(para Amador Ribeiro Neto, Gilson Renato, Tiago Germano, Marcel Vieira, Daniel Sampaio, Linaldo Guedes, Sérgio de Castro Pinto, Ricardo Anísio, André Ricardo Aguiar, Rui Espinheira Filho, Lígia Tavares, Walter Galvão, Baré, Águia Mendes, Pedrosmar, Ronaldo Monte, Vitória Lima, Carlos Rennó, Carlos Aranha, as galeras do Decom e Letras da UFPB. O povo do MEL... E mais: minhas filhas, Mariana, Mayra, minha netinha, Gabriela e todos que, de alguma forma – pela poesia ou pela firmeza de princípios - vem me ajudando a viver, escrever e pensar com humanidade.)
no meio desta noite imunda
quase comovem e nem são
pranto quanto
muito umedecem
meus clãs de abelhas selvagens
amiúde see espalham pela pele
) enquanto a palavra
comete seu holocausto
extirpando do significado seu
indomável mistério
meus s e t e mil olhos jazem
comovidos
Um poema e seu processo
Recentemente tive quatro experiências que, juntas ou separadamente, foram necessárias porradas nesse meu comodismo de escrever versos, sem muito refletir sobre eles. Foi só pensar rapidamente sobre isso e já fluiu o poema acima. E nem importa se é ou não um bom poema. Mais que um conjunto estético representado em versos, ele reflete naturalmente uma determinada circunstância entre os fatos aqui narrados, eqüidistantes entre si e o momento do texto.
A primeira dessas experiências foi com o vídeo “Traças e traços”, produzido pelos poetas Tiago Germano e, se não estou enganado, Daniel Sampaio, juntamente com outros alunos e alunas do Curso de Comunicação da UFPB. Eles entrevistaram alguns poetas sobre o processo criativo e a experiência editorial de cada um. Enfim, do verso ao livro e vice-prosa. E lá estava eu, meio sem jeito no começo, mas depois muito a vontade graças ao suave astral e ao senso de profissionalismo da galera.
Dias após meu amigo Amador Ribeiro Neto, poeta da neobarrocidadetropiconcretude, me convidou para visitar sua sala de aula. Era um papo com os alunos sobre a minha produção poética. Esta foi, também, uma experiência de puro encantamento. A turma era muito cativante e participativa e isso me permitiu abrir as fornalhas da metalurgia que me permite o poema. Com ou sem a presença da palavra. Com som, sem som, com imagem, sem imagem...
Logo em seguida, o poeta amigo e jornalista Gilson Renato, me convida para um lero no seu programa na TV Câmara de João Pessoa, “Páginas Abertas”. O papo era o quase o mesmo. Cheguei no estúdio espumando pelos poros, tamanha a ressaca da noite anterior, no lançamento do livro “Pequeno Caos”, contos do poeta Ronaldo Monte. Gilson, amigo generoso, soube me deixar muito à vontade diante da minha sempre indisfarçável timidez. No entanto, o gás da água mineral que eu bebera na noite anterior, acompanhando o necessário vinho, pelo jeito, era boliviano. Estava numa daquelas manhãs de arrependimento quase cristão.
Por último, de passagem numa pré-reunião de um grupo gay, no Escritório Político ao qual estou vinculado profissional e afetivamente, fui convidado para escrever um poema homoerótico para o jornal “Colméia”, órgão de expressão do Movimento do Espírito Lilás – MEL. Logicamente, aceitei de imediato. Hetero por uma opção de prazer e não por condicionamento cultural, não vi melhor oportunidade de experimentar as extrações mais libertárias do meu “Eu Lírico”. Elemento que busco trucidar desde que nasci.
E isso tudo aconteceu num curto período. Uns quinze dias, mais ou menos. Talvez um pouco mais. E num período em que estou completamente mergulhado numa disputa política pela Prefeitura Municipal de João Pessoa, integrando a assessoria do Deputado Ricardo Coutinho. Num momento em que estou buscando o abrigo da solidão todos os dias porque me sinto cercado por uma gama de energias difusas e com a função de conduzi-las com meu rebanho de idéias igualitárias, para o escoadouro das urnas e para a implantação de um Governo Popular na Capital das Acácias. O espaço da minha liberdade individual, desta forma, praticamente inexiste fora da poesia. O indivíduo deu lugar ao personagem que busco desempenhar com dignidade.
