COLUNA DE VÂNIA MOREIRA DINIZ

Nº 153 - 21/5/2014
(próxima: 6/6/2014)


          

Impotência, cruel realidade...

Outro dia, quando percebi que embora tudo pronto para decolar voo o jornal não poderia ir ao ar, lembrei-me de minha infância há muitos anos passados.

Encenava uma peça no imenso palco do meu colégio e estava esfuziante de alegria. Na coxia com as últimas instruções olhava por entre as cortinas grossas de veludo mas não consegui ver direito quem estava lá esperando os pequenos artistas em expectativa, exceto que estava cheíssimo o auditório.

Quando começamos a encenar a peça, entusiasmada só podia me concentrar no meu próprio papel, não conseguia vislumbrar com clareza se estavam lá as pessoas que eu esperava com o coração transido de ansiedade.

Nos intervalos entre os atos não enxergava com nitidez o público e não conseguia fixar-me em ninguém senão a multidão sentada que olhava com interesse e batia palmas.

Quando finalmente a peça foi encerrada e agradeci à assistência e depois quando a cortina abriu novamente eu me curvava com os outros no gesto final de agradecimento pude ver  que eles não estavam lá.

Tudo que eu sentira de felicidade e alegria, o delírio que tomara conta de mim quando interpretava a peça e as palmas que faziam meu coração vibrar cessaram para que eu entendesse que meus pais não estavam lá. E uma dor imensa tomou conta de mim. Lágrimas intermitentes desciam pelo meu rosto enquanto eu tentava escondê-las e fazia um enorme esforço para que não caíssem.

Sei que eles podiam ter seus motivos e que eu não deveria ficar nesse estado mas minha dor era maior.

Aflições não se medem e naquele momento, aos 9 anos, olhando para as pessoas que se aglomeravam à minha volta, só queria correr para dentro dos bastidores e  ficar quieta e muda. Sensação de impotência e tristeza e que eu ia, é claro, experimentar muitas vezes em minha vida.

Compreendi o quanto a impotência é dura, principalmente porque as pessoas à nossa volta, muito naturalmente não podem compreender o porquê de tanto desânimo.

Naquele instante meu mundo tinha caído, meus pais não estavam ali, e eu representara em primeiro lugar para eles, esperando o abraço e o beijo de congratulação especial, o olhar de admiração e carinho e a compreensão de quanto aquilo tudo significava para mim.

A realização é algo que fascina principalmente porque nos transportamos e entendemos que não é só nossa vida que está em jogo mas de todas as pessoas que confiaram em nós e participaram dum mesmo ideal.

Isso aconteceu algumas vezes em situações de maior ou menor importância e até no dia em que aos 12 anos chegando em casa do colégio compreendi que meu irmãozinho ia morrer.

Foi a hora mais dolorosa de minha vida como se me tivessem tirado o chão debaixo de meus pés e eu estivesse me afundando.

Mas naturalmente que existiram em maior proporção as esperanças, alegrias, realizações, delírio ao ver alguém feliz, ou ao sentir que podia confiar na energia da natureza e no amor incondicional das pessoas que eu amo.

Outro dia, quando me convenci que o Jornal Ecos não iria ao ar foi um momento de decepção profunda e não sei porque tantos episódios passaram como um filme em minha cabeça, doendo ou regozijando o coração dependendo de cada cena que minha memória filmava ante meus olhos interiores magnetizados por cada espaço de recordação.


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