo Antunes em Londres ou ao tomar chá de hortelã com Paul Bowles. Creio que só gritaria ou desmaiaria emocionado se voltasse ao passado diretamente para ver uma apresentação de Chet Baker num jazz-club.

EB - Se pode considerar sua novela  realista?

AJ - Eu não sei analisar o que escrevo. É trabalho para os leitores e os críticos. Não tento dar mensagens ou explicar minha forma de viver. Meus textos são anotações, diários, cadernos, notas de viagens, redações de descobrimentos, sensações musicais, retalhos cinematográficos, em que introduzo minha impressão pessoal, às vezes abstrata e simbólica.

EB - A importância do homem refletir, e encontrar respostas, do seu próprio vazio parece ser o tema central de sua obra?

AJ - Sim. Eu espero que a minha literatura seja uma festa para leitores sensíveis, para espíritos inquietos, porque não há um átimo de superficialidade nela e, portanto, não há lugar para aqueles que buscam apenas diversão.

EB - Houve tentativas de outras novelas antes desta?

AJ - Antes dos quinze anos, escrevi duas ou três novelas à mão, em cadernos magros, colados uns aos outros. Numa delas, Vidas em Tempestade, um folhetim tropical influenciado por telenovelas, melodramas de John M. Stahl, Henry King  e Douglas Sirk e a paixão incontrolável das palavras de Emily Brontë, falava de uma rica herdeira que fugia de uma família burguesa e uma sociedade hipócrita, para viver numa ilha misteriosa habitada por animais selvagens, traficantes de pouco êxito e um homem belo, místico, silencioso. Terminou queimada como muita coisa que fiz antes dos vinte anos. Nos últimos anos venho escrevendo Nada é mais do que um Fútil Sonho, uma criação difícil, que me tortura, que muitas vezes não controlo os personagens. Fico meses sem escrevê-la, só com as imagens na cabeça, e logo rendo-me. São encontros e desencontros de dois amantes entre o ódio e o amor. Não há uma história. Eles são jovens, imigrantes ilegais, curiosos da cultura londrina, sozinhos. Não conto uma história romântica ou mesmo dramática, são mais sensações do espírito.

EB - Você escreve com facilidade e velocidade ou apenas durante certo período do ano?

AJ - Escrevo todos os dias, ou melhor, todas as noites. É a minha âncora existencial, embora não tenha uma rotina profissional tradicional, sempre estou trabalhando em várias coisas ao mesmo tempo, como agora, em que escrevo um ensaio sobre a poesia espanhola contemporânea,  preparo  uma exposição de fotografias, finalizo entrevistas com o ator Jude Law e o diretor Carlos Saura, faço crônicas e estou trabalhando em dois pequenos livros de poesia. Tudo ao mesmo tempo. Até o último momento de minha vida terei que escrever, sobretudo quando já não possa fazê-lo. Creio que é parte da resistência à morte. Sempre escrevo um texto como se fosse o último, sendo assim, só escrevo o que realmente é fundamental para a minha sensibilidade.

EB - Qual a sua criação mais comovente?

AJ - Gosto bastante de Nódoas, Anjos, poemas escritos em Londres, no ano de 98. São o mais próximo que eu cheguei do dar-se conta do que significa viver no mundo de hoje. É que escrever é tratar de entender a experiência humana. Também o meu primeiro livro de poesias, O Aprendiz do Amor, continua me interessando  muito, assim como Caprichos, publicado em Lisboa. Mas a minha maior satisfação está no texto teatral Amásia. É duro e sincero como um roteiro de Ingmar Bergman.

EB - Isso significa que você experimenta continuamente?

AJ - Gosto do experimentalismo, já cheguei até a usar a técnica “cut-up” de William S. Burroughs, mas não teria sentido cultivar uma estética centrada somente no experimentalismo. Experimento principalmente com o que está por trás das palavras, da própria história.

EB - Pode dizer algo acerca de sua partida para a Europa?  Você executou um plano que traçara cuidadosamente?

AJ - Havia  um plano oculto, um plano metafísico, que outra pessoa chamaria destino. Cheguei primeiro na Galícia, para trabalhar como divulgador de um grupo teatral, e foi um fiasco. Retratei esses meses de iniciação nos contos Imagens e Um Breve Assombro, e na série de poemas Uivos. Foi então que entendi que minha pátria não era só o Brasil, minha pátria está em todas as partes onde estive e em todas as partes onde ainda gostaria de estar. Entendi também que deveria ser mais cuidadoso com as pessoas que amo, que deveria ser mais cuidadoso nas minhas escolhas futuras.

