"POETICIDADES E OUTRAS FALAS"
RUBENS DA CUNHA


Reside em Joinville, SC. Autor de "Campo Avesso" e "Visitações do Humano". Acadêmico de Letras. Escreve semanalmente no Jornal A Notícia e coordena o Grupo de Poetas Zaragata. Na Web tem o e-book: "A busca entre o vazio", disponível para download,
na URL: <http://www.arcosonline.com/index.php?option=content&task=view&id=146&Itemid=>.
Blog "Casa de Paragens": <www.casadeparagens.blogspot.com>.

Coluna de 26/10/2008
(próxima coluna: 9/11)

Descritura

"Descritura", palavra inventada por um aluno. Ou melhor, errada por um aluno. Queria tanto a palavra pra mim. Ter sido eu a inventá-la, a misturar descrição com escritura e sair por aí me gabando de ter inventado uma palavra. De ter feito o verbo delirar, conforme sugere Manoel de Barros.

Mas não, a palavra me veio pelo descuido de um adolescente. Descuido ou descaso, sabe-se lá. Pior é não conseguir explicar para ele a força de sua palavra errada, a dimensão sempre inovadora que acontece na gramática, na língua, na poesia, quando alguém inventa uma palavra.

Não que ele não possa compreender, ou perceber, o jogo que fez. Não é isso, falo da não intencionalidade. Do estar escrevendo algo padrão, "acadêmico", para o professor, como a escola exige e, de repente, distraidamente, incorrer no delicioso "erro" de criar uma palavra. E não saber disso. Não perceber o poder que tem nas mãos. Imagino os muitos que apagaram seus erros criativos, sob a pena de uma nota baixa. Apagaram suas invenções, intencionais ou não, porque a ditadura do gramaticalmente correto corrói em muito a criatividade.

Mexer com as palavras, reordená-las, é ato de coragem, ato que muitos tentam e pouco atingem o objetivo com precisão. Em português, o exemplo máximo disso é João Guimarães Rosa, seguido por Manoel de Barros e pelo moçambicano Mia Couto. Existe muitos outros que embasam suas escritas nesse terreno de desconstruir/reconstruir a gramática com resultados díspares. Porém, isso é literatura. Há em sua essência a necessidade de alterar, redimensionar a linguagem. O que me encanta realmente é pensar na "literatura" diária que começa assim, pelo "erro" de um aluno, ou por um daqueles achados lingüísticos que as crianças nos brindam, geralmente por falta de experiência com a linguagem. A falta de experiência faz bem porque retira os medos e freios. O medo de errar abafa a poesia natural que temos quando usamos a linguagem.

Não prego o erro gramatical pelo erro gramatical, mas a consciência do poder de alterar a linguagem para produzir novos significados. O ensino da escrita nas escolas deveria passar por esse viés também. Deveria inserir no aluno não somente a escrita dentro da norma culta, mas os caminhos possíveis para ultrapassar a norma culta. No entanto, na maioria das vezes em que o aluno ultrapassa, esbarra na insensibilidade do professor-corretivo. Aquele que apaga não somente as, digamos, "imperfeições imperfeitas", mas faz toda uma limpeza nas imperfeições perfeitas, aquelas que geram novos caminhos, estabelecem novas relações com a linguagem. Seja por incapacidade de explicar ao aluno que ele conseguiu ir além da gramática, seja porque o próprio professor desconhece as fronteiras do "além da gramática".

Enfim, num mundo ideal, a linguagem fluiria, provocaria sensações, escorreria farta pela criatividade humana. Porém, são tantos os cerceamentos, tantos os cortes, que só nos resta brindar o invento-susto de um aluno distraído. Longa vida à "descritura" e a qualquer outra palavra "errada" que nasça por aí.

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