O poeta tudo observa, quase atento. Distraidamente escrevendo versos e pensando que a poesia é como um penhasco para o qual nos aventuramos num mergulho, sem tempo de pensar num provável retorno. Não há retorno para o poeta. Não há identidade além da que nos é concedida pela Secretaria de Segurança Pública do Penhasco. Gilson Renato me perguntou como eu queria ser apresentado e pensei nos muitos que se apresentam como “poeta de tradutor”, como que hierarquizando a intimidade com a palavra. Ora, ser poeta é tão imenso e intenso que, enquanto identidade, dispensa penduricalhos.
Perguntado pelos alunos de Amador acerca da forma plástica dos meus versos, fui obrigado a mentir. Não sabia, juro! Não lembro o que disse, mas deve ter sido uma grande mentira. Nunca tinha refletido mais profundamente (o necessário para expor em sala de aula) acerca dos espaços, da tipificação, das quebras de verso, com as quais me ocupo na elaboração de um poema. E que, na verdade, representam a pontuação de um ritmo muito particular, de quem nunca se preocupou em inventar absolutamente nada ou sequer imaginar que estaria sendo reducionista ou coisa que o valha.
Sempre repito que sou apaixonadamente aberto às influências. Falo de todas as influências: do tropicalismo, de quem ainda escuto Os Mutantes e percebo a extensão da contemporaneidade; Olavo Bilac que, por algum motivo, inspirou versos apaixonados de Gilka Machado; Décio Pignatari que escreveu um poema chamado Lobisomem, na década de quarenta e guiou meus primeiros passos na complexa caminhada de encontro ao concretismo... enfim, de Petrarca, Cacaso, Leila Míccolis, Alice Ruiz, Perle Amandine que me insinuou a perenidade do efêmero com a serenidade do seu nome e a lucidez da sua juventude. Gabriela, que vi descer do universo numa sala de parto, como se estivesse guardada no corpo da minha filha. Enfim, todos os fatos, todas as artes, todas as pessoas, todas as circunstâncias... tudo, tudo me comove e indica caminhos. Caminhos que me repartem em vida e verso. Não sei onde um começa e o outro acaba.
Também aprendi nessas três aulas que me foram oferecidas por pessoas de extrema sensibilidade e inteligência, que escrevo para mim mesmo. Cheguei rápido nesta conclusão. É uma questão de lógica. Se rasgo ou deleto mais que guardo, é porque guardo somente os poemas que, de alguma forma, julgo ter algum valor estético ou... emocional. Em suma: poemas que cabem no meu gosto ou nas minhas táticas subversivas no exercício da palavra. Sim, porque ao despir o poema de emoções, não dispo a necessária nudez de um ser, portador de palavras, que também se emociona. Esse ser, pode ter o nome fantasia de Lau Siqueira ou Aureliano Babilônia, mas sua identidade há muito se distendeu na temporada de caça às raposas do absurdo. É a poesia! É a poesia! Poesia, porra! Mas, o que é a poesia? Serão poemas os cavalos onde o espírito da lira e do aço descem e se contorcem num jogo de identidades fundidas? A poesia, dizia Mário Quintana, “se resume na procura da poesia”. É como ler Umberto Eco e concluir que se o significado é a última fronteira do signo, então defini-lo é como que cavalgar uma lagarta de fogo, espremendo uma gigantesca ignorância contra aquela expressão viva que não precisa de nenhuma definição para existir, para cumprir a sua missão no universo.
Enfim, estou mais uma vez diante de um dilema. Nada há de novo. Shakespeare já dizia: to be or nocaute. Minha melena gris com a qual atravessei quase cinco décadas, me dizem do sim e do não. E deixo os armoriais morrerem à míngua, minha pátria é a linguagem universal, o hip-hop, o reisado, o blues, o soneto, o fato consumado do Poema Processo. Etcétara, Etcétara...O resto é viagem.
Lau Siqueira