EB - Mas não há um bocado de dor em ser estrangeiro?

AJ - Um estrangeiro é um estrangeiro. Nunca seremos europeus, por mais que nos disfarcemos. Ontem, hoje e amanha, estrangeiro! Como eu me basto sendo baiano, não sofro. E procuro sempre amar a terra onde moro. Eu sempre que estou num país leio sua literatura, vejo seus filmes, ouço sua música  e aprendo muito sobre esse país e sua cultura. Não aceito guetos. Creio que não vale a pena estar fora  do país mergulhado numa nostalgia perpétua.

EB - Então os anos europeus podem ser considerados proveitosos e esclarecedores para sua literatura?

AJ - Minha crença existencial se mantém fria e imutável como uma velha pedra: liberdade de pensamento, liberdade de palavra, liberdade de ação, liberdade de arte. Encontrei tudo isso em algumas cidades européias. Encontrei também a solidão, o ser anônimo. E é evidente que essa possibilidade de uma vida anônima e vigorosa transformaram minha criação.

EB - Podemos afirmar que a Europa trouxe uma mudança significativa para sua pessoa?

AJ - Sim. Sou outro sendo o mesmo. Descobri, com a maturidade desses anos, que a amizade é o mais necessário da vida, como dizia Aristóteles. Descobri incontáveis escritores, poetas, pintores, viajantes, fotógrafos, músicos. Cheguei à exata conclusão que a literatura é uma fonte de conhecimento e revelação. É também uma forma de aniquilar a passagem do tempo e chegar onde não se tinha idéia de chegar. Enfim, com todo o aprendizado, a Europa definitivamente levou-me à arte como forma de resistência.

EB - Há algum momento em que você recorda com júbilo?

AJ - O encontro com Lawrence Ferlinghetti num pub londrino. Era um café-teatro no Soho onde eu ia tomar chá, escrever e todas as sextas ler os meus poemas em português, passando cópias em inglês para o público pequeno, maluco e seleto. Numa sexta, o velho “beat” era o convidado especial. Eu não queria acreditar, o meu coração pulsava acelerado e ao ler o meu trabalho, cada palavra tinha um significado especial, parecia música.

EB - Como foi o seu encontro com José Saramago?

AJ - Ele foi simpático e reservado, como a maioria dos escritores que não se disfarçam de intelectual ou de celebridade. Mas foram tantas as entrevistas nos últimos sete anos, mais de setenta, de uma diáfana Catherine Deneuve a um mal-humorado Camilo José Cela, que tudo se repete. Como bem disse Diogo Mainardi em uma de suas crônicas italianas, falando de sua trajetória como correspondente da Veja, “tornei-me uma espécie de Marcelo Mastroianni em La Dolce Vita, melancólico e entediado, sempre à caça de celebridades”.

EB - A sua audácia em revelar-se assusta quem crê que a vida é “máscara e disfarces”. Não é arriscado confessar numa entrevista que quase teve uma relação sexual com Puig, ou que teve uma noite de terror com Caio Fernando Abreu, como declarou no magazine Cá Estamos Nós?

AJ - Todos usamos máscaras e disfarces. Eu muitas vezes me surpreendo com a falsa amabilidade das relações sociais, o falar por falar, e o mentir sem necessidade. Dedicar-me à literatura devolveu-me a pureza primitiva da sinceridade comigo mesmo e do esplendor da amizade. Penso no leitor como alguém que se interessa por meu trabalho, nunca por minha vida privada, e por tanto escrevo sem censura, sem medo de perder o meu amigo-leitor. E embora não acredite numa literatura gay, como não acredito numa literatura feminina ou regional, a minha opção sexual é importante para o resultado de boa parte de minha escrita. A gente tem mais é que se acostumar com o óbvio necessário. Dois homens que se querem ou amantes de cocaína, por exemplo, são por demais banais, é como acordar e escovar os dentes. É preciso prevenir todo o tempo contra a facilidade de qualquer julgamento apressado.

EB - Posso perguntar o que os anjos apitam na sua obra?

