Coluna de Rogel Samuel 
Rogel Samuel é Doutor em Letras e Professor aposentado da Pós-Graduação da UFRJ. poeta, romancista, cronista, webjornalista.
Site pessoal: http://www.geocities.com/rogelsamuel

Nº 125 - 1ª quinzena de fevereiro 2008
(próxima coluna: 25/2)

O 1º capítulo deste importante romance mereceu matéria de página inteira no Jornal "Amazonas em Tempo", em 13/12/07.
Clique aqui para ler a reportagem na íntegra

FOTOS DE ALGUNS PERSONAGENS (FILETO PIRES FERREIRA, EDUARDO RIBEIRO, W. SCHOLZ, ETC.) E LUGARES DO "TEATRO AMAZONAS" EM: http://www.flickr. com/photos/ 12439475@ N05/sets/ 72157603842512154/

"TEATRO AMAZONAS"
(Romance inédito)


           5. A OBRA MUDA DE LUGAR

            O lugar escolhido para a construção do Teatro Amazonas era um espaço “perfeitamente ventilado” e ficava no centro da cidade de Manaus. Área monstruosa. Ocupava quase todo o centro, da rua da Conceição à Comendador Clementino, ou seja, abrangia as atuais ruas Joaquim Sarmento, Eduardo Ribeiro, Henrique Martins e Saldanha Marinho.
            Vários terrenos foram desapropriados.
            A rica província despendeu 11 contos. Projeto faraônico. Entre 1880 e 1900 só se construíram obras gigantescas em Manaus. Governantes com muito dinheiro para gastar. Grandes edifícios, Colégio Estadual, a Biblioteca Pública, o Palácio do Governo, o Quartel, o Tesouro e pontes, aterros, ruas, estradas. Manaus se agigantava. Queria imitar Paris.

            Depois da primeira escolha do terreno começaram a comprar os materiais: aço, telhas, portas, janelas. Tinha-se de nivelar a Praça Paissandu, que ficava na área. No orçamento de 1883-84, dotava-se para as obras 80 contos. A construção foi contratada com o comerciante Manuel de Oliveira Palmeira de Menezes. A planta era a portuguesa. O contrato extenso, minucioso, publicado no jornal “Amazonas” em 17 de outubro de 1883. Mas o contratante, Manuel de Oliveira, passou o contrato para Alexandre Dantas e esse para a firma italiana Rossi & Irmãos. Os Rossi começaram as obras, mas modificando e encarecendo o contrato em mais 300 contos.

            Porém, entre 1881 e 1884 pouco se soube das obras de construção do Teatro Amazonas.

            Em 85 foi votada uma lei que pedia mais 300 contos em apólices e mais 600 contos para a “conclusão” das obras do Teatro, obras de canalização de “água potável”, ou seja, as obras acabavam subindo para cerca de 1.250 contos.

            Um dia, a Comissão Administrativa foi reunida às pressas, por ordem do Secretário de Estado, o sr. Fileto Pires Ferreira. Ao gabinete do Secretário compareceram Leovegildo Coelho, João Antony e Charles Brisbin, além de vários outros personagens que representavam Rossi & Irmãos e o Dr. Canavarro, Diretor de Obras Públicas.

           Fileto Pires Ferreira era o grande gerente do Governo Eduardo Ribeiro. Virá ser o seu sucessor. Graças a ele o governo pôde fazer várias grandes obras ao mesmo tempo, combatendo a corrupção e fazendo de Manaus uma cidade moderna no meio das selvas. Eduardo Ribeiro era um governador incansável, mas tinha intermitentes surtos de loucura e demência e crises nervosas quando ficava irreconhecível, ansioso e agressivo, e naqueles momento Fileto Pires era imprescindível para organizar tudo e resolver a crise. Eduardo Ribeiro tinha completa confiança em Fileto Pires. Fileto confiava no Governador. Fileto chegou até a deixar um papel assinado em branco nas mãos de Eduardo Ribeiro, papel que teria conseqüências catastróficas no futuro de Fileto, pois este documento em branco assinado caiu nas mãos dos adversários políticos de Fileto quando este era governador e estava em Paris e ali foi forjada uma carta de renúncia ao Governo do Amazonas. Fileto foi assim deposto por um golpe branco.

