Solange Firmino

Professora do Ensino Fundamental e de Língua Portuguesa e Literatura do Ensino Médio. Escritora, pesquisadora. Estudou Cultura Greco-romana na UERJ com Junito Brandão, um dos maiores especialistas do país em Mitologia.

Mito em contexto - Coluna 61
(Próxima: 20/1/2009)


Afrodite, deusa do amor e da beleza

Na Ilíada, Homero traz Afrodite como filha de Zeus e Dione. A versão mais popular do seu nascimento diz que quando Crono castrou Urano, os testículos caíram no mar e a partir do sêmen jorrado se formou a espuma da qual surgiu Afrodite. Assim que nasceu, foi levada  pelo vento Zéfiro para Chipre, onde foi ornamentada pelas Horas e depois conduzida ao Monte Olimpo.

Os mitos mais importantes apontam Afrodite para a Ásia, como o amante Adônis   e os filhos Enéias, Hermafrodito e Priapo. A deusa venceu o concurso que resultou na Guerra de Tróia , o que também a leva para a Ásia. Éris, a Discórdia, não convidada para as núpcias de Peleu e Tétis, lançou entre  Hera, Afrodite e Atena uma maçã de ouro com os  dizeres “para a mais bela”. Zeus designou como árbitro da disputa o filho do rei de Tróia. As deusas ofereceram a Páris seus presentes: Atena daria a sabedoria; Hera, o poder sobre o Universo. Afrodite venceu ao prometer o amor da mais bela mulher. Como recompensa pelo título de a mais bela das deusas, Afrodite auxiliou Paris na viagem a Esparta e no rapto de Helena.

O grande casamento grego da deusa foi com Hefestos, o deus ferreiro. Na ausência dele, Ares partilhava o leito de Afrodite, que deixava à porta dos aposentos o jovem Aléctrion, atento à aproximação do Sol . Um dia, o vigia dormiu e os amantes foram denunciados. O marido traído preparou uma rede mágica, prendeu o casal e chamou os deuses como testemunhas do adultério. Afrodite fugiu para Chipre e Ares para a Trácia. Desse amor nasceram Fobos (o medo), Deimos (o terror) e Harmonia. Aléctrion foi metamorfoseado em galo (alektryón é galo em grego) e obrigado a cantar antes do nascimento do Sol.

A paixão de Afrodite por Adônis ficou famosa e se prendeu aos ritos simbólicos da vegetação. Mirra, princesa da Assíria, desejando competir com a beleza da deusa, foi castigada ao conceber uma paixão pelo pai, que a ela se uniu várias noites. Na última noite, o rei percebeu o erro e a perseguiu. Mirra pediu proteção aos deuses e foi transformada na árvore com seu nome. Meses depois, a casca da mirra se abriu e nasceu Adônis. Afrodite deu a criança para Perséfone , que depois não quis devolvê-la. A luta entre as deusas foi arbitrada por Zeus: Adônis passaria alguns meses com Perséfone, uns com Afrodite e outra parte onde quisesse, e ele sempre passou com Afrodite.

Da união com Hermes nasceu Hermafrodito. O jovem ignorou o amor da  ninfa Sálmacis, que fingiu se conformar, mas quando ele se lançou às águas de uma fonte, ela o enlaçou e pediu aos deuses que nunca os separassem. Os dois corpos fundiram-se em um só. Afrodite também amou Dioniso e com ele teve Priapo. Uma variante do mito de Priapo diz que logo que Afrodite nasceu, Zeus se apaixonou por ela e a possuiu em longa noite de amor. A esposa Hera, enciumada com a gravidez, deu-lhe um soco no ventre e Priapo nasceu com o pênis descomunal. Com medo de serem ridicularizados, a deusa o abandonou numa montanha, onde foi encontrado e criado pelos pastores.

As  maldições de Afrodite também foram célebres. Quando queria satisfazer caprichos ou se vingar de ofensas, a deusa fazia do amor uma arma mortal. Hipólito desprezou seu culto e foi castigado com a paixão que ela inspirou em Fedra, a madrasta dele. Enquanto protegia Jasão na busca do Velocino de Ouro, fez com que Medéia o amasse loucamente. Puniu as mulheres da ilha de Menos, que se negavam a prestar-lhe culto, com um odor insuportável. Quando os esposos as abandonaram, elas mataram a todos e fundaram uma república de mulheres que durou até o dia em que os Argonautas passaram pela ilha e lhes deram filhos.

Como símbolo da fecundidade em função do desejo ardente e irresistível que provoca, a deusa foi freqüentemente representada entre animais ferozes. No hino homérico à deusa seu poder é mostrado não apenas sobre os animais, mas até sobre o próprio Zeus: "Ela transforma até mesmo o juízo de Zeus, o deus dos raios, o mais poderosos de todos os Imortais; e embora seja tão sábio, a deusa faz dele o que quer... "

A atribuição mais conhecida de Afrodite foi a de deusa da beleza e do amor, defensora do prazer simbolizado pela atração sexual, mas aos poucos a divindade adquiriu a denominação de deusa do amor no seu sentido mais puro, e ela foram atribuídas outras conotações que se referiam às diversas formas de expressão do amor.

 

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