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O BEIJO DE JUDAS
Sobre o jardim silente a noite reclinara,
Cheia de prostração de uma tristeza rara...
A alameda deserta em que Jesus seguia
Tinha a mudez claustral duma imensa agonia,
Em que tudo ficasse espiritualizado
Na volúpia sutil de padecer calado.Belo e calmo jardim das verdes oliveiras,
De ninhos a embalar as aves prazenteiras,
De sombras outonais, de frutos e de flores,
E — quem sab?: — de bons e líricos amores...
Quem diria que tu, na tua formosura,
Irias presenciar tanta e tanta amargura!E Jesus estacou. Seu olhar de piedade
De lágrimas turvou-se entre o amor e a saudade.Súbito a multidão de homens feros e maus
Surge, erguendo para o ar archotes, varapaus,
Como que procurando um saltador que fora
Se esconder do jordim à sombra acolhedora...
E à frente dessa bando, estúpido e cobarde,
Ao rubro refletir de um grande archote que arde,
Vê-se o rsto cruel e cínico de Judas,
Fazendo revoltar as próprias trevas mudas.
O qual, com riso falso, ao Mestre se achecando,
Disse: — Salve, Rabi!" — E curva-se, O beijando.O beijo — a saudação de paz com que os antigos
Honravam pais, irmãos, os hóspedes e amigos;
O gesto delicado e cheio de carinhos
Com que se achegam sempre os ternos passarinhos;
Cumprimento de luz que à natureza envia
O majestoso sol, no milagre do dia;
Bênção do céu à terra e veludoso afago
Com que as ondas azuis vão às praias de um lago!
O beijo — a voz do amor em toda a natureza,
Em Judas se tornou o sinal de torpeza,
O gesto da traição que o universo condena
Ao castigo maior, à mais terrível pena.Mas Jesus, acendendo o seu olhar divino
A Judas apontou seu trágico destino.E, sereno, lhe diz: — "Tu me trais, com um beijo?"
E essa interrogação foi um profundo arquejo
Que ecoou dentro dalma infeliz do traidor,
Que assim pagava ao Mestre as práticas de amor
Que tanta vez ouvira...
E o Salvador vendido
Por esse que se fez de amigo um vil bandido,
Levava dentro dalma a angústia indefinida
De quem vê pago o bem pelos males da vida.W enquanto prosseguia a noite confidente
Jesus, abandonado e preso, sofre e sente
A mágoa mais profunda, a dor ilimitada
De se ver como réu, não tendo feito nada.***
E em meio à multidão, ao longo da alameda,
Calmo seguiu Jesus com seus passos de seda,
Enquanto o soluçar das árvores, enfim,
Se ouve dentro da noite, em meio do Jardim.Mário Barreto França
Do livro: "Primícias da minha seara", Ed. autor, 1960, RJ