Coluna de Rogel Samuel 
Rogel Samuel é Doutor em Letras e Professor aposentado da Pós-Graduação da UFRJ. poeta, romancista, cronista, webjornalista.
Site pessoal: http://literaturarogelsamuel.blogspot.com/

Nº 217 - 1ª quinzena de junho de 2012
(atualização quinzenal, dias 10 e 25)

O Shangrilá de Manaus

Era meu tio possuidor de um belíssimo Sinca Chambord, o melhor de sua época, e um dia me convidou para sair com ele naquele carro, à noite, depois do escritório, para acompanhá-lo a um cabaré.

Naquele tempo eu trabalhava com ele, escrevendo cartas comerciais, pedidos aos fornecedores, essas coisas.

Saímos para o Cabaré “Shangrilá”, que ficava afastado de Manaus, numa estrada escura e no meio da selva.

O lugar era excelente, ventilado, ecológico, tranquilo. A iluminação propositalmente fraca não permitia deixar ver quem estava no salão.

Tomamos uma mesa, pedimos uma cerveja, meu tio contente, alegre, como se jovem fosse, foi dançar com uma das mulheres que circulavam por ali, mulheres agradáveis e educadas, algumas até belas.

Aquilo era uma espécie de clube.

Mas tinha um detalhe: repetia a música, que se retornava lentamente, que ia e vinha, entre outras, a composição de Rafael Hernandez, na versão de Lourival Faissal, na excelente voz de Emilinha Borba. Um clássico.

Assim se passaram dez anos
Sem eu ver teu rosto
Sem olhar teus olhos
Sem beijar teus lábios assim
Foi tão grande a pena
Que sentiu a minha alma
Ao recordar que tu
Foste meu primeiro amor

Era a música do momento, o grande sucesso do momento.

Apesar de eu ser menor, quinze dezesseis anos se tanto, eu tinha um copo de cerveja comigo. Ninguém se importava com isso, ali tudo era permitido, desde que discreto.

Era um mundo muito tranquilo, aquele.

A dança se arrastava, lenta, repetida, pois o toca-disco daquela “eletrola” estava com o tempo levemente atrasado, um tempo lento, inebriante, embriagador.

Foi quando uma jovem do interior, muito jovem, quase uma menina, sentou-se na minha mesa, veio fazer-me companhia, enquanto meu tio dançava e desaparecia com sua parceira.

- Como é seu nome - perguntei, tímido.

- Lindalva – ela me respondeu, rindo-se.

Ela tinha um sorriso belo, iluminava tudo, a penumbra, a escuridão.

E disse-me que era nova por ali, mas muito requisitada pelos homens de idade, e que estava esperando um freguês importante. Ela estava comprometida com ele, tinha de esperá-lo.

Mas me disse que estava querendo um novo amor, algo sério. Queria casar, ter uma casa e filhos para cuidar.

Na caixa de som, Emilinha Borba cantava, tristonha – “assim se passaram dez anos”... – e se podia ouvir o arrasta-pé dos pares na sala. E um perfume barato, um perfume suburbano, subia aos ares misturado com a fumaça dos cigarros.


E assim, não se passaram dez, mas cinquenta anos.

Mas eu nunca esqueci a menina Lindalva.

Nós não nos tocamos, mas o mundo girou ao nosso redor.

Depois de muito dançar, meu tio voltou, pagou a conta e nós nos retiramos.

E só. E como diz a música:

Foi tão grande a pena
Que sentiu a minha alma
Ao recordar que tu
Foste meu primeiro amor

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