AJ - Os anjos chegaram a minha literatura em alguns contos no início dos anos 90, depois tomaram de supetão a  poesia. Cheguei até a escrever um ensaio, Ángeles – No Limite do Silêncio. Tudo começou quando vi o filme de Wim Wenders, Asas do Desejo, e logo a seguir li Rilke, culminando quando meu pai morreu e eu estava em Parati e não pude chegar a tempo ao seu funeral. Na verdade, só fiquei sabendo cinco dias após sua morte. Foi muito duro. Então plantei um jasmineiro, minha flor favorita, no túmulo de papai. Dia depois sonhei com um anjo alvíssimo vestido de jasmins. A partir daí resolvi aproximar-me desses seres encantados e generosos. Falo com o meu anjo, estou sempre a procura por onde passo de anjos visíveis e não sei deixar de contar com eles no meu cotidiano. Em Amásia, um anjo apaixonado e vingativo é um dos protagonistas. Mas não há qualquer conotação católica, ou mesmo religiosa, como bem disse Rilke. Os anjos são uma espécie de perfume infalível que todos levamos na alma.

EB - Há algum livro que gostaria de não ter escrito?

AJ - As  minhas poesias de juventude publicadas em jornais e em antologias da sensível Maria de Lourdes Netto Simões, são ruins. Retratos em Preto & Branco – Contos Góticos de Madrid, um livro de contos, me decepcionou. Tinha idéia de relatos diretos e verdadeiros como a prosa de Raymond Carver e o tiro saiu pela culatra. São contos sofridos, escuros, como instantâneos do negativo. Havia entrevistado dezenas de imigrantes durante um ano com a vontade de captar o coração daquela gente, minha gente. Não o consegui, mesmo passando distante de uma das maiores falácias da literatura convencional: a representação das experiências humanas, o pensamento e a percepção, como fenômenos que seguem uma trajetória linear e única.

EB - A idéia de combinar viagens e literatura é uma obsessão?

AJ - Sempre me vi como um viajante. Ainda menino sonhava voando por cidades desconhecidas, montanhas, rios, ilhas e gritava quando tinha que voltar, acordando. Me encantam os escritores-viajantes, de Conrad a Robert Louis Stevenson, de Hermann Hesse a Hemingway, e depois descobri Bruce Chatwin, François Augièras, Paul Bowles e Luis Sepúlverda, além dos poetas Walt Whitman e Rilke. Por tanto, literatura e viagens sempre tiveram para mim uma relação muito conjunta. É uma pena que a literatura já não tenha nenhuma importância para a sociedade, e a gente só viaje através dos conselhos das agências de turismo, perdendo o que há de melhor nas viagens, a revelação do nao-turistíco, ou seja, a aventura.

EB - Já pensou em voltar para o Brasil?

AJ - Eu nunca deixei o Brasil. Eu tenho o Brasil n’alma, esteja onde estiver. No entanto, tenho planos de passar uma larga temporada no Brasil. Para sempre? Não saberia dizer.

EB - Como surgiu o seu interesse literário?

AJ - Era muito tímido quando menino, pensando em mim com uma aura romântica, como um poeta, um Lord Byron. Então raciocinei: “Se escrevo todo mundo vai gostar de mim”. Aí li Kafka, Emily Brontë, Virgínia Woolf, Yourcenar e os mineiros Lúcio Cardoso e Autran Dourado, e o que era um artifício para a felicidade transformou-se no meu verdadeiro caminho. E quatro pessoas iluminaram os meus primeiros passos literários: Ruy Póvoas, Genny Xavier, Maria de Lourdes Netto Simões e Gideon Rosa.

EB - Porque o cinema é tão  fundamental para a sua criação?

AJ - Todos os domingos ia ao cinema, fascinando-me as comédias de Jerry Lewis, o tiroteio de Giuliano Gemma, os épicos italianos e as epopéias bíblicas, depois vieram os clássicos na telinha. Nunca me esqueci das lágrimas derramadas por Suplício de uma Saudade, uma drama romântico maravilhoso com a Jennifer Jones. Creio que vi com mamãe umas dez vezes esse filme de Henry King. Aos treze anos levaram-me para ver Amarcord, de Fellini, e Gritos e Sussurros, de Bergman, em sessões de arte  no Cine Marabá, em Itabuna, e tive a constatação que estaria fisgado pelo cinema para todo o sempre. Ainda vejo uns cinco filmes por semana, seja nas salas de cinema, no vídeo ou na tevê. O cinema terminou confundindo-se com minha própria existência, portanto não teria como estar fora de minha criação literária.

EB - Como se define?

AJ - Me considero um freak, porém todos somos defeituosos e temos um problema moral em nossas cabeças; todos já mentimos e escondemos um cadáver no armário. Todos exibimos rachaduras onde se escondem baratas. E quanto mais ocultas as rachaduras, mais baratas moram nelas. Claro que existe gente preciosa e perfeita, porém então são esses os estranhos, os monstros do cotidiano.

Érica Bellini
de Barcelona