            Fileto Pires Ferreira era um homem elegante, magro, testa sonhadora, grandes bigodes tipo Nietzche e muito gentil com todos ao redor. Alguns o chamavam de dândi, uma espécie de playboy da época. Mas Fileto era um homem culto, de raciocínio matemático, positivo, e acabou a vida como general, no Rio de Janeiro. Pertenceu ao grupo de jovens oficiais que subiu ao poder após o 15 de Novembro. Era natural do Piauí. Nasceu em Barras, a 16 de março de 1866, filho do Capitão Raymundo de Carvalho Pires e D. Lydia de Santana Pires. Fez seus estudos em Teresina e iniciou sua formação militar em Porto Alegre, em 1884. Transferido no ano seguinte para o Rio de Janeiro, veio a tomar parte na preparação do movimento republicano de Benjamim Constant. Dirigiu um manifesto de solidariedade a Benjamim Constant. A 15 de novembro de 1889, estava entre os oficiais da 2a Brigada de Deodoro para depor o Gabinete Ouro Preto, o que resultou na proclamação da República.
            Em começo de 1890, Fileto foi mandado para o Amazonas, para servir ao lado de Augusto Ximenes de Villeroy, que, então, era 1.°-Tenente e Governador do Amazonas nomeado pelo Governo- Provisório, em substituição à Junta que assumiu o poder com a proclamação da República. Ao chegar à Manaus, já como 1.°-Tenente, Fileto Pires foi nomeado Superintendente Municipal de Tefé. Regressou ao Rio de Janeiro, concluindo em 1891 sua formação militar, com o título de Bacharel em Matemática e Ciências Físicas e Naturais. Temporariamente fora do serviço ativo do Exército, esteve em Minas Gerais, onde foi engenheiro ferroviário.
            Logo após o golpe de Estado de Deodoro, Fileto Pires foi chamado ao serviço ativo, sendo mandado ao Pará. Em viagem soube da queda de Deodoro e ascensão de Floriano. Deste recebeu ordem de seguir para Manaus.
            Fileto Pires estava em Manaus quando foi deposto o governador Thaumaturgo de Azevedo que tinha aderido ao movimento do Marechal Deodoro e agora se via incluído na lista negra dos governadores a serem depostos no contra-golpe de Floriano. Thaumaturgo de Azevedo era da mesma cidade de Fileto, Barras do Marataon, no Piauí. Thaumaturgo nasceu em 1853 e Fileto em 1866. Os dois se conheciam.
            Gregório Thaumaturgo de Azevedo foi o primeiro governador do Piauí, de 1889 a 1890. E foi governador do Amazonas de 91 a 92. Aborrecido com a luta política, demitiu-se do governo do Piauí depois de um excelente governo. O seu secretário de governo era Clóvis Bevilaqua. Ofereceram-lhe o governo do Paraná. Recusou. Mas optou pelo Amazonas. Foi preso por Floriano, reformado, deportado para a fortaleza de São Joaquim do Rio Branco. Anistiado, voltou ao Exército, chefiou a Comissão de Limites com a Bolívia, que nos deu o Acre.
            “Thaumaturgo de Azevedo é um grande estadista que merece ser reverenciado por todos os brasileiros”, escreveu Plácido de Castro. Foi prefeito do Alto Juruá, fundador da cidade de Cruzeiro do Sul, e Comandante da Brigada Policial do Rio de Janeiro. Ganhou a medalha de ouro Simão Bolívar.

            Eduardo Gonçalves Ribeiro substituiu Thaumaturgo de Azevedo e assumiu o governo, a 11 de março de 1892.
            Convidou Fileto Pires para Secretário do Estado.

            Fileto Pires Ferreira abriu solenemente os trabalhos da Comissão Administrativa:
            – Senhores, considero aberta a reunião.
            Charles Brisbin interveio:
            – Não vai esperar o Governador, senhor Presidente? – sabendo que Eduardo Ribeiro estava temporariamente demente.
            – O Governador não vem, disse Fileto. Toda a responsabilidade é desta Comissão. Como sabem, os trabalhos da construção do “Teatro Amazonas” já começaram e muito se gastou em terraplanagem, aterros e compra de materiais. Várias casas foram demolidas e um exército de operários especializados já se encontra morando em Manaus. As fundações estão sendo escavadas, disse Fileto, mas se descobriu que aquele lugar é imprestável para erigir um edifício tão alto e pesado, porque por ali passa um rio subterrâneo e mais o Igarapé do Espírito Santo. A terra não é estável, não é firme.

