UFANISMO
     
        Right or wrong, my country


    Para que saibam das minhas tretas
    e ponham logo os pingos nos is,
    quero mostrar com todas as letras
    porque me ufano do meu país.

    Nossas tristezas são cor-de-rosa!
    Nossas riquezas são naturais!
    Servem talvez para contar prosa,
    são sete-quedas e talvez mais.

    Estas florestas de antigamente
    quem as cortou? Quem as fez carvão?
    Quem ensinou a essa pobre gente
    a desplantar o seu próprio chão?

    Os nossos rios, esta baía,
    nem são mais verdes, nem peixes têm.
    Só não poluíram a poesia
    porque ela salta e vai mais além.
     

                2

                Eu sou quem sabe meter o pau
                na maioria que pede bis.
                Sou a memória da antiga fauna
                porque sou fauno no meu país.

                Além de ser o maior em tudo,
                o nosso clima, o nosso verão,
                nos dá de graça o maior entrudo
                em que as três raças tristes estão.

                Dos portugueses temos a língua;
                dos africanos — oxum, meu bem;
                os índios foram morrendo à míngua
                deixando apenas seu nhenhenhém.

                Nossos costumes são os mais limpos,
                sabemos tudo e muito mais:
                nosso futuro tem seus garimpos
                como a esperança seus matagais.

    3

    Eu sou o mito que vai criando
    orelhas grandes, grande nariz.
    Há quem comente que sou malandro
    porque só falo no meu país.

    O meu orgulho tem passo firme
    e olha de esguelha meus ancestrais.
    Usarão força para impedir-me?
    Que vale a força, se eu cresço mais?

    E cresço tanto que às vezes salto
    as longitudes que me contêm.
    Sou a Excelência de algum planalto,
    dou cambalhotas como ninguém.

    Mas porque mexo na minha história,
    porque remexo no meu surrão,
    conheço alguma jaculatória
    e tenho santo de proteção.
     

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                Eu sou de mim o meu próprio dobro,
                meu próprio roubo, mas sou feliz.
                E até aceito me chamem bobo
                porque me afano no meu país.


                                                                                         Gilberto Mendonça Teles

    Do livro: "Hora aberta", José Olympio Editora, 1986, RJ