            Fileto falava rápido e sempre encarava o seu interlocutor, olhando-o nos olhos.

            Charles Brisbin cofiava o bigode com a mão gorda. Estava sério, pensativo, preocupado. Imaginava ele: “vão pensar que este teatro não sai, que nos vamos apropriar das verbas públicas...”
            – Quanto já se gastou? perguntou Charles Brisbin.
            – Não sei, mas é fácil saber se fizermos uma auditoria de tudo, respondeu Fileto, firme.
            Fileto era honesto e preocupado em preservar o bem público.
            – O que sei é que já se enterrou uma grande fortuna ali, disse um certo Brabante, que até então se mantinha calado. “E isto é muito grave”, concluiu.
            – Também acho, disse Charles Brisbin. É muito dinheiro para ser abandonado no fundo da terra.
            – Não foi em vão, senhores, argumentou Fileto Pires firme e decidido. Aquela área está preparada para ser o centro da cidade. Vamos abrir ali ruas e lotear os terrenos, ressarcindo os cofres públicos.

            E depois de um longo e incômodo silêncio:
            – Vocês não pensam que, por causa desse problema, teremos de abandonar a idéia de construir o nosso teatro!

            Mais silêncio na mesa.
            – O Governador Ribeiro nem admite que se cogite esta idéia, disse Fileto.

            Silêncio. Charles Brisbin pigarreou e perguntou:
            – É verdade que ele está doente?
            – Está indisposto, respondeu Fileto, sem se abalar, sabendo que Eduardo Ribeiro estava sedado por seus médicos e atravessava mais uma de suas crises de depressão.
            – Talvez fosse melhor dissolvermos esta comissão, disse alguém.
            Então Navarro de Almeida, diretor de Obras Públicas, se irritou e gritou:
            – Os senhores não podem fugir de suas responsabilidades!
            – Mas de quem é a responsabilidade, perguntou Antony, quem é o responsável pela escolha errada que somente agora se revelou?
            – De ninguém, respondeu Navarro. Era impossível saber, antes das escavações. Para erigir um edifício daquele porte, um edifício gigantesco, de pedra e ferro, o terreno tem de ser sólido. Estávamos construindo o teatro sobre um pântano...
            – De quem será a culpa e a responsabilidade dos gastos indevidos? – perguntou Antony. Com o que já se gastou já se teria construído dois ou três teatros do projeto original do deputado Fernandes...
            Todos se calaram, olhando João Antony com ódio. A situação ficou tensa. Ameaçava explodir.

            Fileto, então, interveio:
            – Senhores, de nada adianta nós nos culparmos de erros que não cometemos. Já disse que o Estado não teve nem terá nenhum prejuízo. Todos os aterros realizados até agora serviram para estabilizar a área do centro da cidade, e agora a cidade poderá ser construída num outro patamar, e não sobre um pântano. Será planejada. Manaus será uma cidade moderna, planejada, e será a primeira a ter iluminação elétrica no Brasil. Acertamos no que erramos. Vamos ser práticos e não compliquemos as coisas mais do que já estão.

            Fileto Pires Ferreira sempre exercia e impunha a sua liderança e autoridade.
            Foi quando o tenente-coronel Antonio Lopes de Oliveira Braga tomou a palavra e disse:
            – Temos de pensar agora naquela área que já tinha sido escolhida antes, área escolhida pelo deputado Meireles...
            – Mas aquele projeto foi rejeitado, disse Antony.
            – Sim, mas eu conheço o local, tenho um roçado ali, disse Braga. O lugar é bom, é muito bom. É elevado, imponente. O mais elevado da cidade. Fica no que os caboclos chamam de “terras altas”.
            – Gosto daquela área, ali o Teatro será bem, disse Fileto Pires.
            E depois de uma breve discussão as obras mudaram de lugar, para aquele terreno alto, um dos mais elevados da cidade, em frente à praça de São Sebastião, na época um terreno apenas limpo para erigir ali uma coluna comemorativa da abertura dos portos no rio Amazonas. O monumento foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1867.
            No dia 14 de fevereiro de 1884 foi lançada a pedra fundamental do Teatro Amazonas no novo lugar. Estavam presentes o Governador Eduardo Ribeiro, o Secretário de Estado Fileto Pires Ferreira, e outros.

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